Ao contrário dos milhares de especialistas em epidemiologia recentemente revelados pelas televisões, não sei muito acerca do coronavírus, ou deste coronavírus. Sei que nas últimas décadas houve diversas epidemias que garantidamente devastariam a humanidade e que apenas devastaram fortunas incalculáveis a tentar combatê-las. Das vacas loucas à SARS original, da gripe suína à gripe das aves, passando pela pandemia de infantilidade que é o “aquecimento global”, inúmeras criaturas avisaram-nos inúmeras vezes para as calamidades que aí vinham. As calamidades não vieram. O que veio foi a factura das medidas que o medo das calamidades impôs.

A reacção ao coronavírus cumpre todas os critérios dos pânicos anteriores: os alertas da “comunidade científica”, que beneficia simbólica e materialmente da atenção; a histeria dos “media”, que não perdem uma aberta para anunciar o apocalipse; a dramatização dos políticos, que hesitantes ou eufóricos acabam por marchar ao gosto popular e aproveitam para reforçar o poder do Estado. Face à maioria dos pânicos anteriores, a diferença é que o coronavírus existe. E que, por muito que duvidemos da sua capacidade aniquiladora, não estamos certos de que seja relativamente inofensivo. Por enquanto, não conseguimos descortinar a voracidade do bicho, e é o desconhecido que nos inquieta. E é a inquietação que nos enfia em casa. E é o recolhimento voluntário que nos suscita saudades desgraçadas das possibilidades que o mundo, o mundo “habitual”, nos oferecia até há dias.

Sabem aqueles gestos diários e pequeninos, que desvalorizamos e tomamos por garantidos? Eu nunca os desvalorizei nem tomei por nada que não fosse um privilégio. Para mim, ir ao café ou ao restaurante, comer um rissol de camarão na estação de serviço, duplicar a chave ou subir uma bainha, comprar um blusão no pronto-a-vestir ou dois blocos de notas na papelaria sempre foram actividades um bocadinho encantadas. Não estou a brincar, juro que não. As transações comerciais têm qualquer coisa de maravilhoso, no sentido profundo da palavra. A troco de dinheiro, bela convenção social, há pessoas dispostas a fornecer-nos os bens ou serviços de que precisamos ou que simplesmente nos apetece. Isto é tão pueril que embaraça notá-lo, e tão evidente que tendemos a desprezá-lo. Não contem comigo: durante o meio século que levo disto, foram poucos os dias em que não reparei no carácter civilizador dessas minudências, e em que não as agradeci devidamente. É delas que sinto falta, e que temo vir a sentir mais.

No fundo, sinto falta do capitalismo, entendido na acepção lata e quotidiana do termo. Por isso é que, enfiado quase permanentemente em casa, à semelhança de tantos portugueses, espreito as “redes sociais” e horrorizo-me, quer com os avanços da doença, quer com a quantidade de chanfrados que acham o coronavírus um pretexto para implodir com o doce conforto das sociedades capitalistas. Na opinião dos chanfrados, um microrganismo nascido nas feiras de um país asiático e comunista é um excelente motivo para revermos o modo de vida ocidental. Pois é: já que os chineses comem morcegos, nós temos de abandonar o automóvel. Bate certo, sobretudo quando se proferem tais preciosidades através do Galaxy ou do MacPro, populares conquistas do marxismo.

Nas seitas de esquerda, o primeiro critério de admissão é a inveja. O segundo é o descaramento. A inveja permite-lhes desejar a destruição da economia, e repetir com fervor o bordão “nada voltará a ser como antes”. O descaramento permite-lhes afirmar que a epidemia prova a nossa dependência do sector público. Por acaso, e descontando o desnorte das “autoridades” para efeito de alívio cómico, a epidemia tem vindo a provar pela enésima ocasião que depender do sector público é meio caminho andado para o desastre. Apesar dos esforços dos funcionários e de biliões em impostos, o SNS, que ao longo de anos serviu de estandarte heróico, é afinal uma ruína sem préstimo em situações sérias: duas ou três centenas de casos graves e aquilo desmantela-se como a indestrutível URSS em que alguns gostariam de nos transformar. Vale, se nos chegar a valer, a colaboração dos hospitais privados, dos laboratórios privados, das empresas privadas e dos cidadãos privados, entidades essencialmente malignas e ávidas por – o Diabo seja cego, surdo e mudo – lucro. E para aqueles que não chegarão a precisar de cuidados médicos, vale-nos o capitalismo para manter a internet, o streaming de filmes, os sites informativos, as “redes sociais”, o WhatsApp, as compras “on line”, a circulação de capitais, etc.

Na verdade, o capitalismo é o que vai tornando suportável esta clausura sem final previsto. A parte insuportável é providenciada pelo Estado, para cúmulo de emergência. O coronavírus, que nos colocou nas mãos dos senhores que mandam, doravante habilitados a decidir os destinos dos indivíduos até ao ínfimo pormenor, não é uma oportunidade para abolir o capitalismo, mas para experimentar a ausência parcial do capitalismo, a ausência de mercado pleno, a ausência de circulação indiscriminada, a ausência de liberdade enfim. O coronavírus, que nos reduziu a sombras, é uma oportunidade para experimentar o socialismo a sério. E perceber o seu imenso horror. E esperar que não dure. E ansiar, com infundado optimismo, que tudo, apesar de tudo, volte a ser como antes. Ou, estou a delirar, melhor que antes.