Operação Marquês

Sócrates está convencido que é inocente /premium

Autor
838

O caso Sócrates será a principal questão para a nova PGR e, obviamente, para o juiz Rosa. O futuro da credibilidade do sistema judicial e da legitimidade da democracia portuguesa estão em jogo.

A acusação a um antigo PM por corrupção, no exercício das suas funções de chefe do governo – é importante salientar — é um acontecimento político extraordinário. A personalidade invulgar de Sócrates torna o caso ainda mais especial. Nos últimos anos, tenho lido o máximo possível sobre o caso, incluindo alguns livros que foram publicados. Uma pessoa que se interesse pela política portuguesa, não pode ignorar o caso Sócrates. Quem segue o caso, tem as suas opiniões. Estou convencido que ele é culpado, pelo menos, de algumas das acusações (sobretudo porque a sua vida é feita de suspeita, desde os envelopes do dinheiro até uma vida académica no mínimo estranha). Também estou convencido que Sócrates se julga inocente. É sobre o segundo ponto que me interessa escrever.

Sócrates veio da província para Lisboa cheio de ambições. Ambições de poder e de riqueza. Percebeu, desde muito cedo, que a inscrição num dos grandes partidos políticos seria fundamental para acumular poder e riqueza rapidamente. Sócrates chegou a esta conclusão porque era a realidade que ele observava. Não criou nem o sistema político português nem o PS. Mas terá visto muita coisa. O mundo de Sócrates é de arranjos, de cunhas, de jeitos, de cumplicidades e de esquemas. Não conhece outro. Por isso, acha que todos os outros., no essencial, levam a vida como ele. E decidiu que também ele iria jogar com as “regras do jogo.” Começou a fazer o que julgava (e julga) que todos os outros políticos também faziam. A carreira no partido seria paralela à acumulação de poder e de dinheiro. Para isso, construiu e cultivou relações no sistema político, no poder locar e no poder nacional, e nas empresas. O seu poder serviria para facilitar a vida das empresas, e estas seriam a fonte dos seus rendimentos.

É muito difícil para uma pessoa obsessiva como Sócrates distinguir a realidade da sua percepção sobre essa realidade. Ou melhor, a percepção é o que no fim conta. Sócrates acha que a maioria dos políticos do PS e do PSD, tal como ele, usaram os seus contactos políticos para aumentar os seus rendimentos pessoais. Para ele, não interessa se é verdade ou não. Basta ele estar convencido de que é verdade. Mais, Sócrates acha que tudo isso é natural. Para ele não faz sentido pensar que a prática de pagar comissões a quem exerce o poder político seja condenável ou prejudicial para o país. Pelo contrário, é uma recompensa merecida para quem tanto trabalha pelo interesse nacional. Acredita que o seu único azar, e a razão porque foi apanhado, foi a conjugação entre a crise financeira, que destruiu o seu governo, e a aliança entre a direita no poder e o Ministério Público. Aliás, é ele que o diz.

Como muita gente também acho que a Joana Marques Vidal fez um excelente mandato como PGR, mas não faço juízos de valor nem antecipo comportamentos em relação à nova PGR. Não a conheço, nem tenho qualquer razão para desconfiar dela. O mesmo se aplica ao juiz Ivo Rosa. Aliás, será muito mau se o estado de direito em Portugal depender de duas pessoas.

O caso Sócrates será a principal questão para a nova PGR e, obviamente, para o juiz Rosa. Mas é muito mais do que isso. É, neste momento, a grande questão do regime político português. O futuro da credibilidade do sistema judicial e da legitimidade da democracia portuguesa estão em jogo. Depois de tudo o que se descobriu sobre a sua vida e a sua conduta como PM, se os portugueses desconfiarem que há uma intervenção política para salvar Sócrates será a confirmação de que ele está certo e o regime está corrupto. A investigação a Sócrates e, a acontecer, o seu julgamento, são também uma investigação e um julgamento ao regime político português.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Europa

Está a União Europeia a caminhar para o fim? /premium

João Marques de Almeida
226

Um ponto surge evidente: a salvação da União Europeia exige realismo político e o abandono da ideologia europeísta que impede muitas das elites políticas da UE de entenderem os desafios que enfrentam.

História

Há 378 anos voltámos a ser Portugal /premium

João Marques de Almeida
242

A nossa independência nacional é tão antiga, uma das mais antigas na Europa, e muitas vezes os portugueses dão-na como adquirida. É um erro. Nada de importante deve ser tratado como se fosse adquirido

PS

O fantasma de Guterres paira sobre Costa /premium

João Marques de Almeida
779

Convém recordar que, desde o 25 de Abril, o PS nunca governou mais de seis anos seguidos. Nunca conseguiu aguentar no governo duas legislaturas seguidas, só enquanto o ciclo económico foi favorável.

Educação

Mais vale acabar

João Pires da Cruz

Damos atenção aos direitos de todos menos aos daqueles que são mais preciosos, os nossos filhos. Gastamos dinheiro em tudo, menos no que é impossível substituir, o tempo das nossas crianças aprenderem

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)