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1 Há duas semanas, aqui no Observador, li a inquietante entrevista do economista dinamarquês Steen Jakobsen, um exercício contraria uma certa narrativa dominante que vai dizendo que o País está óptimo, recomendável e a caminho da glória. De quando em vez acontece uma coisa deste género: surge alguém no espaço público que comete a imprudência de destapar o véu da bonomia nacional apontando o dedo às causas do nosso atraso. Se se tratar de um português como os outros e tiver a ousadia de ir repetindo as suas ideias onde o deixam falar, provavelmente acaba a ser tratado como o novo maluquinho de Arroios; se for um estrangeiro, resta-lhe a hipótese de ouvir destemperos mais ou menos patrióticos, ou o desprezo total.

O dinamarquês, recordo, apontou: «A realidade é que Portugal continua a ter pouco mais de 70% do PIB per capita em relação à média europeia [77%, em 2020]. Com uma História tão rica, boa capacidade de engenharia, sistema de saúde relativamente bom… Mas continuam a insistir em fazer as coisas em câmara lenta. (…) Portugal tende a só se mexer quando é encostado à parede. Espera-se pelo colapso e depois, aí sim, avança-se para a solução. No caminho até ao colapso, parece que tudo tem de ser feito com muito cuidado, com medidas avulsas, porque há sempre um receio de incomodar alguém se se fizer alguma coisa mais audaz.» E terminou com nova evidência: Portugal tinha, em 2021, a obrigação de estar muito melhor do que está. Salvo erro, destinaram-lhe o desprezo.

2 Semana e meia depois da entrevista de Jakobsen, Cavaco Silva escreveu um artigo no Expresso no qual, descontadas as considerações mais adjectivantes, fez notar uma série de evidências: a constatação de que «em 16 anos, Portugal já foi ultrapassado pela República Checa, a Estónia, a Lituânia e a Eslovénia e que as previsões são de que, nos próximos dois, três anos, o mesmo aconteça com a Polónia, a Hungria, a Roménia, a Letónia e a Eslováquia»; o facto de nas duas décadas do século XXI a economia portuguesa ter crescido à taxa média anual de 0,5%; o estudo do Banco de Portugal que revela que a produção por habitante de Portugal em 2018 era pior do que em 1995; o retrato de «empobrecimento relativo do país» que «implica salários baixos, salários insuficientes para reter jovens com ambição de subir na vida e atrair imigrantes qualificados, uma classe média empobrecida, pensões de reforma que não permitem uma vida digna, desigualdades sociais e elevado nível de pobreza, cuidados de saúde de baixa qualidade para quem não dispõe de recursos para acesso à medicina privada e degradação do ensino público.»

O ex-Primeiro-ministro e ex-Presidente da República cometeu o pecado capital de, feito o retrato, imputar responsabilidades ao Partido Socialista pelo estado em que o País se encontra e pelo percurso das últimas duas décadas e meia que àquele nos conduziu. Há, na verdade, razões de crítica: sendo certo que o período da sua governação correspondeu ao período de maior expansão económica da democracia, que foi durante os seus Governos que Portugal mais se aproximou da realidade económica e social do resto da Europa, julgo que é justo dizer que muito do que de bom foi por si realizado pecou por defeito e que boa parte dos problemas que ainda temos hoje foram criados naqueles anos. Mas também, o que já não decorre da acção de Cavaco, que o trabalho de modernização económica do País não teve continuidade relevante, uma vez que se optou, a partir do meio da década de 1990 por exclusivamente distribuir riqueza em vez de a produzir, através de uma visão que tinha e tem no Estado o grande motor económico nacional e, não menos relevante, por se ter ignorado, como até então, a falta de robustez das instituições do Estado, da justiça aos reguladores, da política à finança. A isto não será, contudo, alheia a forma como a direita desempenhou a sua missão governativa quando a ela foi chamada. E se é certo que o mandato de Passos Coelho teve as circunstâncias mais que atenuantes de ter recebido um País sob assistência financeira, falido financeira, económica e socialmente, não será de eliminar da História o peso da herança que representou o desaparecimento de Durão Barroso para Bruxelas, um episódio, de resto, que marcou o País e a direita para as décadas seguintes.

