Existem abundantes evidências de que, para a entender a complexidade do ser humano enquanto agente histórico individual ou grupal, não basta estudar o contexto político, militar, diplomático, social ou económico em que esteja inserido. A mentalidade, a psicologia, a cultura e, com elas, a as artes decorativas e os materiais arquivísticos, constituem pormenores nada despiciendos. Nenhum detalhe é de desprezar, desde que relevante para uma narrativa bem cerzida.

Nas décadas de 1970 e de 1980, aquelas em que primeiro comecei a assimilar informação sobre o mundo em que me inseria, o planeta ainda continha realidades culturais tão anacrónicas quanto o imperador da Etiópia (até 1975) e o xá da Pérsia (destronado em 1979). Por outro lado, acontecimentos como o casamento de Lady Di, em 1981, a vinda do papa João Paulo II a Portugal e o falecimento da princesa Grace do Mónaco, ambos em 1982, ou a morte de Hergé, pai de Tintin, em 1983, representam epifenómenos hoje incompreensíveis para as novas gerações. Obrigando a um esforço de descrição multidisciplinar, com recurso às ferramentas sociológicas e antropológicas que Umberto Eco e Michel Foucault tão bem manejavam.

Os casamentos de sonho entre plebeias e monarcas (imperadores, reis, príncipes e grão-duques) são tão velhos quanto a história da humanidade, conforme o provam os filmes da Disney, e esse livro fascinante, escrito por Bruno Bettelheim, que é a Psicanálise dos contos de Fadas. No caso do século XX, os enlaces grandiosos dos últimos xás da Pérsia, dos príncipes do Mónaco, dos reis da Jordânia e dos príncipes de Gales, entre 1959 e 1981, encheram de glamour, cor e pitoresco páginas dos jornais e das revistas, bem como de júbilo corações de súbditos, de monárquicos e de republicanos de todo o mundo. Veja-se, a esse propósito, a reportagem da jornalista Carolina Carvalho De Paris para a Jordânia e para o Mónaco. Os vestidos de Noor e Carolina, as noivas reais do verão de 1978 – Observador.

Outro nicho fecundo de reportagens do Observador é aquele que cobre as visitas de Estado a Portugal e os exílios de soberanos estrangeiros em terras portuguesas, de que esta notícia, por Sâmia Fiates, é um dos mais recentes exemplos. Nela, a jornalista apresenta a estadia de Henri de Orleães e Isabelle de Orleães e Bragança, condes de Paris, na Sintra de 1947, enquanto causa remota de aquele matrimónio se vir a realizar no nosso país.

Quanto à mítica estadia de Isabel II e do duque de Edimburgo em Portugal, em 1957, e da recepção que lhe é feita pelo Estado português e pelos duques de Palmela, é objecto de artigo, em 2022, de Maria Salgueiro, disponível aqui. Os ecos desses dias ainda perpassam pelo Portugal de 2025, de certo modo nostálgico de uma era em que a hipótese de restauração, por Salazar, da monarquia, não se encontrava totalmente colocada de lado.

A visita dos príncipes do Mónaco, Rainer e Grace, em 1964, é evocada por Carolina Carvalho em Missa em Fátima, almoço em Queluz, estadia no Ritz. Quando Rainier e Grace do Mónaco passaram férias em Portugal – Observador. Um passado recente, pleno de nostalgia e de graça, de autenticidade e da pátina dos tempos, é recordado com o sabor de uma escrita cuidada e de fino recorte, a qual entretém e educa, ao ritmo do jornalismo de outros tempos, em que o público consumia papel impresso com uma voracidade já extinta. Com recurso a imagens e documentos de arquivo da família Bobone, é reconstituída a intervenção do cônsul-geral do principado em Portugal, o 4.º conde de Bobone, D. Carlos de Lencastre de Araújo Bobone (1902-1981).

É claro que os amores, escândalos, mandos e desmandos da upper class faziam as delícias de um público ávido de mexericos e de calhandrices. As demandas existenciais da princesa Irene da Holanda, em 1964, são objecto de uma reportagem a preceito, sessenta anos depois. A propósito dos 20 anos do seu falecimento (ocorrido em 2002), a graciosa infelicidade da irmã de Isabel II de Inglaterra, a princesa Margarida, é narrada com gusto aqui. Ambas as peças são escritas por Carolina Carvalho.

