Jean-François Revel publicou A Obsessão Anti-Americana em 2002, um ano depois do 11 de Setembro. A América ainda cheirava a pó das Torres Gémeas e a Europa já tratava de distribuir culpas. Revel observou o espectáculo com a frieza de quem já tinha visto este filme antes, quando os mesmos intelectuais desculpavam o gulag com “contexto histórico” e chamavam ao marxismo “um projecto inacabado”. A tese era simples e incómoda: criticar a América é legítimo, mas o que existe na Europa não é crítica. É obsessão. É uma “religião secular” cujo único dogma é que tudo o que vem de Washington é, por definição, suspeito.
Revel distinguia a crítica da obsessão com precisão cirúrgica. A crítica exige factos, coerência e os mesmos critérios aplicados a todos. A obsessão “selecciona as provas” e vive da contradição: se a América intervém, é imperialismo; se não intervém, é abandono. O acusado nunca pode ganhar porque o tribunal decidiu o veredicto antes de ouvir a acusação.
Fica a pergunta que ninguém em Portugal parece querer fazer em voz alta: isto somos nós?
As relações entre Portugal e os Estados Unidos da América têm uma história longa e complexa, que remonta ao reconhecimento da independência americana por D. Maria I em 1783. Ao longo dos séculos, esta relação bilateral tem sido marcada por momentos de grande proximidade e cooperação, especialmente no âmbito da NATO e durante a Guerra Fria, onde Portugal se posicionou como um aliado estratégico no Atlântico. No entanto, esta aliança nem sempre foi isenta de tensões, e o sentimento anti-americano tem manifestado-se de diversas formas na sociedade portuguesa.
A 28 de Fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel lançaram a Operação Fúria Épica contra o Irão, visando instalações nucleares e infraestruturas de um regime que há décadas financia o Hamas, o Hezbollah e os Houthis. Em menos de vinte e quatro horas, Portugal chegou a um consenso raro. Guterres condenou. O Bloco condenou. O PCP condenou. Até Luís Montenegro pediu “máxima contenção”. O que ninguém perguntou foi: contenção de quem? Do regime que massacrou os seus próprios cidadãos nas ruas de Teerão e desenvolveu um programa nuclear que prometia usar? Ou dos Estados Unidos, que tentaram negociações mediadas por Omã antes de disparar um único míssil?
Não interessa. O guião estava escrito. O Governo português, através de comunicados oficiais, apelou à “máxima contenção” de todos os intervenientes para evitar a escalada do conflito, ao mesmo tempo que condenou os ataques iranianos a países vizinhos e reafirmou a preocupação com o programa nuclear do Irão. Esta posição reflete uma tentativa de equilibrar a lealdade aos aliados ocidentais com a defesa de princípios de direito internacional e a busca pela estabilidade regional.
Revel identificou que o anti-americanismo “serve de bode expiatório cómodo para as elites escaparem aos seus fracassos”. É mais fácil falar de imperialismo do que explicar por que razão a Europa financiou o regime iraniano com contratos comerciais enquanto Teerão construía centrifugadoras. Em Portugal, o fenómeno tem ainda uma camada adicional: o anti-americanismo não é uma posição política, é uma marca de respeitabilidade intelectual. Quem não partilha a indignação automática é imediatamente suspeito de ser “atlantista acéfalo”, “lacaio de Washington”, ou, o insulto supremo nos meios académicos, “neo-conservador”. Este “anti-americanismo de conforto” é frequentemente alimentado por uma narrativa mediática e académica que, por vezes, simplifica ou distorce a complexidade das relações internacionais, preferindo uma crítica unilateral aos EUA em detrimento de uma análise mais matizada.
O problema é que esta respeitabilidade é selectiva. Os mesmos que hoje descobriram uma fé inabalável na soberania iraniana são os mesmos que em 2022 trataram a invasão da Ucrânia como “um conflito com muitas causas”. Quando os tanques eram russos, a soberania era relativa. Quando os F-15 são americanos, torna-se absoluta e urgentemente invocável. Revel chamaria a isto “inconsequência”. Eu chamaria desonestidade intelectual com boa consciência.
O cessar-fogo frágil mediado pelo Paquistão não resolve nada. Sanam Vakil, da Chatham House, resumiu: “não há vencedores, todos perderam nesta guerra.” A América obteve vitória militar sem resultado político sustentável. O Irão perdeu capacidade mas mantém poder negocial. E a discussão pública portuguesa continua a produzir sempre a mesma conclusão, independentemente dos factos. Isso já não é análise. É reflexo.
Não estou a pedir que se aplauda a Operação Fúria Épica. Há perguntas legítimas sobre os meios, sobre as vítimas civis, sobre se os objectivos justificam os custos. Mas não é legítimo invocar o direito internacional contra os EUA depois de ter ficado em silêncio, ou pior, “compreensivo”, enquanto o Irão financiava o massacre em Gaza e os Houthis atacavam navios no Mar Vermelho. Não é legítimo exigir às democracias os padrões que se recusa a exigir às teocracias.
Revel escreveu que “os mentirosos da parcialidade anti-americana fabricam o unilateralismo americano.” Quando Portugal critica os Estados Unidos independentemente dos factos, retira-se da mesa como interlocutor credível. E depois queixa-se de que Washington não o consulta.
Existe em Portugal uma obsessão anti-americana? Talvez não no sentido clínico. Existe algo mais subtil e mais preocupante: um anti-americanismo de conforto. Que não exige esforço, não exige coerência, não exige conhecimento do dossier. Que é socialmente recompensado, academicamente validado e politicamente inofensivo, porque nunca vai custar um cargo ou um convite para um colóquio.
Revel morreu em 2006 sem ver o Irão chegar a este ponto. No entanto, deixou um diagnóstico que permanece actual: “A função principal do anti-americanismo é a de permitir que os intelectuais e as elites políticas se isentem das suas próprias responsabilidades perante os problemas do mundo.”
Talvez seja tempo de Portugal olhar para o espelho e decidir se quer continuar a usar este escudo ou se prefere enfrentar a realidade com a seriedade que os tempos exigem. Mas isso exigiria largar o conforto da obsessão. E esse, ao que parece, é o passo mais difícil de todos.