Já quase ninguém fala da “classe trabalhadora”. Fala-se muito de “funcionários públicos” de “reformados” e de “desempregados” em geral. E sobretudo não se junta “classe trabalhadora” a “desemprego”.

Quem é a velha “classe trabalhadora”? São os trabalhadores das indústrias (grandes e pequenas), das fábricas, a quem podemos juntar muitos agricultores e pequenos comerciantes. São as principais vítimas da crise. Perderam os seus empregos e (os que ainda trabalham) pagam cada vez mais impostos. São os custos de quem trabalha no sector privado.

Por vezes, no nosso país, fala-se do sector privado como se fosse composto apenas por ricos e privilegiados. A maioria dos trabalhadores do sector privado são pobres e remediados. Quem fala por eles em Portugal? Os partidos de direita nunca tiveram uma relação fácil com esses “trabalhadores”. Desde que se tornou um partido da classe média urbana, o PS passou a ignorá-los. O Bloco de Esquerda nunca lhes deu verdadeiramente importância. O seu eleitorado sempre foi outro, mais urbano, mais educado e menos “trabalhador”. Até o PCP se tem afastado da “classe trabalhadora” – a qual não é o mesmo que os militantes comunistas, com os quais o partido sempre se preocupou e sempre se preocupará. Aliás, basta ver quais são os principais sindicatos comunistas para se perceber o afastamento entre o partido e a “classe trabalhadora”. E o Tribunal Constitucional nem sabe que ela existe.

Uma das virtudes dos partidos de esquerda era precisamente a sua preocupação com as “classes trabalhadoras”. A Europa foi sempre um continente com grandes desigualdades sociais e económicas. O capitalismo do século XIX foi profundamente injusto e a miséria persistiu em todos os países europeus durante a primeira metade do século XX. A “classe trabalhadora” precisava de quem os defendesse e lutasse por direitos laborais, por melhores condições salariais e por mais justiça social. Ainda bem que o fizeram e foi uma luta nobre e justa. A “classe trabalhadora” é composta por pessoas que sabem o significado da palavra sofrimento, são pessoas honradas que querem melhorar a sua vida através do trabalho, e não de esquemas, sabem ajudar e fazer sacrifícios pelos outros. Mas hoje quase ninguém os ajuda.

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Na Alemanha, onde ainda há grandes indústrias, os sindicatos e os partidos de esquerda continuam a defender a “classe trabalhadora” do sector privado. O que explica de resto a racionalidade económica e o anti-radicalismo da maioria dos sindicatos alemães. Compare-se com o que acontece com a França, onde os sindicatos mais poderosos são os da função pública ou quando representam as indústrias privadas tornaram-se demasiado “políticos” e afastados da “classe trabalhadora”. Este afastamento é perigoso e explica em grande medida a adesão de muitos da “classe trabalhadora” à Frente Nacional de Marine Le Pen. Sentiram-se abandonados e encontraram abrigo entre os nacionalistas radicais. Embora em menor escala, notam-se tendências semelhantes em Itália e na Grécia.

Mais grave do que o afastamento, é o facto dos partidos de esquerda continuarem a defender políticas que prejudicam as “classes trabalhadoras”. As duas grandes bandeiras económicas de muitos partidos socialistas, entre os quais o português, são o capitalismo de Estado – bem exemplificado pelo recente apelo de José Sócrates ao governo português para salvar o BES e a PT – e a manutenção de uma despesa pública elevada. Os recursos necessários para manter a despesa e salvar “campeões nacionais” da banca e dos serviços exigem, por um lado, aumento da carga fiscal (como Ferro Rodrigues não se tem cansado de explicar desde que se tornou líder da bancada parlamentar do seu partido) e, por outro, pioram a situação da economia. A defesa dogmática e irrealista da despesa pública pelas forças de esquerda tem custos enormes, entre eles o aumento do desemprego e o empobrecimento da “classe trabalhadora”. Eis a traição da esquerda no início do século XXI.