Em outubro de 2023 publiquei no DN um artigo intitulado O idiota inútil de Pessoa. Era uma provocação, naturalmente. Mas também um aviso. Já então se percebia que Pedro Sánchez não era propriamente um líder político, mas um operador político frio, disposto a vender a alma, e a Monarquia, em troca de mais uns dias no poder. Confesso que pequei por cautela. Até a minha imaginação tem limites, e mea culpa não pude prever que Sánchez e o PSOE fossem tão longe, tão fundo, e com uma rede tão vasta de cúmplices no desvio de recursos públicos.

Hoje já ninguém duvida: o sanchismo não é apenas um estilo de governação, é uma organização. Um sistema de captura institucional que combina aparelhamento político, corrupção moral, nepotismo familiar e uma notável criatividade para transformar o Estado espanhol numa central de tráfico de influências. A diferença entre o Tesouro espanhol e uma incubadora de comissões ilegais é cada vez mais subtil.

Ministros implicados em casos criminais, dirigentes do PSOE sob investigação, contratos milionários de máscaras COVID adjudicados com sobrepreço descarado e comissões atribuídas a amigos próximos, fundos europeus distribuídos numa lógica clientelar, jornalistas perseguidos, juízes pressionados, e, para dar cor a este cenário de corrupção sistémica, uma primeira-dama investigada por negócios ilícitos, enquanto o irmão do primeiro-ministro responde em tribunal por tráfico de influências. A corrupção no sanchismo não é um acidente, é a consequência lógica de um sistema desenhado para se autopreservar. Nem Camilo Castelo Branco teria tanta imaginação.

Dirão alguns que é exagero, que o Governo resiste, que a economia até cresce. Pois bem, também o Titanic tinha orquestra até ao fim.

A anatomia do sanchismo: erosão democrática e nepotismo sem pudor

O que ocorre em Espanha é digno de estudo. Guillermo O’Donnell, cientista político argentino especialista em transições democráticas na América Latina, definiu regimes semelhantes como “democracias delegativas”: líderes eleitos que, uma vez no poder, comportam-se como déspotas temporários, ignorando os limites institucionais e governando por decreto, chantagem e clientelismo. Pedro Sánchez encaixa perfeitamente nesta descrição, com uma agravante: o sanchismo emergiu numa democracia europeia com quase meio século de Constituição, em pleno seio da santificada e, no caso espanhol, frequentemente ausente União Europeia.

Juan Linz, profundo conhecedor da realidade espanhola, alertava para o perigo de líderes que minam a legitimidade adversária e capturam órgãos independentes. Linz chamava-lhe “erosão silenciosa” da democracia. Com Sánchez, porém, o fenómeno já não é silencioso: é ensurdecedor. O seu governo transformou o Parlamento num instrumento de legitimação formal, negociando impunidades e financiamentos com separatistas, ex-terroristas e minorias radicais.

A captura institucional pelo PSOE é quase absoluta: da RTVE ao CIS, da Advocacia do Estado ao Tribunal Constitucional, tudo está sob controlo. A separação de poderes tornou-se ficção. E o PP, sempre tão comprometido com a estabilidade e a boa educação, assiste a tudo com a resignação de quem teme mais os títulos de um editorial do El País do que o colapso da ordem constitucional.

Durante a pandemia, contratos fraudulentos com máscaras COVID-19 revelaram claramente o caráter predatório do regime. Naturalmente ninguém foi responsabilizado. A opinião pública, entretida em polarizações fabricadas, ignorou que o Estado espanhol se transformara num feudo partidário.

Larry Diamond afirmava algo como “a corrupção sistémica é o maior corrosivo institucional das democracias liberais”. Espanha é exemplo paradigmático: sob um verniz institucional, o poder político degradou-se até ao tribalismo mais básico. A legalidade tornou-se instrumental: cumpre-se apenas quando conveniente.

Fernando Pessoa, lúcido como poucos, via a Espanha como entidade artificial criada por Castela contra os outros povos ibéricos. Pessoa sonhava com uma confederação de nacionalidades peninsulares: Catalunha, Castela e o Estado galaico-português. Exigia, contudo, a queda da monarquia espanhola como pré-requisito para qualquer união. Ironicamente, hoje é essa monarquia, debilitada mas ainda viva, o último alicerce da unidade espanhola.

O projeto político de Sánchez rejeita esse eixo civilizacional e histórico. Ao invés de reforçar a ideia de Espanha, alimenta o ressentimento das suas periferias. Pactua com aqueles que tentaram um golpe de Estado em 2017. Indulta e amnistia criminosos políticos em nome da “convivência”. Governa com o apoio de quem despreza a Constituição, a língua comum e a memória das vítimas do terrorismo.

A identidade nacional, em Espanha deixou de ser um valor partilhado para se tornar num obstáculo político. Sánchez não lidera uma nação: gere uma coligação de ressentidos. O sanchismo é um produto híbrido: meio tecnocracia de esquerda, meio revolução cultural. Com os separatistas como aliados e os extremistas como peões.

Oportunidade para Portugal

Espanha encontra-se frágil e instável. Barcelona está em declínio acelerado, com expatriados a fugir da imposição do catalão, uma língua inútil fora da Catalunha. E que é também, cada vez mais, uma língua de exclusão, de ressentimento e de propaganda. Madrid resiste, embora fragilizada pela chantagem regional constante. É precisamente aqui que Portugal deve agir. Porquê tantas sedes ibéricas em Madrid quando Lisboa é mais estável, internacional e atrativa? Felizmente, fora da nossa bolha, há quem se dê conta disso. Os investidores procuram estabilidade, previsibilidade e segurança jurídica. Portugal tem tudo isto. Falta-nos apenas ambição estratégica.

Admito: esta postura é cínica, mas é também realista. A política internacional constrói-se em momentos críticos — e este é claramente um deles. Com uma Espanha vacilante e uma Europa paralisada pela sua própria liturgia, Portugal tem de abandonar o velho fatalismo, deixar o papel de espectador e intervir com visão e propósito.

Não se trata apenas de ser prudente ou previsível. Trata-se de pensar como civilização. Fernando Pessoa procurou reinterpretar essa vocação no século XX. Séculos antes, porém, o Padre António Vieira já a proclamava, no Sermão da Sexagésima, com a clarividência que lhe era própria: “Portugal é o mais pequeno dos Reinos, mas por sua língua e fé é chamado a ser grande no mundo. Não nos define o tamanho, mas a visão estratégica. Num mundo em transição, onde os blocos se fragmentam e as democracias se degradam por dentro, Portugal tem hoje a oportunidade de se afirmar como o novo polo de estabilidade e racionalidade na Ibéria. A única coisa que nos trava é a nossa proverbial modéstia. Está na hora de abandonar a contenção, a hesitação e a auto-desvalorização. Entre Lisboa e Madrid, há um novo jogo a começar. E, se há semanas ganhámos no futebol, agora há que vencer onde conta: na vida real.