Há uma imagem que resume bem o nosso tempo: alguns homens sentados numa viga de aço, suspensos sobre o vazio. A imagem é uma interpretação da famosa fotografia de 1932, Lunch atop a Skyscraper, de Charles C. Ebbets, onde operários anónimos, uma mistura de imigrantes irlandeses e nativos americanos, arriscam a vida sentados numa viga do Rockefeller Center. Neste caso, trata-se da capa da revista Time, na edição em que elegeu, como personalidade do ano, “os arquitectos da Inteligência Artificial”, colocando-os, precisamente, no lugar onde Ebbets havia fotografado os trabalhadores.
Olhando para a imagem, ficamos com a sensação de que eles estão convencidos que controlam a altura e o medo por terem desenhado a estrutura, mas nas palavras de Paolo Benanti, um dos mais renomados especialistas em inteligência artificial e, por acaso, frade franciscano, estamos frente-a-frente a “uma oligarquia tecnocrática sentada no vazio, privada de qualquer rede de segurança”. Trata-se, no fundo, de mais uma variação do velho mito ocidental da salvação. No entanto, esta elite já não acredita no progresso liberal clássico, mas que não consegue abdicar da ilusão de redenção: da crença de que a técnica nos salvará de nós próprios.
Essa ilusão começa, precisamente, no modo como estes homens são nomeados. A etimologia da palavra arquiteto sugere a ideia de mestria, de alguém que possui domínio total sobre a técnica, que conhece o peso específico de cada material, que sabe o ponto exato de cada detalhe. Por isso, um arquiteto responde pelas escolhas e pelos efeitos que estas produzem. Mas a IA não é uma catedral construída tijolo a tijolo. Nem os seus responsáveis novos Brunelleschis ou Eisenmans.
Há aqui uma fraude conceptual que tem implicações profundas. Ao sugerir controlo, planeamento e domínio racional, a palavra “arquitetura” tranquiliza-nos. Dá-nos a ilusão de que alguém sabe exatamente o que está a fazer. Mas estes sistemas funcionam por probabilidades ou correlações opacas, que ninguém compreende plenamente. E se, neste sistema, “a conversa já não é relação, mas input para afinar um modelo linguístico e a arte já não é epifania, mas padrão generativo”, o nosso maior medo não deve ser que as máquinas ganhem vida, mas que o ser humano seja reduzido a recurso mineral, a um jazigo cognitivo a ser explorado até à exaustão para alimentar a fornalha da eficiência. A ironia é cruel. Enquanto alguns sonham com a imortalidade digital ou com a fuga para Marte, a maioria da humanidade é reduzida a matéria-prima.
As civilizações antigas sabiam viver com dilemas insolúveis. A política não era o caminho para a salvação, mas uma arte imperfeita de contenção do mal. Para suplantar esse esquema, certo liberalismo proclamou, numa versão empobrecida do Cristianismo, que a crença de que a história tem uma direção moral e que a expansão da razão, da ciência e dos direitos individuais conduz inevitavelmente a sociedades mais livres, mais humanas e mais pacíficas. Tendo isso acontecido ou não, trata-se de uma ideia em crise. E quando a fé no progresso colapsa, não regressamos à razão, mas ao mito. E o mito dominante do nosso tempo é que sistemas técnicos, geridos por uma oligarquia esclarecida, conseguirão evitar as tragédias que a política e a moral não conseguiram impedir. O erro moderno — tanto liberal como tecnocrático — é acreditar que todos os problemas têm solução definitiva.
No fundo, os arquitetos da IA não são demónios nem salvadores: são sintomas de uma cultura que perdeu o sentido do limite e substituiu a prudência pela aceleração.