Um assunto que está totalmente ausente da campanha eleitoral é Portugal e o seu papel no Mundo. O desinteresse por este tema é revelador da falta de ideias e da falta de ambição que existe para o nosso país. Em termos muito simples, não há qualquer ideia sobre um rumo para Portugal e nem há grande preocupação com isso.

Isso ficou bem patente quando o Presidente da República apareceu na televisão, em Nova York, a referir que estava a defender os interesses de Portugal mas, em vez de explicitar quais são esses interesses, optou antes por demonstrar o seu desinteresse pela questão e por “jurar a pés juntos” que não era criminoso (?).

Uma coisa é certa: se Portugal não interessar aos portugueses, não interessará com certeza a mais ninguém. Mas este desinteresse de Portugal por Portugal é coisa nova na nossa longa História de quase 900 anos.

Portugal foi o primeiro país do Mundo a afirmar o seu interesse global e a implementar uma estratégia, a partir do século XV, abrangendo dois oceanos – Atlântico e Índico – e três continentes – África, Ásia e Europa.

Passados 500 anos, na década de 1960, o interesse de Portugal ainda assentava na manutenção do Império. O Estado Novo e Salazar foram acusados de defender um país que não interessava pois só olhava para o seu “umbigo”, o famoso “orgulhosamente sós”. Mas o “umbigo” dessa altura tinha algum interesse, pois alongava-se de Minho a Timor. Como mostravam alguns mapas dessa época, Portugal era maior do que a Europa.

Em 1974-1975, com o fim do Império, o interesse mudou para a Europa. A aposta foi numa sociedade livre e democrática, e no desenvolvimento económico e social, ambos consolidados com a entrada nas Comunidades Europeias em 1986. A adesão foi um meio mais do que um fim, com a lógica de que pertencendo a um “clube” de países desenvolvidos Portugal se tornaria também num país desenvolvido.

O pós-1986 beneficiou de apoios europeus e foi aproveitado para reforçar infra-estruturas e aproximar o nível de consumo em Portugal dos restantes estados membros. Até ao final do milénio houve convergência no nível de desenvolvimento e a preocupação de continuar a ser um “bom aluno” europeu, apesar da ausência de um projecto estratégico distintivo.

As tentativas de definição estratégica de base económica (corporizadas, por exemplo, pelo falecido Professor Ernâni Lopes) nos anos 1990 apostaram no desenvolvimento de Portugal com base na competitividade e na internacionalização da economia no triângulo Europa-África-Brasil, juntando a integração europeia e as ligações com Espanha ao retomar das relações com os PALOP.

Mas os resultados não foram os esperados. A aposta em Espanha e no Brasil surgiu como uma reacção à estratégia espanhola e falhou em muitos casos, e os PALOP são muito pobres, não possibilitando às empresas portuguesas o crescimento necessário para aproveitarem economias de escala e ganharem competitividade.

Os anos 2000 agravaram este panorama. A perda da possibilidade de desvalorização cambial por via do Euro, em conjunto com o alargamento da UE a Leste, a entrada da China na Organização Mundial do Comércio e a abertura do mercado europeu a empresas do sudeste asiático, comprometeu para sempre as vantagens comparativas de baixos custos de produção da economia portuguesa.

Até à crise de 2009, a preocupação foi aumentar a competitividade das empresas através da maior qualidade dos produtos. Desde então houve principalmente a gestão de uma crise grave por falta de produtividade e competitividade, e por excesso de dívida pública, privada e externa, e que ainda hoje não está resolvida.

O interesse em estar na Europa rica e desenvolvida para sermos ricos e desenvolvidos tem sido apresentado como o único caminho – “não há alternativa” – para o nosso desenvolvimento.

Mas o que os últimos vinte anos comprovam é que este interesse se revelou ainda mais ilusório desde que aderimos ao Euro, em que o nosso país estagnou, o interesse de Portugal se desvaneceu e nos tornámos um país sem motivo e sem destino.

A ilusão já vinha de trás, porque Portugal nunca abandonou a Europa, foi sempre europeu, e a “integração” com estes países começou com Salazar e o Estado Novo, quando o nosso interesse nos levou a aderir a diferentes organizações internacionais como a NATO ou a EFTA, e não com a adesão à UE.

O que aconteceu foi que Portugal substituiu o afunilamento na manutenção do Império com o afunilamento na UE e a dependência de fundos europeus, adoptando uma atitude reactiva de copiar as opções políticas de países mais desenvolvidos e com mais recursos. Mas estando Portugal em desvantagem por ter menos recursos torna-se pouco provável que a aposta sucessiva na imitação conduza a uma convergência das condições de vida dos portugueses.

O Portugal sem interesse do Estado Novo que apenas olhava para o seu “umbigo” tornou-se no Portugal sem interesse do século XXI, que apostou tudo no beco sem saída que é a União Europeia. Deixámos a velha traineira que simbolizava o atraso do país “orgulhosamente só” para embarcar num “proto-Titanic” europeu que anda à deriva e sem rumo.

O desinteresse de Portugal por Portugal não tem de continuar. Há mais Mundo para além da União Europeia para definir e implementar objectivos políticos estratégicos com uma importante base económica.

O interesse estratégico tem de ser mais do que simplesmente reagir ao curso dos acontecimentos. Como Democracia que ambiciona o melhor nível de vida para a sua população, Portugal precisa de construir um interesse comum estratégico que reforce a sua interdependência face ao resto do Mundo e que previna situações futuras de dependência absoluta, como está em risco de acontecer actualmente face à UE.

Sobre isto ainda nenhum partido se pronunciou, mas seria bom que o fizesse até ao fim da campanha. Teria interesse!?