Alexandre Guerreiro parece ser um português ao serviço do Kremlin. As suas intervenções públicas são sempre alinhadas com a narrativa de Moscovo, e segundo vários meios de comunicação social, viaja frequentemente para Moscovo e faz parte de organismos pagos pelo Kremlin.  É apenas um caso entre muitos, desde a liderança do PCP a generais reformados e outros “especialistas”, passando por gente que acampa em vários partidos. Por exemplo, o novo mandatário da campanha presidencial de André Ventura é sobejamente conhecido pelas suas persistentes posições putinistas, naquilo que muitos, mesmo dentro do Chega, encaram como um monumental tiro no pé.

Há épocas em que as sociedades se dedicam a melhorar-se; e há épocas, como a nossa, em que uma grande parte das pessoas se entrega com frenética raiva à tarefa inversa: desconstruir, denegrir, criticar, e sabotar os elementos que asseguram a coesão do grupo a que pertencem. Derrubam estátuas, reescrevem a História com arrogância teleológica, e distribuem desprezo pelos valores herdados e pelos concidadãos que ainda não aprenderam a odiar-se a si próprios.

Fazem-no com zelo e fúria, como se a destruição das vigências colectivas fosse condição necessária para a salvação da própria alma.

Este fenómeno tornou-se particularmente visível com a guerra desencadeada pela Rússia e com o ódio obsessivo dirigido a Israel. Uma fracção nada irrelevante das sociedades ocidentais encontrou aqui uma irresistível oportunidade para confirmar a sua tese de que os culpados somos nós. Ou, quando convém afinar o alvo, os judeus, que de certo modo fazem parte desse nós. Porquê? Porque grande parte daquilo que nos define como civilização, remete para o que se passou, há milénios, na zona onde eles nasceram para a História.

Justifica-se o agressor, relativiza-se o crime, culpa-se os “nossos” e, no fim, acaba-se alinhado, consciente ou inconscientemente, com o ethos e o pathos de quem nos ataca ou nos odeia.

Esta gente não tropeça na História, faz-lhe rasteiras com intenção.

De onde vem esta pulsão de odiar a própria pertença? Que mecanismo psicológico leva indivíduos confortavelmente instalados no Ocidente a colocarem-se, sem cinismo, do lado de quem despreza tudo o que lhes permite ser e viver como vivem?

Que o Ocidente tem falhas é trivial. O que já exige alguma honestidade intelectual é reconhecer que nenhuma civilização produziu, de forma tão consistente, liberdade individual, prosperidade material, saúde pública, inovação científica e autocorrecção moral. É um legado raro e verdadeiramente excepcional.

Mas é precisamente esse legado que muitos dos seus filhos mais privilegiados insistem em rejeitar, como se cuspir no chão da própria casa fosse sinal de refinamento ético.

Voltemos ao fio de prumo do senso comum. Há uma verdade anterior a qualquer moda. A de que pertencemos todos a círculos concêntricos de identidade. Família, comunidade, país, civilização, etc.. Em qualquer família há irmãos insuportáveis, tios embaraçosos e primos que não se convidam para jantar. Mas são dos “nossos”. Não por decreto, mas por uma espécie de gravidade cultural que nos junta e nos molda.

Em situações de ameaça, o instinto saudável é simples: fico do lado dos meus, mesmo quando me irritam. Ser contra o grupo a que se pertence não é sinal de lucidez; é a acção de um órgão que decide sabotar o corpo que o mantém vivo.

Todavia estes novos iconoclastas acreditam, com convicção inabalável, que denunciar os supostos erros do grupo é a forma suprema de lealdade ética. Na sua cabeça, ao minarem os fundamentos morais da própria pertença, estão a salvá-la de si mesma. É um malabarismo psicológico notável. Corresponde a incendiar a casa enquanto se proclama estar a combater térmitas.

O “crítico esclarecido” vê aqui heroísmo.  O patriota vê apenas traição e ódio aos seus.

Historicamente, traição era abrir os portões ao inimigo. Os novos traidores já não precisam de chaves. Limitam-se a elogiar as razões e os valores dos atacantes, a quem invariavelmente vitimizam, e a catalogar de reaccionários, bárbaros e agressores cósmicos, os defensores da fortaleza.

Roger Scruton chamou a isto oikofobia: aversão à casa, à cultura, às instituições que nos formaram. Uma patologia típica de civilizações excessivamente bem-sucedidas, onde o conforto substituiu a sobrevivência e o prestígio passou a depender não da defesa do grupo, mas do desprezo por ele.

O processo tem uma regularidade quase científica:

  • Na fase inicial, pessoas pobres e ameaçadas unem-se para sobreviver. A lealdade é virtude, e o herói é o que defende o grupo.
  • No auge, a prosperidade cria elites com tempo, lazer e tédio. A luta pelo reconhecimento desloca-se para dentro: quem é mais culto, mais puro, mais moralmente superior à plebe.
  • Na fase da aversão à casa comum, os conterrâneos tornam-se mais irritantes, mais deploráveis, mais desprezíveis do que qualquer inimigo externo. O estrangeiro é idealizado; o vizinho é o problema.

Estamos, claramente, na terceira fase.

Nada ilustra melhor esta patologia do que a guerra na Ucrânia. Para os adeptos do distanciamento moral identitário, a agressão russa é apenas uma reacção compreensível a provocações ocidentais. Na suas cabeças, não tomam partido pelo agressor, estão apenas a tentar salvar o grupo de si mesmo. São pela “paz” tal como definida pelo agressor.

Este indivíduo mantém-se formalmente no grupo, mas rejeita a identidade histórica e cultural que o sustenta, e as razões que o fazem agir, substituindo a pertença por um universalismo abstracto que apenas exclui o próprio grupo. Passa a ver o seu povo como agressor e os outros como vítimas. Não participa na história; avalia-a como auditor externo, instalado na estratosfera moral.

Esta postura dá, neste tipo de sociedades, estatuto, prestígio académico e palmadinhas nos salões cosmopolitas. Um judeu que critica Israel transforma-se em especialista instantâneo; um ocidental que culpa o Ocidente ascende ao estatuto de sábio humanista. Um general que critique as acções de defesa do seu grupo e exalte as “razões” e feitos do inimigo, torna-se “especialista que diz a verdade”.

Há mercado para isto. E paga bem.

Freud chamava ao fenómeno “narcisismo das pequenas diferenças”. Pessoas que, para se sentirem singulares, precisam de romper violentamente com os mais próximos. Ou seja, a crítica interna não é, nestes casos, amor à verdade, ou singular conhecimento, mas mera estratégia de distinção social.

Curiosamente, os woke que odeiam a civilização ocidental e os admiradores de autocratas antiocidentais partilham a mesma pulsão: rejeitar o próprio grupo para parecerem especiais.  São irmãos gémeos na mesma vaidade moral.

Ou seja, ser “do contra” não é sofisticação intelectual. Apenas narcisismo e desejo de reconhecimento.

A cruel ironia é que estas criaturas não são visionárias, nem fazem parte de nenhuma elite esclarecida, como acreditam. São apenas produtos colaterais do sucesso dos grupos a que pertencem e desprezam. Crianças mimadas de uma civilização tão estável que lhes permite odiá-la em segurança.

E quando e se a casa começar realmente a arder, não serão eles a pegar no balde de água. Estarão demasiado ocupados a explicar que o fogo também tem direito à sua narrativa. No fim, se tudo correr mal, arderão com aqueles que tentaram protegê-los, porque os viam como dos “seus”.