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O artigo de Cavaco Silva tinha tudo para colocar o presente e o futuro em discussão. Não foi nada disso que aconteceu. Primeiro, porque Cavaco preenche todos os requisitos para ser odiado pelo situacionismo. Segundo, porque disse coisas óbvias que a situação prefere não ver. Terceiro, porque mesmo a oposição, que também não ficou isenta das suas críticas, não tem interesse em focar-se no essencial. Quarto, porque para lá da reduzida minoria que se dedica a estas coisas da política e da causa pública, a esmagadora maioria do País passou indiferente ao artigo de Cavaco Silva, como passa indiferente a tudo o que se passa para lá das polémicas do dia. O que podia representar um sobressalto cívico acabou, como acaba quase tudo, como um fait divers.

3 Sintoma do estado a que isto chegou foi a despudorada forma como o Presidente do Partido Socialista reagiu ao artigo de Cavaco. Carlos César, que o jornal espanhol ABC descreveu como o homem que «bate todos os recordes de nepotismo», que tem primo, mulher, filho, nora e irmão em cargos públicos, recusou comentar o texto, argumentando que está sempre «muito desatualizado em relação à produção literária do professor Cavaco Silva». O Presidente do partido do Governo não se dignou sequer a fazer o que fez o deputado Ascenso Simões (que, resumidamente, defendeu mais uma vez o situacionismo e acusou Cavaco de ser o pai do nosso atraso, o que nem é uma inovação), limitando-se, com a arrogância dos brutos, a ignorar um debate que é, na verdade, o grande debate deste tempo: encontrar uma forma de pôr o País a produzir riqueza. Esse debate, como salientou aqui o Rodrigo Adão da Fonseca, tem muito que ver com a forma como é utilizada a despesa pública e com o que isso representa em termos de produtividade. Ninguém quer saber disto para nada. Em primeiro lugar, porque a despesa pública se tornou numa religião inatacável; não há um cêntimo que seja mal gasto no Estado. Em segundo lugar, porque a nossa cultura de responsabilização é uma miragem (ler, a este respeito, este texto de Fernando Leal da Costa). Em terceiro lugar, porque os partidos se transformaram em meras máquinas de conquista e exercício de poder (um meio), abandonando por completo a criação de programas políticos úteis aos portugueses (um fim). Em quarto lugar, porque um País medíocre não será nunca capaz de produzir outra coisa que não mediocridade.

4 Esta mediocridade será, porventura, mais reflexo de quem vota do que um exclusivo de quem é votado. É um caldo cultural que terá escapado à lente de Jakobsen: um País sem cultura de mérito e exigência, de fiscalização e responsabilização, que vive atravancado numa rede de corporativismos e nepotismos vários onde toda a gente parece querer entrar em vez de a quererem rasgar, que promove e defende o famoso «rouba mas faz», um caso raro entre ocidentais não de ter falhas, mas de não ter arranjado formas de responder a essas falhas. Um País que parece viver conformado com o facto de já não viver descalço e de já não ter de partilhar uma sardinha com uma família numerosa. E também Cavaco Silva aqui falhou: no seu artigo, sim, mas também no que foi entre nós o produto institucional e cultural dos seus mandatos à frente do Governo. Embora para o futuro conte muito o terceiro elemento da sua análise: o estado da oposição. Entretidos nas suas diatribes internas, PSD e CDS insistem em esquecer que uma oposição a um Governo imobilista e atávico precisa, antes de encontrar um líder, de criar e desenvolver uma liderança, o que não se constrói sem um programa, sem uma visão de País, de futuro, de progresso, que tenha os olhos postos na ascensão social, na criação de riqueza, na valorização do trabalho, no aumento da produtividade, na promoção de uma cultura de exigência e rigor. Sem programa, a oposição não será mais que um clube de sebastianistas contemporâneos, sonhando com a sua salvação política através de um desejado regresso de Pedro Passos Coelho que, sendo mais inteligente e politicamente mais arguto que todos os seus órfãos políticos, está farto de fazer saber que não podem contar com ele para desempenhar o papel de um ressuscitado. Tudo isto faz cada vez mais surgir no horizonte o destino final de nos tornarmos, em definitivo, o País mais pobre da Europa. Se isto não é um pântano, diga-me o estimado leitor, que me dá honras da sua leitura, o que é, afinal, um pântano.