Há uma tentação específica nesta semana entre o Natal e o Ano Novo: ficar parado. É a semana em que o prefixo “pro” em “procrastinar” ganha via livre. O telefone na mão, a televisão ligada como ruído de fundo, rabanadas no prato, prendas por abrir ou já esquecidas, e o polegar a deslizar num feed que não leva a lado nenhum. É o equivalente contemporâneo de enterrar o talento e ainda bater com a pá em cima.
O problema não é descansar. Descansar é essencial. O problema é confundir descanso com entorpecimento mental. Uma coisa repõe energia. A outra apenas consome tempo. Porque o tempo, convém recordar, não é neutro. O tempo pode ser investido, desperdiçado ou enterrado. E, ao contrário do dinheiro, não dá para pedir ao banco central que imprima mais quando acaba. A boa notícia é que aproveitar o tempo não tem de ser heroico nem ascético. Não exige resoluções teatrais nem a ladainha do “novo eu”, que volta já e, em modo repeat, para a semana. Exige apenas a decisão, o compromisso, de aprender alguma coisa que dure. Ler um livro difícil. Voltar a um clássico. Não para impressionar ninguém, mas para ganhar autonomia mental.
Aprender é a primeira forma de multiplicar o talento. A segunda é partilhar conhecimento. Pois o conhecimento que não circula apodrece. Conhecimento partilhado ganha valor porque se testa, afina e melhora. Não é por acaso que quase todos os grandes pensadores escreviam. Escrever obriga a organizar ideias. Obriga a escolher. Obriga a pensar até ao fim. A terceira forma é aplicar o que se sabe no mundo real. Quem aprende melhor decide melhor. Quem melhor decide, melhor gere o risco. E quem gere melhor o risco tem mais probabilidades de transformar tempo em retorno, seja financeiro, profissional ou simplesmente liberdade de escolha. O mercado não é uma abstração. Somos nós, todos os dias, no que escolhemos, no que compramos, no que toleramos e no que premiamos. E por isso o mercado não recompensa boas intenções. Recompensa competência aplicada com paciência.
O que não podemos é ficar parados. Parados a ver o telefone como se o tempo estivesse em pausa, quando, na verdade, está a fugir. O Natal passa. As prendas perdem a graça. O feed renova-se infinitamente sem nunca dizer nada de novo. Mas o tempo que passou não volta. E é por isso que esta semana, que parece morta, pode ser uma das mais valiosas do ano: o mundo baixa o volume e dá-nos margem para escolher o que fazemos com o talento antes de tudo voltar a acelerar. E, hoje, o talento acelera quase sempre na direção do dinheiro.
Foi precisamente nesse espírito que o Financial Times, na véspera do Natal, a 24 de dezembro, publicou uma daquelas peças que parecem brincadeira, mas têm dentes: “Which genius from history would have been the best investor?” O texto começa pelo básico, isto é, pelos incentivos. Fundadores de hedge funds na Forbes, traders com remunerações de 100 milhões por ano, estagiários com propostas de 35 mil por mês. Quando a recompensa é esta, a ideia de que “as finanças sugam talento” deixa de ser teoria e passa a ser aritmética. E depois fingimos surpresa quando a coisa pública fica para quem não teve convite, ou para quem tem uma vocação tão forte que aceita, de livre vontade, ganhar muito menos, com mais escrutínio e menos margem para errar.
A provocação é direta: se o dinheiro fosse um medidor neutro da contribuição social, talvez o melhor que um génio pudesse fazer pela humanidade fosse largar o laboratório, vestir um colete, abrir um Excel e ir arbitrar spreads. Beethoven em Balyasny, Mozart em Millennium, Joule em Jane Street. Humor de fim de ano, suportado por história e papers. É neste ponto que o texto ganha peso: desmonta a fantasia mais popular do nosso tempo, a de que talento e resultados são a mesma coisa. O mercado não é um prémio de mérito intelectual. O mercado é um teste comportamental. Não mede genialidade em abstrato. Mede disciplina, método, controlo de risco, e a capacidade rara de não perder a cabeça quando toda a gente a perdeu.
E enquanto por cá discutimos o acessório como se fosse substância, há um dado que devia ter feito mais barulho: a economia americana cresceu a uma taxa anualizada de 4,3% no terceiro trimestre de 2025. Isto não é trivia para economistas. É o tipo de número que mexe com preços, taxas, mercados e, por arrasto, entra-nos pela vida dentro, mesmo quando fingimos que não. É neste terreno concreto, de preços e risco, que até os génios tropeçam.
