A invasão russa da Ucrânia, iniciada em 2014 e alargada com despudorada intensidade em 2022, representa um caso flagrante de imperialismo. Tratando-se de uma guerra provocada pelo estado com a maior área geográfica do planeta, as consequências não se cingiram à Europa. Além das vítimas e dos efeitos devastadores sociais e económicos, a invasão viola todos os princípios de interação entre estados promulgados na Carta da Organização das Nações Unidas (ONU). No entanto, a transgressão não é necessariamente apenas grave por ser “ilegal”, mas por abalar a norma política constitutiva da ordem política internacional contemporânea. Trata-se do reinício desavergonhado do imperialismo, evidentemente contrário a todos os preceitos internacionais. Basta recordar a evolução da ONU.

Aquando da sua fundação, em 1945, a ONU era constituída por 51 estados, alguns dos quais eram impérios (mais tarde, em 1956, quando Portugal passou a fazer formalmente parte da ONU, era também um império): portanto, céticos quanto à partilha igual de soberania entre povos. Em 2025, oitenta anos mais tarde, a ONU engloba 193 estados. Múltiplas razões explicam esse aumento, mas a vitória de princípios internacionais explica uma parte dessa história. O reconhecimento de soberania, com base na noção de autodeterminação, contribuiu para legitimar o espírito verdadeiramente internacional da ordem atual, pautada pela igualdade entre povos e estados. Na sua essência, o imperialismo rejeita a igualdade política, prosseguindo os seus objetivos de forma unilateral; por sua vez, o bilateralismo e o multilateralismo – o último defendido pelas Nações Unidas – privilegiam consensos entre povos e são contrários a imposições pela força. A invasão da Ucrânia ilustra de maneira cabal a subversão da ordem internacional. Em 2014 e novamente em 2022, Moscovo desrespeitou a igualdade soberana da Ucrânia, a qual, segundo um ensaio de Putin no verão de 2021, jamais deveria ter sido reconhecida. Regressou-se, assim, ao imperialismo.

O retrocesso, porém, não se confina à Europa. As práticas internacionais de base multilateral têm passado gradualmente para segundo plano, desde o início do século XXI. A invasão norte-americana do Iraque, em 2003, pôs em causa essa norma. Todavia, mesmo essa ofensiva, unilateral do ponto de vista do Conselho de Segurança da ONU, contou com o apoio de diversos estados europeus. Talvez mais imperial ou pelo menos inequivocamente unilateral foi o abandono estouvado do Tratado de ABM por parte de Washington, em 2002, uma tomada de posição que contribuiu para acicatar divergências crescentes entre os Estados Unidos e a Rússia, provocando retaliações que levaram ao desaparecimento dos tratados que regulavam o equilíbrio geoestratégico no continente europeu. E nem uma década depois da invasão do Iraque, a China reivindicou, unilateralmente, o Mar do Sul da China contra a vontade dos seus vizinhos, designadamente o Vietname, as Filipinas, a Malásia e o Brunei. Surgem, por conseguinte, confrontações frequentes, embora de baixa intensidade, entre as marinhas da China e os estados do sudeste asiático. Passando para o Médio Oriente, os indícios permanecem pouco promissores. Alguns membros do governo israelita falam abertamente da expulsão dos palestinianos de Gaza, agora com a aquiescência da presidência norte-americana. Em vez do recurso a justificações camufladas de direito internacional, refere-se, de maneira descarada, a limpeza étnica e a aquisição unilateral de território alheio, o que já obrigou as Nações Unidas a declarar que deslocações forçadas de populações são crimes.

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump não apenas abandona acordos multilaterais sem consultar parceiros, como também declara publicamente a vontade de adquirir território de outros estados, inclusive de velhos e fiéis aliados, como a Dinamarca e o Canadá. Se isso não bastasse, o chefe de estado norte-americano conversa com o homólogo russo antes de Zelensky, transmitindo a ideia de que as únicas cedências serão feitas pelo lado ucraniano. Toda esta conduta, nada respeitadora dos preceitos internacionais, desenvolve-se sem rodeios ou subterfúgios. Por outras palavras, quando o imperialismo renasce, a igualdade política entre estados desaparece tanto na prática como no discurso.