Há algum tempo, admiti a hipótese de que o Chega tinha uma estratégia racional e razoável. A ideia central seria ter mais um voto que o PSD e, a partir desse ponto, construir uma alternativa de direita, sob a liderança do Chega.

Nessa altura também admiti que Montenegro viu a dimensão existencial dessa ameaça para o PSD, e cortou quaisquer pontes com o Chega, procurando garantir que o PSD tinha mais um voto que o Chega, ganhando o centro que, como diz Sérgio Sousa Pinto, o PS lhe ofereceu de bandeja.

O resultado prático deste braço de ferro traduziu-se nos resultados de 18 de Maio, com o Chega a ter um muito bom resultado, passando a segundo partido parlamentar, mas longe de ultrapassar o PSD, que resistiu ao crescimento à direita, crescendo ao centro.

Aqui chegados, não percebo o que celebra o Chega.

A estratégia inicial era uma forma possível de chegar ao poder, sem grande necessidade de ganhar o centro, tarefa que estaria sub-contratada ao parceiro menor da direita, o que parece realista.

Com a configuração parlamentar de 2024, o Chega podia ir fazendo oposição de protesto para ganhar os descontentes, ao mesmo tempo que ia dando a mão ao PS, sempre que possível, para enfraquecer o potencial parceiro minoritário do futuro, mimetizando a estratégia de tenaz de António Costa (José Miguel Júdice, nesta entrevista ao Observador, diz que Ventura não chamou o assunto Spinumviva ao debate com Montenegro porque na verdade tinha o PS e a imprensa a fazer esse trabalho pelo Chega, uma boa ilustração da hipótese que levanto).

Com o parlamento saído das eleições de 18 de Maio, o Chega passa a maior partido da oposição, como pretendia, mas sem que o PS seja governo e, sobretudo, sem que o potencial parceiro futuro, quando passasse a minoritário, se tenha enfraquecido, pelo contrário.

Os 60 deputados actuais do Chega são-lhe menos úteis, para o futuro, que os seus 50 deputados anteriores, visto que agora tem mesmo de se aliar ao PS (quando antes lhe bastava abster-se) para contrariar o governo de Montenegro.

E, sobretudo, para chegar ao governo tem mesmo de ter uma maioria absoluta, já não lhe chega ter mais um voto que o PSD, porque os resultados deixaram claro, para qualquer apoiante do PSD, que qualquer acordo com o Chega não é um acordo assimétrico como os que foram feitos com o CDS e o PPM no passado, mas um acordo com um parceiro potencialmente dominante, em futuras eleições.

O Chega está confrontado com a necessidade de ganhar o centro, para crescer, o que lhe pode custar a alienação da sua base eleitoral de protesto e mais radical, seguindo o processo inverso ao que levou o PS ao resultado eleitoral desastroso que teve em 18 de Maio.

Montenegro tem, neste momento, dois partidos cujos aparelhos são mais radicais que os seus eleitorados potenciais, de um lado e do outro, e depende inteiramente da qualidade da sua governação, medida pelos critérios dos eleitores, não necessariamente da imprensa, para continuar a dominar o centro, o que parece uma situação bastante confortável.

Pode falhar, evidentemente, e é uma questão de tempo até ser essa a percepção dos eleitores, mas, para já, depende inteiramente de si e das suas opções, enquanto a oposição estiver virtualmente manietada, excepto no que é mais difícil: ter melhores políticas e credibilidade para as aplicar.

Quem está com problemas existenciais sérios, neste momento, são esses dois partidos, que ou apoiam o governo, pelo menos por omissão, dando a Montenegro as condições para tirar partido da vantagem posicional que tem, ou o combatem radicalmente, arriscando-se a perder o voto central de que precisam para passar da oposição para o governo.

O Chega teve um grande resultado, é um feito notável ter conseguido passar a principal partido da oposição, mas os festejos a que se tem entregado parecem-me manifestamente exagerados nestas circunstâncias, tanto mais que as responsabilidades e ocupação de cargos inerentes ao estatuto de principal partido da oposição lhe diminuem a aura de partido novo, anti-sistema, de que vive grande parte da sua propaganda.