Sentado, com um telefone na mão, resignado, o gesto de Netanyahu foi exposto como um troféu de Trump. Com o fotógrafo a postos, ficou registado o momento em que o Primeiro-Ministro israelita se desculpava ao Primeiro Ministro Mohammed bin Abdulrahman bin Jassim Al Thani do Qatar. Não foi uma cena habitual entre inimigos indisfarçados.
O Qatar não se juntou aos Acordos de Abraão de 2020. É desde há muitos anos o mais fiel financiador do Hamas em todas as suas actividades. Em todo este tempo com o seu canal Al-Jazeera comanda a operação de propaganda incessante pró-Hamas e anti Israel. Estende a sua esfera de influência nas organizações internacionais e junto dos governos estrangeiros com rios de dinheiro para adoçar o dente de políticos fracos e de altos-funcionários corruptos. E abriga as lideranças do Hamas nos luxuosos hotéis de Doha.
No dia 9 de Setembro, as forças armadas israelitas dirigiram um ataque cirúrgico no coração da capital do Qatar com vista a aniquilar o que restava da liderança do Hamas, reunida num local do complexo governamental. Agora que o Qatar, que já fora atacado pelo Irão durante os dias da operação americana e israelita contra os iranianos, assumia um papel-chave de mediação, formulação, pressão e financiamento para o mais ambicioso plano de paz para o conflito Israelo-árabe desde há muito, exigia a cabeça do orgulho israelita. Para Trump era um preço perfeitamente razoável a pagar. Afinal de contas, um aliado americano violara directamente a soberania e os requisitos primários de segurança interna de um outro aliado americano. Além disso, e ao contrário do que tantas vezes se lê na imprensa portuguesa, desde o seu primeiro mandato Trump teve sempre uma relação difícil com Netanyahu, considerando-o um obstáculo irritante na conclusão dos Acordos de Abraão, por exemplo. Por isso, não deve ter sido pouca a satisfação com que encenou um feito que o prestigiaria junto dos seus aliados árabes na região e faria baixar a crista ao PM israelita no longo caminho que agora talvez possa iniciar-se. Mais importante do que isso, a humilhação de Netanyahu era uma exigência do Qatar para se elevar a país que, por via da sua influência sobre o Hamas, podia desfazer o impasse que os americanos, sozinhos, não podiam desfazer. Numa cultura em que, para choque europeu, os pontos de honra, as humilhações e as vinganças, são centrais nos códigos éticos, aquele ritual do telefonema não foi um detalhe.
Evidentemente rejeitado pela esquerda europeia, mas não pelos países que até agora foram fervorosos apoiantes da formação do Estado palestiniano e, nalguns casos, inimigos jurados de Israel, o plano de paz proposto por Trump é a única saída possível para o desastre que se arrasta. Se poderá ser praticado de forma satisfatória, é o maior de todos os pontos de interrogação. Mas, para começar, o consenso diplomático, cuja concepção e formação excluiu evidentemente a patética Europa dos bons sentimentos e maus pensamentos, não tem precedentes. Ajudou, claro, ter sido eliminado o regime sírio dos torcionários e hipócritas Assad – sempre um eterno sabotador de qualquer tomada de posição árabe favorável à reconciliação com Israel. Mesmo para países como a Turquia ou como o Qatar, intensamente hostis a Israel neste conflito, o caminho americano aparece como o único razoável. Porquê? Em primeiro lugar, a força militar e o poder de organização, tecnológico e económico de Israel mostraram a lideranças que respeitam a força mais do que qualquer outra coisa que o projecto dos seus antepassados de aniquilação do Estado sionista se tornara fútil. Em segundo lugar, países-chave nesta mudança, como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e, agora, também o Qatar, são liderados por homens que receiam mais o Irão, e menos Israel, e ambicionam manter os seus respectivos países no projecto peculiar que os caracteriza de modernização económica hiperbólica em conciliação com concepções fundamentalistas da sociedade islâmica. Para isso precisam da protecção americana. Há poucos dias o mundo soube que o Qatar extraiu de Trump uma garantia de protecção americana de que muitos poucos Estados no mundo gozam actualmente. Em terceiro lugar, toda a gente acabou por admitir que a posição israelita de princípio – de que a existência de um Estado palestianiano com as prerrogativas de autonomia militar de um Estado político normal é incompatível com a segurança de Israel e, dada a inconfiabilidade e fanatismo das partes envolvidas, com a sobrevivência de Israel como Estado judaico – devia estruturar o futuro da Palestina independente.
