Soubemos recentemente que uma das primeira medidas de Barack Obama ao tornar-se Presidente dos EUA foi mandar retirar o busto de Winston Churchill da Casa Branca. Essa medida, só agora tornada pública, causou um natural desconforto entre os dois países e fortes aliados. Entretanto, na sequência da eleição presidencial, o promotor do Brexit, Nigel Farage, pediu ao futuro Presidente para recolocar o busco no local, tendo Trump acedido de imediato. Percebe-se que o enredo descrito acima tenha gerado controvérsia e contribuído para formar a opinião geral sobre os intervenientes. Tudo isto seria normal, não fosse o detalhe da notícia ser falsa e de Obama não ter retirado o busto da Casa Branca. Winston Churchill, que antes ocupava um lugar na Sala Oval, ocupa agora um lugar de destaque à entrada do “Treaty Room”, o gabinete privado do Presidente. Obama poderia muito bem ter mandado retirar a estátua, mas não o fez. Nas suas palavras “It’s there voluntarily ‘cause I can do anything on the second floor. I love Winston Churchill, I love the guy”.

Também o New York Times noticiava recentemente como Eric Tucker, um empresário do Texas que se tornou numa estrela do Twitter (onde tinha apenas 60 seguidores) ao “twitar” que os ativistas anti-Trump tinham montado uma manifestação em Austin por terem transportado apoiantes em autocarros organizados. Esta mensagem acabaria por alimentar uma teoria da conspiração e viria a ser partilhado pela campanha de Trump para além doutras 350.000 partilhas no Facebook e 16.000 no Twitter. Mais uma vez, o único problema desta notícia, é ser falsa. Em sua defesa, Eric disse que é uma pessoa muito ocupada e sem tempo para verificar a veracidade do que publica online, até porque, nunca pensou que pudesse ter ampla divulgação.

Mas será que a verdade interessa? A verdade é que, salvo raras exceções, a realidade é uma seca. Os factos objectivos são normalmente fastidiosos e demoram demasiado tempo a relatar/ler e por isso interessam cada vez menos a quem mal tem tempo para ler os títulos. A verdade nua e crua não atrai leitores nem eleitores. Por outro lado, uma história romanceada e apimentada é mais apelativa e depois as redes sociais encarregam-se de amplificar de forma desigual verdades e ficções bem montadas (e quase nunca desmentidas). Um estudo da BuzzFeed mostrava que as “Top 20 notícias falsas” sobre as eleições americana tinham gerado mais interesse e atividade no Facebook do que as 20 principais noticias dos 19 jornais mais lidos (8.711.000 vs 7.367.000 reações, partilhas e comentários).

E foi assim que chegamos à “pós-verdade”, definida pelos Dicionários Oxford como “circunstâncias em que os factos objetivos têm menos influência na formação de opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais”. O “pós” serve para salientar a irrelevância ou rejeição da palavra que se segue. De acordo com a mesma entidade o uso de “pós-verdade” aumentou 2000% em 2016 face a 2015 e por isso foi considerada a palavra do ano.

Porventura ilusoriamente, houve um tempo em que tínhamos a sensação de que conseguíamos aferir a veracidade de uma notícia. Quando a coisa parecia absurda, normalmente era. Recordemos o suposto apoio do Papa Francisco ao candidato Trump. Quem conhece minimamente o Santo Padre nunca poderia acreditar em tal noticia, obviamente falsa. Mas depois demos por nós a ler, estupefactos, notícias reais que — de tão surreais — nos pareciam falsas. Lemos o Público com a sensação de estar a ler o Inimigo Público.

E agora? Agora, como no passado, precisamos de jornalismo não enviesado e critico, de leitores exigentes e precisamos todos de ser responsáveis quando difundimos algo nas redes sociais. E quando nos enganamos, devemos corrigir. A propósito: caro leitor, se acreditou na pós-verdade do título, as minhas desculpas por ter vindo ao engano.

Senior Associate Dean for Faculty and Research