Para além da natural curiosidade humana e jornalística pelas casas reais, principescas e similares, existe uma outra, pelas casas de moda, precisamente as que vestem as figuras de sangue azul e as de sangue rosa (os membros do jet set). Nesta outra peça de Carolina Carvalho, evoca-se o papel decisivo desses empórios comerciais uninominais, impérios de criatividade, ousadia e inovação, impondo estilos de vestuário ao conjunto de épocas históricas e de sociedades. Mas não só. A propósito de uma exposição do Metropolitan Musem of Arts de Nova Iorque, ergue-se o véu para todo um contexto artístico, o das artes decorativas em geral, abarcando moda, pintura, museologia e arquivística (por causa das peças de arquivo das diversas casas de moda). Tal evocação representa, a meu ver, uma forma descontraída e elegante de dar a conhecer a cultura e a alma de tempos passados, sem se ser sensaborão ou pedante. Comunicar e escrever com panache é obrigatório, num mundo em que a comunicação e divulgação de ciência, cada vez mais, requerem uma metodologia própria e inovadora. Por seu lado, Sâmia Fiates narra, neste artigo, como o museu do Louvre abraça a necessidade de aliar a moda às artes decorativas e à arte em geral, numa narrativa de contexto histórico, cultural e psicológico. Nessa exposição, a história do mundo, do tempo de Bizâncio ao século XIX, presente nas peças museológicas, sai reforçada enquanto testemunho da criatividade e engenho humanos das griffes homenageadas. Um outro exemplo da moda aliada à história, neste caso não de casas reais ou principescas, ou ateliers de marca, é o que Carolina Carvalho nos descreve acerca de uma exposição patente, em 2023, na casa ducal espanhola de Alba. Quando a aristocracia de sangue preserva a memória documental e material do seu passado, é o público em geral que beneficia da inteligência dessas políticas privadas de identidade e de memória. No dia dos namorados de 2025, é inaugurada, nesse mesmo espaço ducal, uma prometedora exposição de Joana Vasconcelos , conforme nos conta Sâmia Fiates.

A análise da temática dos jantares de Estado, ocorridos, outrora, nos palácios de Queluz e da Ajuda, pode ser aprofundada, pelo leitor mais curioso, na série de posts da White House Historical Association, consultáveis aqui. De Jackie Kennedy à incumbente Melania Trump, a Casa Branca, em Washington D.C., constitui um marco de intervenção das primeiras-damas dos Estados Unidos, e de atenção dos media, desejosos de embalar o público com estórias de noites de gala, de bailes dançantes e de troca de mexericos entre os poderosos do olimpo planetário.

A cobertura jornalística de filmes como Napoleão, com a sua multidão de figurantes e um imperial guarda-roupa, descreve como, para o que procurou ser uma reconstituição fiel (até ao último botão) de algumas das batalhas do soberano francês de origem corsa, Ridley Scott exigiu de alguns dos seus colaboradores um trabalho hercúleo de documentação das vestes, adornos e figurinos do início do século XIX, segundo a reportagem de Carolina Carvalho. Não vi Napoleão, muito devido ao que os críticos consideravam simplificações nas reconstituições históricas (o que não deixa de ser irónico), mas adorei Casa Gucci, do mesmo realizador. Toda a trama psicológica, os jogos de poder, a riqueza dos cenários e do guarda-roupa, o trabalho exemplar dos actores (sobretudo, o papel assombroso de Lady Gaga), não mereceram os favores de Hollywood, o que por si não é sinónimo de surpresa. Vale a pena recordar a estória por detrás do filme, aqui relatada pelo jornalista Mauro Gonçalves, e esta crónica de Eurico de Barros.

Outra fita passada em Itália é Ferrari, também com o actor Adam Driver, interessante pelas pinceladas de complexidade psicológica e moral empregues no retrato de Enzo Ferrari, em 1957, e dos meandros poderosos da scuderia do cavalo vermelho – outra casa comercial transalpina de enorme prestígio, a lembrar as casas ducais do renascimento. O filme resulta numa biopic competente, mas, para mim, não tão estimulante ou apaixonante quanto a anterior. Seja como for, vale a pena saber mais sobre ela através do olhar experiente de Eurico de Barros.

