Dentro de um estabelecimento de comercialização de instrumentos (e escola de música), tive a oportunidade de assistir, anónimo, a uma acérrima discussão relacionada com a importância da educação musical na formação das crianças. Num dos lados estavam dois profissionais da música que procuravam contestar a postura de desvalorização da disciplina de Educação Musical (EM), protagonizada por um grupo numericamente superior (4 ou 5), que afirmava nada ter a ver (sob a perspectiva dos próprios) com a área da música e que esta era mesmo um entrave no currículo dos alunos. Afirmavam coisas como: “essa disciplina devia ser extinta”.

Inicialmente, agradou-me ver os profissionais da música, como que habituados a tal postura, a defenderem a música com fortes e diversos argumentos. Um deles dizia que “a música é muito importante, ela contribui para o desenvolvimento cerebral dos alunos, para o sucesso nas outras disciplinas e melhora o comportamento dos estudantes”, entre outros argumentos semelhantes, fundamentando estas afirmações com estudos científicos e até apresentando exemplos de génios cuja influência da música terá contribuído para o seu sucesso – como Albert Einstein. O colega músico reforçava, lembrando que um terço da população dos países desenvolvidos tem uma profissão relacionada com a música. E enumerou: autores, compositores, intérpretes, cantores, músicos, técnicos de som, sonoplastas, etc… debitando ininterruptamente um conjunto de profissões sem fim à vista.

Os membros do grupo queixoso iam interrompendo os argumentos com “flechas”, tais como a falta de procura desse tipo de profissionais (desemprego, como se fosse a única!), as degradadas condições atribuídas em Portugal a quem vive das cantigas (como se fosse a única!) e a incapacidade de subsistência financeira (como se fosse a única!). Não derrotados, os dois músicos lembravam que a música é, foi e sempre será, para muitos, responsável pela criação de enormes fortunas, rematando que alguns músicos, mesmo depois de mortos, continuam a gerar receitas astronómicas durante várias gerações. Ainda houve tempo para ouvir, por parte de um queixoso, um minucioso contra-argumento que prefiro resumir numa frase: “para isso é preferível apostar no futebol”.

Saí da loja a pensar no assunto e surgiu-me a pergunta: então e a própria música? Não se invoca o valor da música em si? Dos leitores deste “desabafo”, quantos ainda não ouviram música hoje? Quantos não escutaram, nem que por breves minutos, música no carro a caminho da escola ou do trabalho? Quantos de vós saíram de casa sem ouvir música na televisão ou no quarto do filho ou filha que já não pode viver sem os seus auscultadores? Quantos de vós foram às compras e não ouviram em cada estabelecimento que entraram, muita música no ar? Quantos serão capazes de enunciar um filme que tenham visto sem a presença de uma banda sonora? Nem os filmes mudos prescindem da música para o público! Quantos leitores conseguem encontrar um anúncio televisivo ou radiofónico sem música? Nem o direito de antena… Quantos de nós conseguem encontrar nos prazeres da vida um sentimento igual à sensação única de ouvir (já não quero dizer tocar, ou melhor ainda, compor) aquela música que nos faz arrepiar os cabelos, que nos faz rir ou chorar, que nos conforta ou nos anima? Enfim, será que a música precisa de “bengalas comparativas” para sobreviver?

Para que a disciplina de Educação Musical sobreviva com dignidade, é urgente e necessário que cada um de nós contribua para a mudança de mentalidades. A música não é, nem tem de ser, como a Matemática ou o Português nas escolas, e muito menos como disciplina de apoio às restantes. Ela vale por si só. Viva a música! Vivam os músicos! E vivam todos aqueles que apoiam e já não sabem viver sem um bom som musical!

Professor de Educação Musical, autor de um canal no Youtube sobre Educação Musical (com mais de 9 milhões de visualizações) e finalista na 2ª Edição do Global Teacher Prize Portugal
‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.