“Repugnante” – disse António Costa – a propósito das declarações do Ministro holandês das finanças sobre a ajuda da União Europeia (UE) a Espanha. A expressão é compreensível no contexto da UE e dos condicionalismos duma crise mundial de saúde. Considerando os valores de solidariedade que a União representa, não há dúvida que a posição do ministro holandês é questionável. Contudo, apesar de ser estranho para quem não tem esse hábito, o Primeiro-ministro português sabe, ou deveria saber, que o governo holandês presta contas à sua população. Este tipo de indignação verbal é mais para consumo interno do que externo. Faz parte da representação teatral que a maioria dos governantes pratica. Não estou a dizer que António Costa não tenha sido surpreendido, somente que tem consciência que à mesa das decisões os que devem mais são os que mandam menos.

A maioria dos políticos portugueses, em particular os que já tiveram e continuam a ter cargos governativos, não tem vergonha na cara. Sabem perfeitamente o que se diz sobre Portugal no estrangeiro, mas nada fazem para alterar a nossa imagem. Preferem expressar descontentamento aos portugueses e permanecer pedintes aos olhos dos estrangeiros. E, assim que se revoltam contra a pouca “humanidade” dos outros, ouvem-se logo as vozes do séquito dos vazios, ou, se preferirem, das camarillas da bajulação. É nessas alturas que estas mais se manifestam. Nada como apoiar os senhores quando estes mais nos envergonham.

E o mais triste é muitos portugueses gostarem deste folclore. Permanecem amorfos e distantes, não dando importância à imagem que a governação portuguesa dá, reelegendo sucessivamente partidos cujas opções políticas, quer a nível parlamentar, quer, principalmente, a nível governativo, destroem o futuro do país. Ano após ano, a despesa pública aumenta. Ano após ano, a dívida pública cresce. Ano a após ano, o poder de compra diminui.

E que fazem os portugueses? A maior parte continua sentada no sofá a apontar o dedo a quem aparece na televisão. Os portugueses, ou a maioria deles, necessitam de duas coisas: primeiro, de culpar alguém pelos seus males e, segundo, do próximo ilusionista. Trata-se dum modo sequencial de complacência. É curioso que muitos portugueses vejam António Costa como um herói perante a relutância dos outros em nos ajudar, mas que nada digam quando o Primeiro-ministro nada faz para que os portugueses tenham o respeito dos nossos parceiros europeus e não só. Respeito que merecem. Resultado? Há 44 anos que os mesmos partidos são eleitos para a Assembleia da República e para o governo. Há 44 anos que Portugal fica mais pobre.

Imaginem o que seria possível fazer, e o nível de vida que os portugueses teriam, se a dívida portuguesa fosse apenas de 60% do PIB? Imaginem o que os governantes holandeses diriam de nós? Imaginem o respeito que todos os outros países teriam por nós?

Porém, tendo em conta as reacções de muitos portugueses, a nossa vida seria imensamente mais desgraçada daquilo que já é, pois aparentam preferir um Estado pobre com uma dívida de 126,1% do PIB, do que um com uma dívida de apenas 60% do PIB.

De qualquer maneira, o governo já tem a solução. Não. O governo não implementará políticas responsáveis, nem terá políticos responsabilizáveis. A resposta é mais música fúnebre: atrasos nos apoios ao lay-off, barreiras em Fátima, drones nas praias (especialmente nas de nudismo), porta e bar aberto no Avante, dois metros (perdão, um metro e meio) de distância entre crianças nas creches e o aeroporto no Montijo.

Há que manter vivo o velho ideal socialista. Os ricos ainda não foram todos suprimidos. Mas, como o Estado português já é um autêntico pedinte, é só uma questão de tempo.

É escandaloso a persistência na pedinchice de mão estendida com um sorriso na cara.

É indecente que nada seja feito para mudar o que os outros pensam sobre nós.

É indecoroso que a despesa pública continue a aumentar.

É indigno a promoção da discriminação enquanto se restringem as liberdades.

É imoral a dívida que vamos deixar aos nossos filhos e netos.

Entretanto, as reformas estruturais estão por fazer. O dinheiro dos contribuintes continua a ser “investido” nas empresas privadas em falência técnica. E que aqueles que diziam não pagar dívidas são os primeiros a prostrar-se perante os pés dos credores, implorando por caridade. Insignificâncias. Nada que preocupe o governo.

E isto é que é repugnante. Verdadeiramente re-pug-nan-te!

Post-Scriptum: segundo a Pordata, os dados de 2018 e 2019, relativos à dívida bruta em % do PIB ainda são provisórios.