Basta olhar para a curva dos novos casos de contágio divulgados diariamente pela Direção Geral de Saúde a fim de verificar que a situação pandémica é pior do que nunca e terá inevitavelmente pesadas consequências para a economia nacional e para a sociedade portuguesa. Durante sete meses, a fasquia dos contágios diários manteve-se – com duas excepções – abaixo de 1.000 casos, enquanto nas duas últimas semanas o vírus se instalou acima de 1.000 e já chegou por duas vezes a mais de 3.000 casos. Em suma, mais de 2.000 casos em média por dia.

A frequência dos óbitos aumentou também, chegando no corrente mês a mais de 300 mortos à média de 13 por dia e continuando a localização das mortes a ser escondida. Entretanto, o escândalo dos «lares para idosos» – pretensas instituições sem fins lucrativos e beneficiárias do apoio estatal mas manifestamente sem competência para lidar com a situação – é responsável por metade ou mais dos óbitos. Finalmente, o número de internamentos hospitalares duplicou em menos de um mês, atingindo os 1.500, enquanto os doentes em cuidados intensivos triplicaram e são já mais de 300. Só os profissionais de saúde saberão como lidar com a situação criada!

Ainda no começo da pandemia, quando o primeiro ministro falou num «cerco do Porto», como tem sido feito em inúmeros países, o presidente da respectiva Câmara opôs-se imediatamente e, como é hábito, Costa passou a rejeitar o encerramento temporário das zonas de novos surtos… Para afinal vir a fazê-lo mais tarde na zona de Lisboa, cuja câmara é porém do PS, e posteriormente mandou cercar quatro concelhos do distrito do Porto que não se atrevera a fechar quando talvez ainda fosse a tempo. Foi preciso o agravamento notório da pandemia para o primeiro ministro dar mais uma vez o dito por não dito!

Acrescem duas impropriedades repetidas sem cessar pela comunicação social que apenas servem para confundir as pessoas e aliviar politicamente os responsáveis pela saúde pública. Uma é a apresentação de dados internacionais sem ponderar o número de «casos» diários pela densidade populacional de cada país ou zona em crise. Por exemplo, é enganador o facto de a Alemanha ser apresentada sistematicamente como tendo o maior número de casos diários da UE, quando a verdade é que, considerando que a população alemã é 8,5 vezes superior à portuguesa, a Alemanha tem menos de metade dos contágios que Portugal. Basta fazer contas!

Uma segunda impropriedade da comunicação social, na linha da inadequada informação da DGS, é a referência às chamadas NUTs 2 criadas pela UE para efeitos burocráticos. Com efeito, foi negativamente paradigmática a forma como, a determinado momento, os «media» trataram a área de «Lisboa e Vale do Tejo» sem considerar a composição sócio-demográfica das diferentes localidades da área, de tal maneira que criaram a noção errada e contra-producente, de que essa sigla – «LVT» – era por assim dizer «responsável» pelos surtos originados em determinadas zonas desse vasto território.

Tanto assim que, algum tempo depois, a comunicação social deixou cair a «LVT» para atribuir os novos surtos pandémicos à grande região do «Norte», tão variado como as Beiras atribuídas ao «Centro», quando na realidade aquilo de que se tratava era de algumas das zonas com maior densidade populacional no país e onde predominam determinadas actividades industriais incompatíveis com o «trabalho à distância», agora foram demarcadas pelo «cerco» em torno do Porto… Como se os residentes daqueles concelhos «tivessem a culpa» da epidemia!

Com efeito, a densidade populacional de cada aglomeração, o seu perfil demográfico e a natureza das suas actividades sócio-económicas, em Portugal como em qualquer outro país, estão na base do modo de difusão da pandemia na sociedade. E isso não vai mudar de um dia para o outro nem com a chegada dos milhões da Europa. Aliás, a atitude simultaneamente pobre e mal agradecida do governo em face dos fundos europeus define por si só os limites do anunciado «programa de recuperação»… e «resiliência», se faz favor!

Esses limites são bem exemplificados pelo anúncio mediático da futura construção de uma espécie de TGV entre Lisboa e o Porto que parecia tirado dos jornais do fim do século passado, quando o ministro das Obras Públicas do governo Guterres, do qual fazia parte o actual primeiro ministro, anunciava o mesmo TGV com horário e tudo! É neste mesmo sentido de propaganda barata que se deve olhar para o orçamento de Estado para 2021, o qual subestima a quebra real da economia portuguesa. A guerrilha partidária em torno do orçamento é, pois, muito mais mediática do que propriamente financeira. Entretanto, é ocultado o facto de o recrudescimento da pandemia não poder deixar de acentuar a queda do PIB. Nem uma vacina virá tão cedo a tempo de reduzir o impacto da pandemia e as suas consequências para a economia portuguesa e a normalização social.