Desde o início da pandemia que temos assistido a uma interminável sucessão de equívocos políticos. Desde o simbólico refúgio na varanda do Presidente Marcelo, passando pelo destempero trauliteiro do “desmascarado” Ferro Rodrigues nas comemorações abrilinas, até às declinações evidenciadas na “procissão” do primeiro de Maio, tudo foram motivos de desesperança em relação ao tom e ao modo que seriam de esperar dos dirigentes políticos que hoje lideram as principais instituições do Estado.

Mas a hipérbole da falta de sentido de Estado que se exigia a todos, em tempos de uma crise de tão grave contrição, apareceu, surpreendentemente, na lamentável sucessão de equívocos despoletada pelo novo (?) empréstimo ao Novo Banco.

Vivemos, infelizmente, num tempo de democracia mediática, onde a porta de Cristina Ferreira é mais disputada que a tribuna principal do nosso parlamento que, só de vez em quando, leva o conveniente epiteto de “Casa da Democracia”.

A verdade é que o actual Presidente da República ressuscitou para a vida política à custa de um programa televisivo e parece ter desse renascimento público uma aguda e confiada percepção.  E, talvez por isso, nunca superou o personagem do analista ou comentador mediático e o tacticismo e vocação cénica que ficam associados a quem tem, todas as semanas que desempenhar um papel. Marcelo, conhecido de sempre pelo seu frenesim, não resiste a uma postura de Estado, sóbria e tranquila, como seria necessário neste advento da pandemia.

Quis o destino que a Marcelo se juntasse António Costa. E apesar das virtudes ou do virtuosismo político que o Primeiro Ministro já demonstrou, também parece comprovado que esta habilidade de estar de bem com Deus e com o Diabo, de construir quimeras e geringonças, não transmite, em especial em momentos de grande rigor e responsabilidade como o que vivemos, nenhum conforto ou segurança.

Finalmente, temos uma oposição fragmentada entre dois partidos que se perderam entre si e que têm hoje lideranças novas, talvez num caso “demasiado novas” e, no outro, demasiado gastas pelas tensões e conflitos internos e pelo ziguezaguear de quem parece, definitivamente, perdido no tempo.

Temos depois o hiper fenómeno do Chega, uma espécie de sociedade unipessoal de André Ventura, curiosamente também ele vindo do espaço mediático, com o dom de saber dizer o que muitos portugueses apenas sussurram, mas também ele a desempenhar um sofisticado e perigoso papel.

O caso “Novo Banco” recordou-me, no melhor requinte, o Príncipe de Maquiavel. Que equívocos, encontros e desencontros foi preciso criar para dois predadores do espaço mediático se entenderem entre si, com o propósito único de conjurarem o assassinato político de um super-ministro que apesar de poder parecer apatetado, tem verdadeiramente o sucesso estatístico dos números a falarem por si?

O embuste do Novo Banco apenas confirmou o desencanto que sentimos pelas personagens que hoje lideram as instituições do Estado.

Precisávamos tanto que a política e os seus principais líderes, nestes dias de crise que ainda mal começaram, saíssem de cena e começassem verdadeiramente a pensar em Portugal e nos Portugueses.