“The Economist distingue Portugal como «economia do ano».”
Observador,
7 dezembro 2025

“É a reformar com coragem e a tornar o país mais competitivo e produtivo que vamos continuar a criar emprego, a aumentar os salários e a reforçar o Estado social.”
Luís Montenegro, 7 dezembro 2025

“Doentes urgentes esperam mais de 16 horas para primeira observação no Amadora-Sintra.”
Observador, 30 dezembro 2025

Como podem comprovar, tive o cuidado de esperar várias semanas até contrastar as duas primeiras citações com a realidade, bem conhecida, expressa na terceira. Afinal, quem podia garantir que logo no dia 7 à tarde o primeiro-ministro não tinha andado a “reformar com coragem”, implementando as tais medidas para blá blá blá, blá blá blá e “reforçar o Estado social”? Era preciso esperar. E após esperar mais ou menos o mesmo que um doente urgente espera para ser atendido no hospital Amadora-Sintra, constata-se que é melhor esperar deitado numa maca num corredor pela diminuição do tempo de espera no Amadora-Sintra.

Mas enfim, também não é a revista The Economist apenas mais um panfleto ao serviço do globalismo anti-democrático? Em princípio, sim. E podia o primeiro-ministro ter um pingo de vergonha e ficar calado perante o descalabro do Estado no cumprimento desta função básica que se propõe desempenhar? Podia, mas depois como ficavam os que ganham a vida satirizando políticos com securas de pudor? Afinal, o primeiro-ministro prometeu ou não “continuar a criar emprego”? Pois é. Força com essas declarações, Luís!

Se bem que não estou certo ser necessário o governo preocupar-se com a criação de empregos. Só à conta do tão jovem quanto empreendedor eurodeputado do PS, Bruno Gonçalves, nove outros igualmente jovens e igualmente empreendedores assessores já têm emprego no seu gabinete em Bruxelas. “À conta de Bruno Gonçalves” é como quem. O bar está aberto, sim, mas as bebidas é o contribuinte europeu que traz, claro. Mas também é uma conta baixinha, não se preocupem. São apenas 30.769 euros que o eurodeputado tem para gastar com pessoal, por mês. Não sei se estão a ver bem este filme. É uma espécie d’ Os Dez do Gonçalves: a história de dez ardilosos, cujo líder gasta, por mês, em nove assessores, o que uma família portuguesa ganha com sorte num ano, até o dinheiro dos outros acabar.

“Mas, Tiago, se calhar é dinheiro bem gasto. Afinal, tu próprio referiste serem «empreendedores assessores».” Verdade. São. Pelo que comprovei, aquilo são jovens que empreendem na tiragem de selfies e na produção de gracinhas para as redes sociais como gente grande. E esta é a parte benigna do trabalho que fazem, atenção. Porque o restante tempo é dedicado à única coisa que estes burocratas sabem fazer: criar mais burocracia. Que por sua vez requer ainda mais burocratas. Que criam ainda mais burocracia. Que requer ainda mais burocratas. Que criam ainda mais… Enfim, acho que mesmo Bruno Gonçalves não precisaria de mais de sete, oito assessores para perceber para onde isto vai.

Para onde vai, sem desprimor para onde já chegámos. Que a parte menos óptima de Bruno Gonçalves abarbatar todos os jovens extremamente competentes, é o facto de não sobrarem jovens que criem verdadeiros postos de trabalho, daqueles que resolvem mesmo problemas das pessoas e tal. Resultado. Por exemplo, hoje as empresas tecnológicas europeias valem 1/6 das norte-americanas. O que ajuda a explicar que o PIB da UE, que em 2016 era idêntico ao dos EUA, 10 anos passados valha 66% deste. Apesar de termos mais 100 milhões de pessoas. Se bem que é verdade que a grande maioria desses 100 milhões trabalha no gabinete do eurodeputado Bruno Gonçalves.

E é à teta ressequida desta União Europeia estéril e decadente que os candidatos à Presidência da República parecem confiar que Portugal continuará agarrado, qual lapa em dia de aviso vermelho para agitação marítima. Isto sem que se ouça a Cotrim de Figueiredo uma posição clara contra esta Europa de economia socialista, ou a André Ventura uma posição clara contra este união política que não respeita a vontade dos seus povos. Aos outros nem interessa ouvir qualquer posição, claro.

Justiça seja feita a Gouveia e Melo, que neste momento não está focado em agarrar nenhuma protuberância anatómica europeia. Nesta fase, a única coisa que lhe interessa é agarrar-se com unhas e dentes, sim, mas à sua candidatura. Para não ir borda fora na corrida a Belém, na sequência da investigação a negócios pelos quais foi responsável nos seus tempos de Marinha. Eu acho que o ex-almirante vai safar-se: quem anda há meses e meses a fazer ajustes à direita e ajustes à esquerda, não vai tropeçar nuns ajustes directos.