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Trata-se de separar quantos, de um modo ou de outro, na banca, nos jornais, nas empresas, nos clubes de futebol, nos partidos, no dia-a-dia, prevaricam, se conluiam em obscuras manobras (vulgo manigâncias), vigarices até, dos que nunca, por palavras, gestos ou obras, se envolveram em nada de menos legal ou ético. Os primeiros são os espíritos – pairam entre nós, espectrais, monstruosos, e contudo, passeando-se altaneiros, com ar de impunidade e superioridade, o queixo erguido e a postura “à prova de bala”; como se diz na minha terra, “ao vê-los, ninguém os leva presos”. Os santos, entretanto, sem nada a reprovar-se, têm dificuldade em se fazer reconhecer (chegam a chamar-lhes tansos ou “anjinhos”).

Chegado aqui, cada leitor dir-se-á, convicto e satisfeito: é assim mesmo!, achando-se naturalmente santo, pois nunca foi ministro, jornalista, comentador nos media, presidente de clube de futebol, agente de jogadores, ou empresário com veia para o negócio (tipicamente, não terá qualquer jeito para o negócio), nomeadamente banqueiro. O leitor bem-intencionado sentir-se-á instintivamente um santo.

Pois eu duvido.
“Qual é a dúvida, ó mal-intencionado cronista Paulo de Almeida Sande?” estou já a prever dirá, indignado, mais do que um leitor presumido de santo. Descanse, caro leitor santo, não é a sua qualidade que questiono. É antes a possibilidade de ter – de termos – a certeza dela e de a reconhecermos. Em si… e em todos nós.

Permitam-me que explique (só mais 3.655 caracteres de paciência):
Até há pouco tempo, havia em Portugal muita gente insuspeita. Mesmo os que eram suspeitos pertenciam ao grande grupo dos de antemão perdoados, pois os portugueses sempre veneraram a gente do poder e a gente do dinheiro. No fundo, aspirávamos a ser como eles, a capturar pelo menos um dos seus genes da esperteza. Admirávamo-los e a todos quantos a eles tinham acesso. Uma expressão, corriqueira, explica tudo: ele rouba mas faz; é um santo.
Santos desses, tantos: Vale e Azevedo (alguém o prendeu enquanto foi presidente do Benfica? um anjo…), Oliveira e Costa, Isaltino, Jardim Gonçalves, Ricardo Salgado e muitos outros. Eram admirados, referências dos pares, dos empregados, dos clientes. Recorde-se aliás uma senhora conhecida por Dona Branca: durante alguns anos, foi credível e admirada – uma santa; mas não tinha pedigree, nem amigos na imprensa, nem nome de família (não era banqueira) e a descredibilização do seu banal esquema Ponzi foi rápida. A santa, afinal, era um espírito.

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Mais sofisticados e difíceis de abalar, são os meios usados pelos anjos maiores, os “da alta”, banqueiros, presidentes de clubes, políticos: intrincadas pirâmides de Ponzi – pagar dívida com dívida -, off-shores obscuras em sítios com nomes exóticos (ou nem por isso), pagamentos por favores, favores a pagamento, corrupção, venalidade, crédito ilimitado e descontrolado… demorou tempo até caírem, e com ele (tempo) anos de vida e milhares de milhões de euros do remendado bolso português.

Santos em desgraça? Ou fantasmas finalmente expostos e descredibilizados? Espíritos nada santos.
Permitam-me usar de novo a metáfora inventada por Paulo Morgado da Cap Gemini, segundo Pedro Santos Guerreiro: a nossa vida empresarial e política – a nossa sociedade – é hoje como um jogo de mikado , em que todos os paus se tocam e fazer saltar um faz saltar todos. O problema da queda sucessiva dos antigos santos é que, na verdade, é cada vez mais difícil acreditar em alguém. E o problema é que os aparentemente santos que restam, fantasmas disfarçados, continuam a agir como se não fosse nada com eles; como se os truques que usaram e usam – a venalidade, a corrupção, os esquemas -, pudessem permanecer invisíveis para sempre. Não aprendem nada. Não querem aprender nada.

Mas enganam-se. Como os outros, como “o dono disto tudo” (quem inventou esta fantástica expressão?), a seu tempo serão desmascarados.

Sejamos francos, nada disto é agradável. Os portugueses, vendo cair os santos que se habituaram a venerar, desconfiam de toda a gente. Leiam as redes sociais: à mais pequena suspeita, cai o céu sobre os homens e mulheres públicos, crucificados a céu aberto, por corruptos, ladrões ou venais. Só há uma forma de darmos volta a isto e é sermos, todos e cada um de nós, mais exigentes, rejeitando a pequena esperteza, a fuga aos impostos, os “andares recuados”, os favores políticos e os pecuniários subjacentes. Tal cultura da responsabilização impedirá os espíritos de se mascararem de santos, impossibilitando-os de continuar a criar redes clientelares e de favores intrincadas e poderosas, sobrevivendo impunes a gerações de reguladores e debate público. Temos de o fazer!

A desconfiança gera desconfiança e um país sem confiança é um país condenado. Esta é a herança legada pelos espíritos nada santos à nossa pequena comunidade lusitana: tornaram Portugal um sítio com mau ambiente. Tenhamos esperança, pois muitos santos não são espíritos. São gente séria. Confiemos neles, começando por confiar em nós próprios – sendo exigentes e rejeitando a facilidade da admiração acrítica.

O problema maior, contudo, permanece: quem são os verdadeiramente santos? Confiança…
Professor da Católica Estudos Políticos