José Manuel Fernandes explicou aqui no Observador há duas semanas porque não é socialista. Concordo com quase tudo o que JMF disse, só discordo do título. Por várias razões históricas, em Portugal muita gente não é socialista, nem sequer de esquerda mas não é capaz de se assumir de direita (ou acredita mesmo que não é de direita). Há duas explicações. Uma tem a ver com a experiência pessoal. Muitos daqueles que despertaram para a política no Estado Novo não conseguem deixa de associar o termo direita com o Salazarismo. Está profundamente instalado no seu pensamento. Muitos deles encontram-se numa posição curiosa. Começaram o seu percurso intelectual e político na esquerda, a maioria nas esquerdas radicais. Entretanto abandonaram, desiludidos, a militância de esquerda mas não conseguem identificar-se como sendo de direita. Definem-se como não socialistas ou não-esquerda.

Respeito muito as experiências pessoais e não as julgo, sobretudo aquelas que começaram em tempos que não vivi. Passar do marxismo radical para o não-socialismo é uma evolução que admiro e que vejo com muitos bons olhos. Mas a minha experiência intelectual e política é diferente. Tinha 8 anos quando se deu o 25 de Abril. Para mim, o Estado Novo faz parte da história que nunca vivi. Nasci para a política com uma ameaça muito bem identificada: o comunismo. Em Portugal, o PCP e as esquerdas radicais. Na Europa e no mundo, a União Soviética e a China. Aprendi depressa o que não queria: viver num país comunista ou ver a União Soviética dominar a Europa. Em Portugal, Sá Carneiro tornou-se rapidamente a minha referência política. Representava para mim a resistência à ameaça comunista. No mundo e na Europa, Reagan e Thatcher lideravam a luta contra o império comunista e o poder soviético.

Na universidade As Origens do Totalitarismo de Hannah Arendt foi um dos livros que mais me marcou. As sociedades democráticas e pluralistas permitem a realização individual. As sociedades totalitárias corrompem a condição humana até a reduzir à miséria moral absoluta. Arendt mostra que há uma divisão anterior à oposição entre a esquerda e a direita: a distinção entre a democracia e o totalitarismo, a mais importante da política do curto século XX que vai da Revolução Bolchevique às quedas do Muro de Berlim e da União Soviética. Para mim, o PS era um aliado contra o totalitarismo comunista em Portugal. Tal como Mitterrand e Helmut Schmidt eram aliados contra a ameaça soviética.

É neste contexto que a aliança de António Costa com as esquerdas totalitárias portuguesas é muito grave. O PCP e o BE não tiveram que se democratizar para se aliarem a um governo de um país democrático. A decisão de Costa constituiu uma traição à luta dos portugueses contra o totalitarismo comunista. O regime democrático português democratizou a direita. Não há direitas anti-democráticas em Portugal. Mas quase 50 anos de democracia não foi suficiente para democratizar parte da esquerda portuguesa. Hoje essa esquerda anti-democrática está no poder. Terá António Costa lido Arendt?

A minha educação intelectual e política continuou em Inglaterra, com o mestrado e o doutoramento, onde aprendi que a liberdade é o valor mais importante para a realização individual. Mas a liberdade é muito mais do que a capacidade de chegar ao poder, como muitos nas esquerdas julgam. A liberdade é sobretudo a possibilidade de ser livre sem nunca chegar ao poder. Nas últimas quatro décadas, em Portugal, na Europa e no mundo, as direitas têm estado muito mais do lado da liberdade do que as esquerdas. Vou mesmo mais longe. A direita é a escolha natural para quem ama a liberdade. Os países onde os cidadãos gozam de mais liberdade são aqueles onde existem tradições de direita democrática fortes.

A minha direita também é uma direita céptica. Não gosto nada da direita nacionalista e radical de Le Pen, da AfD, de Orban e de Salvini, os amigos europeus de Putin. Entristece-me e preocupa-me assistir ao modo como o partido republicano nos Estados Unidos se entrega a um Presidente como Trump, sem quaisquer escrúpulos e sem a mínima cultura democrática. A minha direita americana é a de Reagan. Não é a de Trump. É dramático assistir ao modo com os radicais anti-europeus estão a destruir o partido Conservador no Reino Unido. A ideologia nacionalista está a substituir a sensatez e o pragmatismo que sempre definiram os Tory, e está a matá-los.

O calculismo político é a segunda razão que explica a utilização do termo não-socialista. A maioria dos políticos das direitas em Portugal, do PSD, da Aliança e do CDS, está absolutamente convencida que não consegue construir uma maioria eleitoral usando o termo direita. Em Portugal só há duas maiorias políticas: uma maioria de esquerda, ou uma maioria não-socialista. Estou disposto a aceitar esse argumento e não vou perder tempo com essa discussão. Só faço um pedido: aceitem as direitas nessa maioria não-socialista.

No fundo, para mim, é uma questão de identidade, de igualdade (porque razão em Portugal a esquerda pode ser de ‘esquerda’ e a direita não pode ser de ‘direita’?) e de orgulho. Desde o 25 de Abril, a direita tem sido discriminada em Portugal, e em grande medida essa descriminação é uma auto-descriminação. Não contribuo para isso. Para mim, as escolhas políticas fundamentais são simples: entre a democracia e a ditadura; e na democracia entre a direita e a esquerda. Sou um democrata que ama a liberdade, sou de direita e sempre fui de direita. Mais, tenho orgulho na direita portuguesa. Fez um corte absoluto com a ditadura e com as tradições não-democráticas. Não se pode dizer o mesmo da esquerda socialista, como se vê com a geringonça.