A coisa não é para rir pois somos todos nós, com as excepções do costume, que iremos pagar de uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde, o duplo preço da crise económica provocada pela pandemia e o da incapacidade do actual governo – bem como de qualquer outro à vista, diga-se em abono da verdade – para aproveitar os fundos prometidos pela Comissão Europeia mas ainda por confirmar, sejam os montantes, as regras de utilização e o reembolso de alguns dos fundos!

Seria natural que o governo caísse rapidamente em virtude da incapacidade que irá demonstrar perante a queda gigantesca do PIB, mas como não há oposição, também não há alternativa. É cedo para julgar as primeiras notícias acerca do «plano» encomendado ao Professor Costa e Silva. Pelo que a comunicação social tem divulgado, já se sabe que, enquanto o governo continua a falar de 6% de quebra do PIB, o autor do plano fala do dobro! Quanto ao resto anunciado pelos media, pouco há que surpreenda como «plano»… Só que, em vez de quinquenal como no tempo da União Soviética, será decenal, ou seja, ainda mais impraticável…

Em contrapartida, após 35 anos de adesão à CEE e posteriormente à UE, Portugal não cessou de receber financiamentos a fundo perdido destinados a modernizar as principais dimensões da economia nacional, desde a formação profissional até ao financiamento de infraestruturas, passando pela produtividade do sistema. Nos primeiros 30 desses 35 anos, os sucessivos governos portugueses receberam a módica quantia de cem mil milhões de euros (valor de 2014), ou seja, quase metade do PIB actual, em média 10.000 € por habitante, fundos estes que continuam a chegar diariamen!

Hoje bem podemos criticar a falta de rigor com que a UE tem avaliado esses projectos e esses gastos. O certo é que Portugal não só não mudou estruturalmente como perdeu lugar após lugar na escala europeia, em especial ao nível da produtividade do trabalho, a qual reflecte impiedosamente as deficiências da escolaridade e a baixa qualificação dos investimentos, em especial o investimento especulativo nacional.

Ora, o mais concreto daquilo que foi anunciado acerca do mega-plano do Prof. Costa e Silva são as inevitáveis obras públicas, que vêm do tempo de Fontes Pereira de Melo em meados do século XIX, ressuscitando uma linha semi-rápida Lisboa-Porto e o tal aeroporto que o PS promete desde o tempo de Sócrates… Os únicos que ganharam com o negócio foram os donos dos terrenos generosamente expropriados ao contrário do que acontecia no tempo de Duarte Pacheco. No que diz respeito às obras públicas, estamos pois conversados!

Entretanto, o PS pôs-se a coleccionar empresas condenadas à falência, como a TAP, se não fôr também o caso da EFACEC… Quanto ao pretenso líder da oposição, fala em «fazer duas ou três ‘Auto-Europas’ quando o risco maior é perdermos a única que temos e que o PCP tem sabotado devido à marca da Alemanha e da UE… Já do capitalismo chinês que domina a saúde privada assim como a electricidade, nada se ouve apesar do estatelamento dos gestores nacionais, desde a burla do «Novo Banco» aos milagreiros feudos chineses, aliás correctamente desaprovados pela UE mas atraídos pelos governos portugueses devido ao facto lamentável de mais ninguém querer pegar nos nossos negócios!

Parece que estou a desviar-me do milagroso plano Costa e Silva mas não estou. Nem ele terá o apoio extremo que necessitaria por parte do governo PS nem este, mesmo que durasse mais dez anos (longe vá o mau agouro!), quererá ou será capaz de concretizar o plano depois de avalisado (ou não) pela UE, presa como esta está, por seu lado, entre a badalada «transição energética» e os investimentos tradicionais feitos ao longo de décadas no petróleo e no nuclear…

Justiça seja feita: se as mais de 100 páginas da utopia doméstica de Costa e Silva merecem ser lidas antes de deitar fora algumas ideias que valem a pena, absolutamente nada garante, antes pelo contrário, que os actuais intérpretes do quadro político-sanitário em que vivemos sejam capazes – financeira e partidariamente – de executar tais projectos concebidos para os próximos dez anos! Sobre a completa inadequação do actual sistema político-constitucional, ninguém pediu a Costa e Silva que se debruçasse, como seria indispensável.

Disse, contudo, o mínimo que se exige acerca da miséria judicial que reina no país e por isso lhe ficamos gratos, embora saibamos que essa crítica não tem qualquer futuro concreto… O mesmo se diga da crítica implícita que ele faz de um sistema educativo capturado pelas ideologias na moda e de enormes sistemas sócio-económicos inviáveis a curto prazo, como são as reformas e a saúde de uma população cada vez mais envelhecida e especialmente atingida pela pandemia!