É preciso ser claro sobre uma coisa. Desde sábado que se ouve que a política é o campo da força e não da moralidade; que a geopolítica tem a ver com poder económico, militar, tecnológico e material e não com virtude. Ninguém me contou. Ouvi mesmo em direto. Mas, trata-se de uma ideia feita. E é discutível que essa seja a postura realista e pragmática. É certo que, como todas as ideias feitas, esta tem a sua cota de veracidade, mas, pelo caminho, o rasto está cheio de incoerências e simplificações.

Como Nicolas Laos aponta em The Metaphysics of World Order é inegável que a geopolítica, e a política no seu sentido mais caseiro, implicam poder. E isso não significa, necessariamente, vampirismo ou maldade. Mas se essa fosse a única condição necessária, ainda estaríamos a celebrar os sucessos militares de Átila, o Huno, com regulares sacrifícios humanos. Acontece que Átila dominou do Reno e do Danúbio ao Báltico e de lá até ao Mar Negro, possuindo uma força militar gigantesca, e, todavia, isso não impediu que, após a sua morte e a Batalha de Nedão, o seu império se desintegrasse e desaparecesse do mapa. Uma coisa é criar impérios, outra é criar civilizações e para isso, como Laos, e também o Why Nations Fail mostram, é preciso uma combinação entre força, cultura e visão metafísica. O que decide a história não é o poder isolado, mas quem consegue reproduzir uma forma de vida ao longo do tempo. E essa é uma guilhotina que está permanentemente suspensa sobre os nossos pescoços.

Desde o Iluminismo, contudo, vivemos fascinados quer com a cultura, quer com a força. No fundo, prescindimos da visão metafísica, ou então, confundimo-la com superstição ou providencialismo. De lá para cá, acreditamos que, reguladas por regras neutras, interesses calculáveis e equilíbrios de poder, sem referência a qualquer conceção substantiva do bem humano, as sociedades seriam mais virtuosas. Acontece que sem uma conceção de bem, sem uma finalidade, estamos a construir uma ponte sobre um buraco negro.

O resultado é que o poder, privado de um telos – de um fim –  que o oriente, deixa de ser instrumento e passa a ser fim em si mesmo, reproduzindo-se através da técnica, da burocracia e da força. Estados que perdem essa visão podem vencer a próxima batalha, mas raramente vencem a história.

Falamos de justiça, direitos, valores e até de “ordem internacional”, mas já não partilhamos uma conceção do bem humano ou do fim da vida coletiva que permita dar a essas palavras conteúdo operativo. O resultado não é uma política livre de moral, mas uma política governada por fragmentos morais incoerentes. Chamar a isso “realismo” é apenas uma forma elegante de admitir que já não sabemos para que existe o poder.

O realismo geopolítico clássico — de Tucídides a Morgenthau — nunca afirmou que o poder era tudo; afirmou que o poder é o meio através do qual comunidades políticas procuram preservar e expandir aquilo que consideram valioso. O problema do nosso tempo é termos perdido qualquer acordo minimamente estável sobre o que vale a pena preservar.

O “realismo” geopolítico não é o contrário da moralidade: é o produto da sua decomposição. Como notou MacIntyre, trata-se de algo mais próximo de Nietzsche do que de Aristóteles. É o momento em que, depois da linguagem moral se ter tornado um conjunto de slogans— direitos humanos, soberania, segurança, democracia, civilização — a única coisa que resta para decidir é quem impõe a sua versão pela força. O “realismo” não surge porque finalmente percebemos que a moralidade nunca existiu; surge porque já não sabemos o que seria contar com uma moralidade racionalmente vinculativa. O “realismo” é, por fim, o fim e a morte da razão.

Não quero ofender ninguém. Mas é comum citar-se, nestas ocasiões, como corolário e confirmação argumentativa, a frase da História da Guerra do Peloponeso, onde se diz que “os fortes fazem o que querem, e os fracos sofrem o que podem”. Acontece que isso é o mesmo que ler os dois primeiros capítulos do Evangelho de S. Lucas, e imaginar que, se os Magos falam de Jesus como “rei dos judeus”, ele acabaria sentando num trono, expulsando os Romanos da Judeia. O problema é que nem o Evangelho de S. Lucas, nem a História da Guerra do Peloponeso terminam aí, e o final, quer num, quer noutro caso, é muito mais complexo e contundente.