Aviação

Porque é que nos puseram a ver aviões? /premium

Autor
  • Filomena Martins
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Quando a propaganda é muita, o contribuinte desconfia. E esta história do maior avião de passageiros do mundo que por obra e graça dos céus da aviação aterrou em Beja cheira a esturro.

Quando a propaganda é muita, o contribuinte desconfia. Tornou-se obrigado a fazê-lo. E esta história do maior avião de passageiros do mundo que por obra e graça dos céus da aviação aterrou em Beja e lá ficou uma semana em exposição é de fazer levantar as orelhas, arregalar os olhos e abrir a boca não de espanto, mas de dúvidas. Porque cheira a esturro. Tresanda a uma qualquer estratégia montada com o objectivo habitual: justificar investimentos que não têm justificação.

Primeiro a história do maior avião do mundo. Ok, está certo, o A380 é mesmo o maior. Mas existe desde 2005. Há 13 anos! E em relação ao segundo maior, o A330, a diferença está no número de passageiros (de 407 a 853) que pode transportar e, essencialmente, na enorme, envergadura das asas, e é só por isso que não consegue aterrar em mais nenhum aeroporto nacional. Mas ninguém acredita que os 33 milhões investidos em 2008 na construção deste aeroporto no meio do Alentejo que recebe uma média (generosa) de um voo por ano foram feitos a pensar que dez anos depois uma companhia nacional desconhecida ia comprar este superjumbo usado (esteve dez anos ao serviço da Singapore Airlines) pois não?

Quero também crer que ninguém acha que esta ação de propaganda foi feita apenas pela tal companhia de que pelo menos metade de nós, e estou a ser hiper optimista, nunca ouvira falar, certo? Mas a verdade é que a tal HiFly e o modelo inovador que vai testar (wet lease) sem garantias, arrastou, além dos spotters dos aviões, toda a comunicação social portuguesa até Pax Julia. Foram horas de notícias, directos, entusiasmo, que parecia a seleção a aterrar depois de ter ganho o Europeu.

Presumo ainda que também ninguém já aceite que nos voltem a impingir a ideia de que Beja é uma alternativa à Portela, correcto? Mesmo com o caos que se vive no aeroporto de Lisboa, que já fez com que alguns voos low cost fossem desviados, e que bem pode matar o turismo, essa galinha dos ovos de ouro que nos tem alimentado a retoma económica.

Nem que alguém vá na conversa que de Beja a Lisboa é hora e meia de viagem, a não ser que venham a velocidades de arriscar não multas, mas ficar sem carta, verdade?! Se a opção de caminho for por Évora, só nos 70 km até lá chegar prepare-se para uma hora de IP2 há anos à espera de ficar pronto. Que o digam os doentes que têm de usar o único centro com os tratamentos principais do Alentejo. Ou que o expliquem os deputados do PS que desistiram recentemente de fazer as suas jornadas parlamentares entre as duas cidades. Depois são mais dez minutos até à A6 e mais uma hora até ao outro lado da Vasco da Gama (2h20). Pelo outro lado, de Beja pelo IC8 à A2, e depois via 25 de Abril até às Amoreiras, talvez poupe 15 a 20 minutos, se tiver sorte de não apanhar fila nem na Marateca nem na ponte. Também posso fazer as contas para o Algarve, não são muito diferentes. É tempo com que um turista que vem para um fim‑de‑semana alargado, ou uma semana com as contas apertadas, não ficará seguramente contente.

Então o que é que nos estão a querer vender? Que mensagem querem passar? Que é preciso um novo aeroporto para servir Lisboa? Mas isso não está já decidido?! Ou só é preciso mais dinheiro e não sabem como ir buscá-lo em ano eleitoral? Nem como inserir a verba no Orçamento sem chatear os parceiros da Geringonça e o Mário Nogueira? Ou há algum problema para convencer os militares do Montijo (depois dos de Tancos terem andado a brincar às escondidas com o ministro e a PJ)? Querem acelerar o processo? Se sim, força! Mas assumam, com todas as consequências e as benesses que isso lhes traga.

Já se foi para nos distrair das notícias diárias da falta de investimento no País, tenho uma má notícia. Foi uma tarefa inglória. Os casos são tantos, que não há avião de nenhum tamanho que disfarce o estado a que isto chegou. Já não há forma de o desmentir, como o próprio ministro do Planeamento admite. Até uns deputados do PS que queriam vir de Leiria a Lisboa protestar contra o seu próprio Governo pela falta de comboios, viram ser suprimido aquele em que deviam viajar e acabaram por fazer-se à estrada… de carro.

Portanto, o objectivo deve ser outro. É preciso mesmo dar mais dinheiro para quê? E quando temos de estar prontos para a descolagem? É só para saber quando temos de apertar o cinto.

Só mais duas ou três coisas

  • Ainda Tancos. Confesso que apesar da gravidade, já não consigo olhar para o caso como um crime. Apenas como uma novela ridícula. Há um Estado, um Presidente, um Governo, um ministro e umas chefias militares, mais o Ministério Público, envolvido num caso que incluiu um assalto de armamento da Defesa nacional, a devolução surpresa e com bónus do roubo, e depois a descoberta que afinal faltavam armas perigosas. Isto é brincar aos soldadinhos de chumbo. Somos membros da NATO. Temos missões em zonas de grandes conflitos no mundo. Se o ministro não sabia, foi porque não lhe contaram. Tire consequências disso. Demita ou demita-se.
  • Ainda Pinho. Como acontece com a maioria dos políticos quando vão ao Parlamento, esperava que ele se esquecesse, tivesse lapsos de memória ou que invocasse uma qualquer razão superior para não falar. Mas ele fez pior. Foi dar uma lição histórica sobre energia, IVA nas facturas e outras especificidades, como se ali tivesse sido chamado como o maior especialista na matéria. Negou-se a responder às únicas perguntas que interessavam: recebia ou não do GES enquanto era ministro?; foi ou não escolhido para o cargo por Salgado, o seu antigo patrão?; o curso em que dava aulas na universidade americana foi ou não financiado pela EDP que tutelou? Sobre isso, nada. Por isso, o que Pinho foi de facto fazer foi os deputados (e os portugueses que eles representam) de parvos! Foi um gesto muito pior do que os cornichos que o levaram a demitir-se.
  • Ainda o BPN. Segundo duas notícias do Público, uma auditoria da Inspecção Geral das Finanças à Parvalorem, a empresa pública que gere os cerca de três mil milhões de euros de activos tóxicos do antigo Banco Português de Negócios, é demolidora. Primeiro revela que o Estado continua a pagar a dois antigos responsáveis do núcleo duro de Oliveira Costa um ordenado de 12.600 euros (mais 5.900 euros do que a Marcelo). Depois que 23 (vinte-e-três) ex-gestores do banco falido continuam ter carros topo de gama e várias regalias como antes da nacionalização. ‘Pormaior’: não há ninguém detido neste caso, todos os acusados e condenados estão à espera dos resultados dos recursos. Até o processo de Dias Loureiro foi arquivado.

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