E é precisamente aí que a peça do FT ganha interesse: quando troca a pergunta sobre génio pela pergunta sobre disciplina, método e controlo de risco. O exemplo de Newton é o melhor por ser o mais cruel. Newton tinha tudo para ser o investidor perfeito: matemática, lógica, frieza, capacidade de modelar o universo. E, no entanto, durante a bolha da South Sea Company, fez aquilo que milhões repetem em cada mania financeira, com ou sem diploma: entrou bem, ganhou bem, saiu, e depois voltou a entrar quando já não devia. Segundo o trabalho do professor Andrew Odlyzko citado na peça, Newton acumulou cerca de 10.000 ações, equivalentes a 300 milhões em valores de hoje, ajustado ao PIB, além de £19.000 em gilts, equivalentes a 570 milhões. Realizou grande parte em abril e maio de 1720 perto do pico, com lucros acima de 100%. E mesmo assim não resistiu ao delírio: voltou a comprar no auge, convertendo liquidez e gilts em ações no pior momento possível.
A sua famosa frase, “I can calculate the movement of stars, but not the madness of men”, aparece na peça com um detalhe revelador: não foi uma reflexão humilde depois do desastre. Foi resposta no auge, quando lhe perguntaram onde é que a dita loucura ia parar. Ou seja: Newton sabia que era bolha, mas acreditou que conseguia dançar mais uns minutos sem cair. Caiu.
E depois chega Keynes: um Warren Buffett muito antes de existir a Berkshire Hathaway. A gerir o endowment do King’s College a partir de 1922, com retornos médios acima de 15% ao ano durante 25 anos, batendo as ações do Reino Unido em 521 pontos base por ano. E a comparação de capitalização composta é daquelas que põe o leitor a fazer contas à própria vida: 100 virariam 506 em gilts, 855 em ações britânicas, e 2.893 com Keynes até 1946. O detalhe que vale ouro, e que é o oposto do vício contemporâneo, é que Keynes melhora com o tempo: afasta-se da agitação, reduz a rotação, ganha convicção, troca ansiedade por método.
Newton não perdeu por falta de génio. Perdeu por falha de comportamento. Keynes não ganhou por ter frases bonitas. Ganhou por método, paciência e aprendizagem cumulativa. Ou seja, ter talento não chega. É preciso multiplicá-lo. Há milénios que uma parábola nos avisa disto.
Em 2026, multiplicar talento pode começar por um gesto simples: largar o telefone e abrir um livro. Quanto mais vivemos rodeados de aplicações e IA, mais rara e valiosa se torna a atenção contínua. O analógico, por isso, deixa de ser nostalgia e passa a ser vantagem competitiva. A tecnologia vai acelerar, é certo. A IA vai ficar melhor, mais presente, mais tentadora. Vai ser mais fácil produzir conteúdo, gráficos, argumentos. E é precisamente por isso que se torna mais valioso aquilo que ela não consegue produzir por nós: julgamento, clareza, capacidade de pensar em cadeia e de suportar complexidade. Um livro não vibra. Não interrompe. Não pede reações. Obriga-nos a ficar com uma ideia tempo suficiente para ela nos mudar a cabeça. Num mundo fragmentado, isso é riqueza.
E há um clássico que, em 2026, merece ser lido com atenção por um motivo simples: assinala 250 anos. A Riqueza das Nações, de Adam Smith, é provavelmente o livro mais citado e menos lido do mundo. O que, por si só, já é uma pequena tese sobre o nosso tempo. A “mão invisível” passou a slogan. E Smith foi reduzido a caricatura, como se tivesse escrito um panfleto para adoradores de mercados. Não escreveu.
Lido com atenção, é uma lição de realidade: a ordem económica emerge de decisões descentralizadas; os incentivos importam; as consequências não intencionais são a regra, não a exceção. Vale precisamente porque não nos deixa viver no conforto da intenção. Obriga-nos a olhar para os mecanismos: como é que as pessoas reagem, o que é que muda quando se muda o prémio, quem paga a conta quando o plano falha. É o antídoto contra a fantasia de que basta “coordenar melhor” para a realidade obedecer. E, para quem acha que “não tem tempo”, a ironia é que é assim que o talento se multiplica, sem barulho e sem likes.
O Natal passa. As rabanadas acabam. O feed continua, infinito, a prometer novidade e a entregar uma mão cheia de nada. Em janeiro, voltamos todos ao escritório com as mesmas desculpas: “não tive tempo”, “estava de férias”, “o ano ainda agora começou”. A boa notícia é simples: os livros não expiram. E, ao contrário das rabanadas, melhoram com os anos. Quem lê acumula. Quem só desliza recomeça sempre do zero. Bom ano 2026.
Sugestão de leitura complementar:
- The Glasgow Edition of the Works and Correspondence of Adam Smith (Oxford University Press), edição crítica de referência preparada por académicos ligados à Universidade de Glasgow.