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Berlim 25 Anos

O PCP e o sentido da história

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Seria errado interpretar o Editorial do “Avante!” de 6 de Novembro como uma manifestação de simples nostalgia do glorioso mundo da defunta RDA. Não é um fingimento útil: é uma crença absoluta.

Muitas coisas nos têm vindo a lembrar que o passado não é tão passado assim. O recente comportamento de Putin, é claro, e sobretudo certas reacções do PCP à celebração dos 25 anos da queda do muro de Berlim. Putin declarou que nada de intrinsecamente censurável presidiu ao pacto germano-soviético, e o PCP, que manifestamente tem sobre o muro uma opinião muito positiva, fala, a propósito dessas celebrações, de uma “campanha anticomunista de intoxicação da opinião pública”. A criação do muro foi “um incontestável acto de defesa e de soberania”, destinado a contrariar a “subversão dos países socialistas”.

Seria errado interpretar o Editorial do “Avante!” de 6 de Novembro como uma manifestação de simples nostalgia, a tender para o criminoso, do glorioso mundo da defunta RDA, e, por extensão, de todo o universo da antiga URSS, com os seus gulags e belezas adjacentes. É isso talvez em parte, pelo menos visto de fora, mas é muito mais do que isso. É sobretudo a reiteração de uma confiança cega de que a história possui um sentido (na dupla acepção de “direcção” e “significado”) e de que os recuos presentes, simbolicamente representados pela queda do muro, possuem um carácter puramente provisório que a história mais cedo ou mais tarde se encarregará de colocar no devido “caixote de lixo”. Essa convicção não é de ordem pragmática: é antes algo próximo de uma alucinação que serve para enquadrar toda uma percepção da realidade. Não é um fingimento útil: é uma crença absoluta.

Senão, vejamos. Quem são os fautores da queda? As “forças da reacção e da social-democracia”. Sim, da social-democracia também, porque a social-democracia é uma velha inimiga, muitas vezes a inimiga principal, o “social-fascismo”. Quer dizer: forças que tentam contrariar o curso natural da história. Essas forças celebram hoje em dia a “anexação” de um país “célebre pelas suas notáveis realizações nos planos económico, social e cultural e pela sua política antifascista e de paz”. E qual o subtil processo usado por tais sinistras entidades para destruirem o Paraíso? Simples: “conseguindo que manifestações, nomeadamente em Leipzig, que na sua essência reclamavam o aperfeiçoamento do socialismo e não a sua destruição, ganhassem a dinâmica contra-revolucionária que conduziu à precipitação dos acontecimentos e à anexação forçada da RDA pelo governo de Helmut Kohl”. Os cidadãos da RDA queriam mais socialismo, muito mais socialismo, um socialismo mais “aprofundado”, e acabaram, coitados, com o capitalismo que detestavam ao ponto de arriscarem a vida vezes sem conta a tentar fugir para a sua mais próxima encarnação.

Mas, é fundamental, não devemos desesperar. A ciência da história traz consigo uma certeza inabalável: “Num processo acidentado, feito de avanços e recuos, de vitórias e derrotas, o futuro da Humanidade não é o capitalismo mas o socialismo e o comunismo”. O “sentido da história” não é um ideal a perseguir: é algo que vem revestido de uma necessidade absoluta. A direcção só pode ser o comunismo, e só o comunismo pode dar significado às nossas vidas. Os presentes desastres empíricos no progresso em direcção ao absoluto da felicidade social comunista não passam de espuma de superfície, sem qualquer peso real no curso da história. A “intoxicação da opinião pública” nada poderá, a longo prazo, contra as forças subterrâneas que organizam, e garantem, o advento do comunismo.

Esta reabilitação actual, a propósito do acontecimento simbólico da queda do muro, de uma doutrina que não se alterou quase um milímetro desde a sua primeira formulação, conta, é verdade, com a excitação empírica motivada pela recente política de Putin. A situação presente do mundo lembra ao PCP a de há 25 anos atrás. A União Europeia professa políticas “neoliberais, federalistas e militaristas”, notórias sobretudo nos actuais confrontos com a Rússia de Putin. “A situação que hoje se vive na Ucrânia, nomeadamente com a ascensão ao poder de forças fascistas, a perseguição anticomunista e a escalada de confrontação com a Rússia é o desenvolvimento lógico da «cavalgada» do imperialismo para Leste que se seguiu às derrotas do socialismo na RDA e noutros países socialistas.”

Esta motivação empírica é potente, e reata com o velho amor do “Sol da terra” (expressão de Álvaro Cunhal), a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (“quatro palavras, quatro mentiras”, dizia o filósofo Cornelius Castoriadis). Putin não pode deixar de fazer sonhar no capítulo. Apesar de tudo, o antigo funcionário do KGB também sofre de nostalgia da URSS, e se, que eu saiba, ainda não se serve do vocabulário “científico” do marxismo-leninismo, nada o impede, se tal ajudar ao nacionalismo da Grande Rússia, de futuramente o utilizar.

Resumindo. Na RDA não havia a Stasi, não havia uma terrível miséria no plano da sociabilidade, não havia gente disposta a arriscar a morte para fugir de lá. A linguagem utilizada para o dizer é intemporal, situa-se fora do tempo, como nos grandes mitos. É uma história sem história e, por isso, sem atenção ao sofrimento humano. Ou melhor: o sofrimento humano encontra-se antecipadamente justificado pela necessidade férrea das míticas leis da história.

Há uma coisa óbvia que resulta destas convicções fundas, e sobretudo da convicção maior no sentido da história, que é algo muito mais forte que as alambicadas “narrativas” pósmodernas. Num mundo ideal, no qual felizmente não vivemos, o PCP, tomando o poder, não hesitaria em repetir os maravilhosos processos utilizados na antiga RDA, e no resto do império “soviético”, para manter viva a paixão do socialismo. Se não nos cortassem o gasganete, teríamos direito, pelo menos, a uma perseguição política impiedosa e a uma diminuição radical das nossas liberdades ambientes. Para lá, é claro, da miséria que nesse mundo ideal seria o pão nosso de cada dia. Dizer que o PCP não aprendeu nada nem esqueceu nada é um eufemismo. Porque o tempo, num sentido profundo, não passou por ele.

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