O Muro de Berlim caiu há 30 anos e foram muitos os que acreditaram que seria o último a ruir na Europa, mas novas paredes se levantam, podem não ser de pedra ou betão, mas não são menos vergonhosas.

O “Muro da Vergonha”, nome dado por Willy Brandt, dirigente social-democrata e primeiro-ministro da República Federal Alemã (RFA), foi edificado na noite de 13 de Agosto de 1961, quando os líderes comunistas soviéticos e alemães orientais compreenderam que, através de meios civilizados e pacíficos, não conseguiriam vencer a luta contra o capitalismo ocidental na disputa pelo bem-estar social e económico.  Face a uma fuga massiva de pessoas da República Democrática Alemã (RDA) para a RFA, eles não encontraram outra saída que não edificar uma parede de cimento e arame farpado com 155 quilómetros de comprimento.

Em 28 anos, dois meses e 27 dias de existência do Muro, 5075 cidadãos da RDA, incluindo 574 militares, conseguiram furar o cerco e fugir. Cerca de 75 mil pessoas foram acusadas de “desertores da república”, ou seja, de tentativa de fugir do “campo socialista” e condenadas a penas de prisão. Quanto ao número de mortos, eles são imprecisos pois a RDA tudo fazia para esconder os incidentes ocorridos junto ao Muro.

A queda desta barreira no centro da Europa permitiu avançar com o processo de integração europeia, mas que continua inacabado e pode até sofrer recuos. O Brexit e a luta em torno da independência da Catalunha são dois fortes sinais de preocupação. O primeiro poderá ser seguido da separação da Escócia e o segundo, da desintegração de Espanha. O péssimo precedente do Kosovo ameaça multiplicar-se e criar novas barreiras.

O desaparecimento do Muro de Berlim, que ocorreu, em grande parte, graças à política reformista do dirigente soviético Mikhail Gorbatchov, abriu novas perspectivas no campo da aproximação da Rússia à União Europeia, mas tal não veio a acontecer. No seu último livro: “O que está em jogo:  o futuro do mundo global”, recentemente publicado, Gorbatchov culpa apenas os países ocidentais do afastamento entre o seu país e a Europa, justificando as acções do actual Presidente russo, Vladimir Putin, nomeadamente a ocupação da Ossétia do Sul, Abkházia e Crimeia. Podia-se concordar com ele quando critica o alargamento da NATO ao leste do continente depois da dissolução do Tratado de Varsóvia, mas só até 2008, quando Putin ousou alterar as fronteiras herdadas da União Soviética, pois, a partir daí, o “czar” Vladimir veio dar um forte argumento aos que apoiam o fortalecimento da Aliança Atlântica.

Aliás, a política externa de Moscovo, não obstante tudo o que os diplomatas e políticos russos possam dizer em contrário, segue o princípio dos dois pesos e duas medidas. Qual foi a resposta dada por Vladimir Putin ao forte desejo de independência da Chechénia? Reconheceu aos chechenos o “direito à autodeterminação”? Não, optou por enviar tropas para o Cáucaso e provocar a morte de milhares de combatentes e civis, incluindo mulheres e crianças.

Claro que isto em nome da “integridade da Federação da Rússia”, mas já à Geórgia e à Ucrânia ele não reconheceu esse direito, optando pelo princípio da “autodeterminação dos povos” sob o comando e o controlo do Kremlin.

No citado livro, Gorbatchov tenta justificar os princípios da actual política externa russa com os erros cometidos pelo Ocidente, nomeadamente com a possibilidade de a Geórgia e a Ucrânia virem a aderir à NATO, renegando assim a um dos princípios que ele defendeu: o direito soberano dos Estados de escolherem os parceiros e aliados.

Não quero dizer com isto que os países ocidentais estão isentos de culpas. Pelo contrário, no lugar de aproveitarem uma grande oportunidade de aproximar a Rússia, nos anos de 1990, preferiam humilhá-la, fechar os olhos aos desvarios de Boris Ieltsin e à pilhagem do país pelos oligarcas. Assim foi criado terreno para que surgisse um político como Vladimir Putin.

E, agora, o que fazer? Não há dúvida que a Europa sem a Rússia não tem sentido e vice-versa. Também é difícil acreditar que a política do Kremlin “viragem para Oriente” garanta um futuro seguro à Rússia. Por isso, é necessário encontrar formas de sair do beco em que se encontram as relações entre elas, o que, por enquanto, parece ser muito difícil. Uma das vias possíveis para dar início ao processo de reaproximação poderia ser a solução do problema do separatismo no Leste da Ucrânia, mas continuam a existir fortes divergentes entre os separatistas controlados pela Rússia e o governo de Kiev. Não obstante os esforços do Presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, o cessar de fogo em Donbass continua a ser regularmente violado, argumento que o Kremlin tem utilizado para adiar a reunião do Quarteto da Normandia, formado pelos dirigentes da Alemanha, França, Rússia e Ucrânia. É do interesse de Moscovo manter o status quo no Leste da Ucrânia, pois ele não só garante o seu controlo sobre aquela região ucraniana, como também enfraquece as posições de Volodimir Zelenski na política interna ucraniana.

Tendo em conta os numerosos novos muros criados no mundo nos últimos trinta anos, conclui-se que os políticos mundiais não souberam utilizar a queda do Muro de Berlim e o fim da URSS. em prol da Humanidade E isto é também uma vergonha.