A divulgação da taxa de crescimento da economia portuguesa em 2017 foi feita no dia adequado. As serpentinas e os papelinhos usados para brincar ao Carnaval ainda não tinham sido recolhidos e o número divulgado pelo INE mostrou-se credor de mais umas horas de folia, balões e confetti.

As declarações de regozijo não tardaram em sublinhar dois factos. O ritmo alcançado foi o mais elevado desde 2000, ano tristemente mítico por ter sido até hoje o último em que Portugal progrediu bem acima de 3%. E o foguetório prosseguiu com a afirmação de que o país tinha, finalmente, regressado à convergência real com os parceiros da União Europeia pela circunstância de ter crescido mais duas décimas do que a média dos 28.

Há motivos para tanta alegria? Mais ou menos. Se o ponto de vista a partir do qual se observar o desempenho estiver concentrado numa avaliação de curto prazo, o indicador pode parecer ajustado ao papel de farol de optimismo num país que ainda recorda os traumas da insolvência iminente e da dura operação de resgate que evitou o naufrágio. Acontece que, com um espírito mais sereno, será possível colocar o assunto em perspectiva e chegar à conclusão que a inegável boa notícia é apenas a cereja no topo de um bolo em que a receita é dominada pela fantasia, pela conveniência política e pela propaganda.

As duas décimas que, em 2017, asseguraram a Portugal um pequeno passo em frente na aproximação aos níveis de rendimento médio dos países da União são um escasso consolo quando se compara este comportamento com o de alguns dos estados-membros a quem deve ser invejada a dinâmica. Irlanda, com uma imponente taxa de crescimento superior a 7% e alvo, ainda antes de Portugal, de um resgate destinado a retirar as finanças públicas de um buraco de dimensão notável, é o exemplo consumado. Mas há mais.

O ritmo de crescimento da economia portuguesa está longe de conseguir rasurar o cenário consensual que se prepara para o ano corrente e o seguinte. Organizações internacionais e o próprio Governo antecipam um arrefecimento para 2018 e 2019, a que não será estranho o fim de um período bondoso de taxas de juro a níveis historicamente baixos. E, caso a lente usada para inspeccionar a realidade seja uma grande angular, o que se conclui?

Portugal vai a caminho de completar duas décadas consecutivas de divergência, em que a distância que separa o país do conjunto dos 28 não cessou de aumentar. Na primeira década do actual milénio, a economia nacional cresceu a um ritmo que representa metade daquele que caracterizou a média europeia. Na década que agora se aproxima do fim, Portugal permaneceu estagnado enquanto a UE manteve a pedalada, ainda que modesta, de uma taxa de crescimento média anual de 1,4%.

O que significa um ano de convergência, que se prevê excepcional, em quase vinte de percurso em sentido contrário? Alguma coisa, mas nada que justifique celebrações precipitadas e inconsequentes. Os constrangimentos a que a economia se mantém sujeita não mudaram. É verdade que o INE atribuiu o progresso registado em 2017 a um motor saudável e prometedor, ao destacar a subida do investimento. Mas será necessário que este aumente em sectores e empresas que sejam exportadores e que, num país de capitalistas sem capital, os recursos próprios ocupem a fatia de leão no financiamento de novos projectos e reduzam a crónica dependência do crédito que conduziu o sector privado a um nível de endividamento comprometedor.

Afinal de contas, a economia cresceu 2,7% e está tudo mal? Nem por isso. O consumo privado, que costuma provocar desequilíbrios nas contas externas através do aumento das importações, parece ter exercido um peso relativamente menos importante em 2017. E este, sim, é um aspecto que deve ser celebrado, ainda que os estrategas da actual solução de Governo se vejam obrigados a fazer uma monumental pirueta. Isto, claro, no caso improvável de ainda se recordarem que começaram por eleger o consumo como o grande desígnio de uma nova era de prosperidade.