Neste momento não sabemos qual vai ser o destino da ministra da Saúde no Governo. É natural que Ana Paula Martins esteja farta, que queira ir embora e regressar à vida de dirigente hospitalar, que deve ser um sossego comparada com isto.

Para o primeiro-ministro, a substituição de uma ministra impopular e sob manifesta pressão mediática diária também pode ser o fusível que se sacrifica para controlar os danos para o governo.

Mas as contas a fazer já não são assim tão simples. A partir do momento em que uma classe profissional com manifestos interesses em cima da mesa vem para a praça pública ameaçar com uma greve se a ministra não recuar na intenção de reduzir o preço que lhes paga, Luís Montenegro deve pensar duas, três, dez vezes antes de libertar Ana Paula Martins do fardo.

Certamente sem quererem, os tarefeiros que ameaçam parar as já frágeis urgências hospitalares podem ter-se tornado no seguro de vida político da ministra. É certamente um seguro a prazo, que nisto a única coisa que dura muito tempo são as dores de cabeça. Mas neste momento crítico é quanto basta para recomendar muita cautela política.

Se o primeiro-ministro substituir Ana Paula Martins nos próximos dias ou semanas, sob pressão dos tarefeiros e enquanto não estiver fechada a decisão dos montantes que o Estado lhes paga, este governo nunca conseguirá fazer nada de relevante que possa indispôr as classes profissionais relevantes do sector.

Todos entenderão o sinal: perante uma medida que lhe belisque os interesses, o protesto e a ameaça de paralisação farão o governo recuar para evitar mais chatices.

No fundo, isso seria oficializar a captura do Serviço Nacional de Saúde pelos interesses corporativos sectoriais.

É certo que uma parte do imbróglio político deste governo começou ainda na campanha eleitoral, quando a AD criou a expectativa de uma resolução rápida dos problemas que se manifestavam há anos. A operação do SNS pode não ter piorado nos últimos dois anos, mas a percepção é que também não melhorou.

Para além da maior ou menor habilidade política, o certo é que o SNS parece hoje ingovernável. Classes profissionais que mandam mais do que os responsáveis políticos, incentivos invertidos que acentuam as dificuldades, dependência de um conjunto de vontades individuais ou colectivas e um poço sem fundo em termos orçamentais.

Quanto mais caos houver e mais problemas surgirem nas estruturas e actividades correntes maior dependência tem o SNS de tarefeiros e dos que fazem cirurgias e actos médicos fora do horário normal de trabalho cobrados a preço de estrela do futebol.

Mais do que o pacto de regime entre partidos sugerido pelo Presidente da Repúblicas, o SNS precisa de um pacto entre todas as partes interessadas relevantes. Um entendimento de médio e longo prazo, que reorganize o sector, alinhe incentivos, defina objectivos e premeie os profissionais, partilhando os ganhos de eficiência que possam ser obtidos.

O trajecto actual é bem claro. O SNS está a tornar-se, cada vez mais, um caríssimo sistema de saúde pago por todos, mas apenas utilizado por quem não tem meios para pagar um seguro e recorrer ao sector privado. Ou seja, está a tornar-se precisamente o oposto daquilo que motivou a sua criação e desenvolvimento.