Um terceiro filme passado em Itália, mas agora no século XIX, e que me impressionou pela actualidade do tema (antissemitismo) e pela beleza visual das vestes, ritos e cânticos católicos, encenados de modo operático, é Rapto, o qual acompanha a história da Santa Sé de 1858 a 1870.

Como elementos extras a esta coluna de opinião e enquanto complemento do que ficou escrito, vale a pena, por fim, consultar alguns curtos ensaios, em inglês, da leiloeira Sothebys, dada a riqueza iconográfica e informacional acerca das peças expostas. Da narrativa cuidada sobre a casa joalheira parisiense Van Cleef, fundada em 1896, passando por um painel de debate sobre manuscritos com poemas e desenhos de William Blake, ao relato, na primeira pessoa, da experiência de recepção de um manuscrito de JK Rowlings, estes saborosos nacos de prosa, entremeados de belas imagens e de perfeitas legendas, podem proporcionar, para o leitor, momentos prazerosos, indutores de dopamina. Pois o contacto com a historiografia, ou o modo como a história é narrada e interpretada, deve ser uma experiência de prazer, e não de enfado, percepção habitual por parte da maioria da população, quando frequenta o ensino convencional ou lê uma história de Portugal. Ao invés, entrando em contacto com textos jornalísticos a propósito de lifestyle, cinema e saúde mental, no Observador, é possível estabelecer um estilo de vida saudável, equilibrado e inteligente, nos quais emoções positivas, curiosidade intelectual e demanda pela beleza do mundo andem estreitamente interligadas.

Em conclusão: a museologia, a arte em geral e as decorativas, em particular; a arquivística e a historiografia; a literatura, o teatro e a psicologia; e o jornalismo radiofónico e escrito, tal qual praticado pelo Observador, significam, para mim, a possibilidade de aceder ao entendimento da psique humana oculta por detrás dos factos, actuais ou passados. A experiência dita que apenas ao longo de uma vida inteira de estudo podem ser entendidos os mecanismos das relações interpessoais, os jogos de poder político, institucional, interno ou diplomático, comercial ou militar.

Cabe ao historiador digno desse nome profissionalizar-se sem se hiperespecializar, multiplicando saberes, pela diversidade de experiências de aprendizagem, formais e informais. Procurar entender todos os fenómenos que o rodeiam na sociedade global em que está integrado, segundo o lema de Públio Terêncio Africano (século II a.C.): Nada do que é humano me é estranho.

Nenhum cenário humano lhe deve causar desinteresse, por mais tóxico, cruel ou disruptivo. Qualquer arquivo ou biblioteca pode permanecer por explorar, na medida das suas forças. Urge escavar, revolver, minerar a sua própria psique, qual jazida mineralógica ou estação arqueológica. Recorrendo aos ensinamentos diversos da psicologia (geral e clínica), da psiquiatria, da psicanálise, da hipnose clínica e da programação neurolinguística, algumas delas evocadas com regularidade na rádio Observador, em podcasts como Labirinto.

Tanto Carl Gustav Jung, Eric Erikson, Milton Erickson, Wilhelm Reich, figuras preferidas do estudo da mente humana, quanto o eterno bardo, William Shakespeare, ajudam a entender-nos e aos outros. Com verosimilhança e contexto, sem maniqueísmos e heterodoxias de escolas de pensamento. E progressiva atenção aos enviesamentos perceptivos. No fundo, há algo de terapêutico no papel do historiador, que tem de se autoanalisar, antes de o fazer aos mortos com impacto histórico e aos fenómenos individuais e colectivos.

As arcas de Hergé e de Pessoa, a trasladação de Eça e o centenário do nascimento de Camilo, constituem, de 1983 a 2025, outros tantos universos paralelos nos quais procurar respostas para as questões colocadas pela Esfinge e pelos mistérios de Elêusis. Porque nada está definitivamente estabelecido nas ciências sociais e humanas. Muito há a aprender e a explorar.

Aí reside, precisamente, a beleza e o fascínio da vida e do universo.