Que a internet é parte substancial do trabalho do Demónio, já toda a gente sabe. Mas é importante reconhecer que a internet serve não apenas de revelação do Demónio mas como de revelação de quem nós somos também. A internet, que só apareceu nas nossas vidas a partir da década de 90 do Século passado, mostra a vida que levamos desde tempos imemoriais. Hoje, a pretexto de um fenómeno de internet dos nossos dias, quero falar-vos de uma característica humana intemporal: raramente pomos na montra quem realmente somos.

O fenómeno que quero tratar é o do fantástico parasita da caixa de comentários. Sim, as caixas de comentários da internet são verdadeiros oráculos com verdades que estavam escondidas durante tempos imemoriais. As caixas de comentários da internet providenciam momentos apocalípticos ímpares, fenómenos que esperávamos só serem evidenciados no Dia do Julgamento Final. Dou um exemplo: todos temos familiares que até disporem de comentários de internet eram familiares impecáveis. Pais dedicados, tios amorosos, filhos reverentes, avós extremosos. De repente, e a pretexto do assunto mais comezinho, saíram do armário da rotina para afirmarem opiniões extremistas, políticas burgessas ou, talvez pior do que tudo, inimagináveis erros de português. A internet denunciou características odiáveis em gente que amávamos perdidamente. A internet matou todas as famílias perfeitas.

Mas o fenómeno do parasita da caixa de comentários é literariamente mais requintado. O parasita da caixa de comentários de que vos falo não é o comum ogre (ou, no inglês original, o troll). Não. O parasita da caixa de comentários é alguém que se alimenta de outro organismo. Ao passo que o ogre é um canibal, o parasita produz uma cultura alternativa. O parasita da caixa de comentários não arruina a vida do autor que comenta: ele providencia uma autoria paralela. Acontece até o parasita da caixa de comentários erigir um discurso que, partindo do discurso do autor oficial, é muito mais interessante. O parasita é frequentemente uma criatura mais fascinante do que aquela da qual ele se alimenta.

Já tem acontecido com textos meus aqui no Observador: o fantástico parasita da caixa de comentários escreve melhor do que eu. O fantástico parasita da caixa de comentários consegue até um relacionamento mais viçoso com os leitores. Vejam o prodígio: outros comentadores da caixa de comentários comentam o texto do parasita, abandonando sem pudores o desinteresse do meu. Em último grau, eu próprio, autor original, fascino-me com o parasita e penso que deveria ter pensado o que o parasita pensou. Eu, o autor formal, invejo o comentário do parasita. Eu, o bicho hospedeiro, queria estar no lugar de quem se alimenta das minhas vísceras. Eu, vítima do parasitismo, queria ser quem me prejudica. A vida que anseio é a da minha morte. Impressionante.

O que tem isto a ver com verdades eternas? É meu credo que os escritores melhores sempre foram os parasitas. É no submundo que o mundo real se revela. Os palcos são todos iluminados mas é nos bastidores que toda a verdade se encontra. Um corpo bonito mostra-se mas quem manda nele são as tripas. Ter colunas em órgãos de comunicação social pode prestigiar mas os enunciados mais necessários aparecerão com frequência na odiosa secção da caixa de comentários.

Nem todos os parasitas são criaturas fascinantes, atenção. Mas o apocalipse também vai ser uma espécie de vingança da vida microscópica sobre os textos oficiais. Vinde e tomai posse, vós, ó exércitos camuflados dos subtextos!