Neste caminho de paz, e para grande desgosto mal disfarçado da extrema-esquerda europeia, nas flotilhas e fora delas, todos concordam que o futuro Estado palestianiano terá de ser um território desmilitarizado. A experiência de uma chuva diária de rockets provenientes do outro lado da fronteira (a norte, do Hezbollah; a sul, do Hamas e da Jihad islmâmica), e finalmente o massacre do 7 de Outubro, mostraram a todos, e não apenas aos israelitas que as garantias formais e tácitas próprias da convivência de Estados independentes não servem para nada quando os governos desses Estados são partidos totalitários religiosos com cartas fundadoras marcadamente genocidas. Na Palestina do futuro não poderá haver armas; terá de haver uma força liderada pelos países árabes subscritores desta solução para garantir o cumprimento destes compromissos; e o Hamas não poderá governar. A par da reconstrução de Gaza, terão de ser meticulosamente desmantealadas infraestuturas de guerra, financiadas vergonhosamente pelo Ocidente e outros democráticos doadores durante anos, como os túneis, e a edificação de estruturas aparentemente civis, mas cuja finalidade seria apenas a perpetração do horrível crime de guerra do uso de escudos civis e da procura deliberada pela maximização das baixas civis para consumo propagandístico. A própria reconstrução de Gaza será finalmente orientada para a procura da prosperidade da população e já não para o ódio assassino a Israel, procurando imitar o modelo de desenvolvimento do Dubai e outros semelhantes. Governada por uma equipa que ninguém sabe quem formará de palestianianos apolíticos e tecnocráticos, a reconstrução da nova e pacífica Gaza será supervisionada por uma “Administração da Paz” liderada pelos EUA.
O desígnio geral soa plausível? Não particularmente. Mas ninguém conseguiu alinhar um plano alternativo que servisse a paz como este. Juras de destruição de Israel, com ou sem apoio do Ocidente, e geração de sucessivas ondas de ódio, e chamar-lhe a “causa da resistência palestianiana”? A contra-ameaça da anexação por Israel de territórios rebeldes que jamais poderiam ser governados sem ser pela repressão perpétua até à destruição da democracia israelita? Manda a prudência que lida com as circunstâncias objectivas e concretas que são dadas, e não com mundos imaginários; mandam também os princípios éticos fundamentais, que alguns invocam com uma perfídia de provocar náuseas, mas que nem por isso podem deixar de nos iluminar; manda tudo isto que fiquemos com este.
Como erradicar o Hamas? Como garantir que a força de paz árabe será eficaz como nunca foram as forças anedóticas da ONU no sul do Líbano? Como fazer da Autoridade Palestianiana, uma máquina de corrupção, violência e ressentimento contra Israel, uma plataforma de governação pacífica e alinhada com estes objectivos? Vão finalmente eliminar o ruinoso “direito de retorno” dos descendentes dos refugiados de 1948? Estas são apenas algumas das muitas dúvidas em redor do plano. Mas mais vale lidar com estas dúvidas, devidamente conscientes da complexidade de todas estas tarefas, do que alimentar a linha radicalmente imoral dos “activistas da paz” a que temos direito – que exigem, de um lado, a suspensão imediata das hostilidades para travar o “genocídio”, e, do outro, respondem com o apelo à continuação da guerra – a guerra que provoca o sofrimento que se diz querer fazer parar.