Temos, finalmente, um horizonte de mais de três anos sem eleições no calendário. O presidente eleito não as quer. O primeiro-ministro não as quer. E os socialistas também não as querem enquanto não sentirem que recuperaram do desaire das legislativas do ano passado. Neste momento, só André Ventura gostava de ir a votos para tentar transferir pelo menos uma parte dos 33% que obteve nas presidenciais para o Chega, engrossando a bancada parlamentar. Mas sozinho não consegue criar uma crise política que leve o país a eleições e lhe permita fazer esse teste.

No país que vai no quarto governo no período de apenas cinco anos, três anos pode parecer muito. Mas não é. As legislaturas completas de quatro anos são, por regra, insuficientes para fazer reformas, para mudar, de facto, alguma coisa. Por maioria de razão, o mais fácil será o governo invocar a escassez de calendário para deixar tudo mais ou menos na mesma, fazendo uma gestão eleitoral do dia-a-dia. Foi isso que fez António Costa, com os custos de degradação do Estado que estamos e vamos continuar a pagar.

Perdemos muito do nosso tempo a discutir os mesmos assuntos, as mesmas fragilidades, as mesmas disfunções.

Há eleições? Lá vamos debater o voto dos emigrantes, a obsolescência do processo eleitoral e as mudanças que é preciso fazer mas nunca avançam.

Há uma tempestade? É o SIRESP e as suas falhas, o desenho da protecção civil, as respostas tardias e descoordenadas.

Saúde? Estamos no mesmo ponto em que estávamos há quatro ou cinco anos, com resultados cada vez piores.

Burocracia e peso do Estado? Há planos, mas ainda não há resultados visíveis.

Estas presidenciais terminam um preenchido ciclo eleitoral e abrem o que pode ser um novo ciclo político. Luís Montenegro tem agora a oportunidade – mais do que isso, tem a obrigação – de avançar depressa e de passar da fase dos estudos e dos power points para mudanças concretas.

Em Belém vai ter um novo presidente que pode ser um aliado importante. Não no sentido politiqueiro e perverso da lua de mel que Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa mantiveram durante anos – ambos focados numa ideia de estabilidade que mais não foi do que marasmo -, mas na exigência da resolução de problemas.

António José Seguro tem insistido nessa exigência de resultados, na necessidade de passarmos do deixa andar e do improviso para a acção que desate os nós e os bloqueios do país. Seguro conhece bem a economia e as suas fragilidades e os problemas das empresas – foi o primeiro a indicar que a reconstrução das zonas afectadas pela tempestade iam obrigar a uma deslocação de recursos que neste momento estão ocupados com projectos do PRR. E sabe que os entendimentos ao centro são essenciais para ter políticas públicas que sobrevivam ao final de cada legislatura – foi o que fez quando liderou o PS e pagou por isso um preço elevado no seu próprio partido, como sabemos.

Luís Montenegro deve aproveitar este novo contexto a favor do governo e da agenda reformista que invoca. A alternativa a isso é o imobilismo, que continuará a ser o combustível que alimenta e faz crescer a direita populista.

E para entrar com o pé direito no novo ciclo político, o primeiro-ministro não poderá cometer mais erros de casting como o da ministra da Administração Interna na remodelação mais alargada que estará a preparar.