Economia em dia com a CATÓLICA-LISBON

Podem os “utilizadores-inovadores africanos” salvar África?

Autor
  • Pedro Oliveira

Enquanto nos países desenvolvidos se discute o impacto da automação e da inteligência artificial, na África-Subsariana cerca dois terços da população não tem qualquer acesso a energia elétrica.

Nasci num dos países do mundo com maior mortalidade infantil e vivo hoje num dos países com taxa mais baixa, na realidade 20x inferior (República Centro Africana com 88,4 e Portugal com 4,4 mortes por 1000 nascimentos). É sabido que vivemos num mundo incrivelmente desigual, incluindo no acesso a cuidados de saúde, na distribuição das doenças e nos investimentos em investigação e desenvolvimento (I&D) para combater essas doenças. Embora 80% da população mundial viva em países em desenvolvimento (onde por exemplo se concentram 95% dos casos de SIDA), apenas 2% dos investimentos em I&D em saúde vai para doenças que afetam esses povos. Como consequência, as doenças predominantes nesses países continuam sem tratamento, estimando-se que as chamadas doenças tropicais negligenciadas afetem mais de um bilião de pessoas.

Enquanto nos países desenvolvidos se discute o impacto da automação e da inteligência artificial, estimando-se que em 2035 100% dos carros vendidos na Europa sejam elétricos, na África-Subsariana, cerca 2/3 da população não tem qualquer acesso a energia elétrica, nem para as necessidades mais básicas.

Havendo um stock considerável de conhecimento e inovação nos países desenvolvidos (do “Norte”), a primeira tentação passa por pensar que estes produtos e serviços podem ser transferidos para os países em desenvolvimento (do “Sul”). Em parte é isso que tem acontecido. Veja-se a difusão da vacina contra a varíola, uma das doenças mais devastadoras da história que terá dizimado 500 milhões de pessoas, e está hoje totalmente erradicada. O ultimo caso conhecido na Europa data de 1972 (na antiga Jugoslávia), enquanto o último caso no mundo inteiro ocorreu Somália 5 anos depois.

Porém, muitas vezes essa transferência de tecnologia “Norte – Sul”, simplesmente não resulta. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 3/4 das inovações médicas desenvolvidas para países industrializados, e que posteriormente foram transferidas para países em desenvolvimento, acabaram por não funcionar no destino e por nunca serem utilizadas, devido a má avaliação de necessidades locais e ao design inapropriado dessas soluções.

Pensemos nalgumas soluções desenvolvidas localmente por doentes.

Gerard Niyondiko vive em Burkina Faso, mas nasceu no Burundi onde quase morreu de malária durante o seu serviço militar. Felizmente recuperou e alguns anos depois percebeu que algumas plantas locais, baratas e facilmente acessíveis, tem um efeito repelente sobre o mosquito Anopheles feminino, que só em 2015 terá contaminado 438 mil pessoas. Gerard percebeu que poderia juntar estes ingredientes ao sabão de modo a que, ao ser usado, o sabão deixe um perfume na pele que repele mosquitos durante 6 horas. Para disseminar esta solução de muito baixo custo (sabão Faso) criou uma organização sem fins lucrativos que estima que poderá salvar 100.000 vidas em 2018.
Brian Gitta do Uganda sofreu também inúmeros episódios de malária e, quando tinha 20 anos, quase morreu. Nessa altura percebeu a importância de um diagnóstico rápido. O método standard de diagnóstico da malária passa por tirar sangue e analisá-lo ao microscópio, o que requer profissionais de saúde e instalações médicas, que são inexistentes em muitas comunidades. Além disso Brian odiava as agulhas usadas na recolha de sangue e sempre pensou em estratégias alternativas de diagnostico. Foi assim que Brian concebeu um dispositivo que usa a luz e o magnetismo para analisar a composição sanguínea e, em seguida, emite um diagnóstico em 2 a 3 minutos, enquanto o método tradicional demora meia hora. Brian recebeu recentemente o apoio da Gates Foundation para desenvolver o seu produto.

Em 2015 havia cerca de 212 milhões de casos de malária, que nesse ano matou 420000 pessoas.

Por outro lado, 1.8 biliões de pessoas em todo o mundo usam água contaminada, que, por exemplo, causa 502 mil mortes por diarreia por ano.

Askwar Hilonga viveu sempre com doenças relacionadas com a má qualidade da água, uma vez que os seus pais não podiam comprar água engarrafada, um produto muito caro na Tanzânia. Askwar sempre quis encontrar uma alternativa para ajudar a sua família e comunidade. Foi essa a motivação para desenvolver um sistema de filtragem que combina um filtro de areia lenta com nanomateriais (silicato de sódio e prata) para eliminar metais pesados ​​tóxicos. A água primeiro passa através da areia e depois através dos nanomateriais permitindo a purificação da água a baixo custo.

Estes são apenas 3 exemplos de inovações de elevado impacto desenvolvidas, não por sofisticados laboratórios em países desenvolvidos, mas por vitimas das doenças, existindo muitos outros exemplos (disponíveis em www.patient-innovation.com). Se contribuirmos para o desenvolvimento e difusão destas inovações, pensadas, desenvolvidas e produzidas localmente, elas podem vir a ter um impacto real na vida de milhões de pessoas.

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