Socialismo

O verdadeiro regime dos salários baixos /premium

Autor
891

Para António Costa, é mais importante ter muitos funcionários mal pagos, do que menos funcionários, mas mais bem pagos. É a função pública reduzida a uma variante do rendimento social de inserção.

Os socialistas não desenvolveram apenas uma conveniente vergonha de José Sócrates. Parecem também desejosos de se distanciar das ideias que traziam nos bolsos quando desembarcaram no poder em 1995, há vinte e três anos. O problema é que desde então não arranjaram outras ideias, como se percebe pela reflexão filosófica que o secretário de Estado Pedro Nuno Santos mandou imprimir há um par de semanas. A ideia de Blair, Schroeder e Guterres, nos anos 90, era pôr o Estado a “construir” e a dirigir mercados, para com os impostos pagar a expansão do Estado Social. Pedro Nuno Santos vem agora renegar a Terceira Via. Qual é, então, a sua alternativa? Não é nenhuma, é exactamente a mesma coisa: “construir” e dirigir mercados. Pedro Nuno Santos é uma espécie de Monsieur Jourdain político: tal como o personagem de Molière fazia prosa sem o saber, o secretário de Estado faz Terceira Via sem o saber (ou dizer).

Admito que, entusiasmado com o convívio revolucionário de Catarina Martins e de Jerónimo de Sousa, o secretário de Estado até preferisse fazer outras coisas. Acontece que não pode. Porquê? Porque não tem dinheiro. Para financiar os seus défices, esta maioria depende do BCE, que é, de facto, o partido líder da geringonça. Repare-se nas políticas da habitação. Sem dinheiro, resta-lhes isto: ameaçar ou estimular os senhorios, mudar os nomes aos programas já existentes, e dar longas entrevistas aos jornais.

Mas é um erro pensar que, por causa destes constrangimentos, é indiferente serem estes ou outros a governar. Não é. E o primeiro-ministro, este fim de semana, explicou porquê. Para ele, é mais importante ter muitos funcionários, embora mal pagos, do que menos funcionários, mas mais bem pagos. A função pública não parece ser, para Costa, uma carreira profissional, mas uma variante do rendimento social de inserção. No mesmo fim de semana, a Dra. Teodora Cardoso aludiu ao “mistério” de “o desemprego baixar e os salários não subirem”. Em Portugal, para António Costa, não é um mistério: é um projecto. Trata-se de atulhar Portugal de dependentes do Estado, todos inseguros e facilmente persuadidos de que só um voto em  Costa lhes garante o salário. Sim, isto é o socialismo.

Nada disto é de facto misterioso. Em Portugal, salários que não correspondam a um aumento da produtividade e dependam apenas de redistribuições estatais só podem ser baixos, porque, ao contrário do que clamam o PCP e o BE, não é possível redistribuir muito mais, num país em que uma minoria dos cidadãos contribui com a maior parte da receita dos impostos directos, e em que só quem não pode não abastece o automóvel em Espanha. A galinha dos ovos fiscais está no limite. Porque é que os socialistas pensam que é necessário um regime tributário favorável para atrair estrangeiros, mas não para reter nacionais?

Desde 1995, que Portugal tem sido governado quase sempre pelo PS, com as esquerdas em maioria no parlamento. E desde então, que esses governos e essas maiorias resistem às recomendações internacionais para tornar Portugal mais competitivo, clamando que limitar a protecção estatal a certos grupos de interesse — sindicais, corporativos e empresariais — levaria a uma “economia de baixos salários”. Mas que o ganhou o país com essa resistência? Uma economia que, com a italiana, foi a que menos cresceu na Europa nos últimos vinte anos, e que gera sobretudo remunerações modestas. Por causa do Euro, argumentam PCP e BE. Mas que nos esperaria fora do Euro, senão as desvalorizações do Escudo e os seus salários diminuídos pela inflação? De uma maneira ou de outra, é o que o PS, o PCP e o BE têm para dar aos portugueses: o verdadeiro regime dos baixos salários e das baixas expectativas.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Futebol

O futebol já não é deste mundo /premium

Rui Ramos
306

O futebol tornou-se um mundo aparte, onde as leis e as regras não se aplicam. É por isso que, por vezes, parece que Alvalade fica na Venezuela e Alcochete na Síria.

Corrupção

Sócrates não esteve sozinho /premium

Rui Ramos
2.781

Esperemos que os ex-colegas de Sócrates que ainda nos governam e ainda dirigem o PS não nos façam suspeitar de que, para eles, o único problema de Sócrates foi ter-se deixado apanhar.

Corrupção

Sócrates não esteve sozinho /premium

Rui Ramos
2.781

Esperemos que os ex-colegas de Sócrates que ainda nos governam e ainda dirigem o PS não nos façam suspeitar de que, para eles, o único problema de Sócrates foi ter-se deixado apanhar.

Inovação

O progresso no século XXI não é de esquerda

José Manuel Fernandes
701

Neste tempo da quarta revolução industrial a defesa da rigidez laboral ou da omnipresença do Estado, ou das “reversões”, mostram-nos uma esquerda prisioneira do século XX e reaccionária no século XXI.

Política

Não somos todos marxistas

João Carlos Espada
497

Sim, possivelmente, “Marx vive” — nas culturas políticas tribais que desconhecem o primado da lei. Mas nem todas as culturas políticas são tribais. Por esta razão, não somos todos marxistas.

Governo

Um governo de mortos-vivos políticos

Rui Ramos
2.619

Ninguém perceberá o actual governo se não perceber o enorme conjunto de fracassos que está por detrás dele. Este é mesmo um caso de “mortos agarrados aos vivos", para usar a expressão de Marx.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

Detalhes da assinatura

Acesso ilimitado a todos os artigos do Observador, na Web e nas Apps, até três dispositivos.

E tenha acesso a

  • Assinatura - Aceda aos dados da sua assinatura
  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Inicie a sessão

Ou registe-se

Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)