Nada do que se passou no congresso do CDS-PP, no passado fim-de-semana, em Aveiro, foi surpreendente para um observador atento ao período entre os 4,2% obtidos em legislativas e o desenrolar da campanha interna. O triplo divórcio político que o partido sofreu interiormente – entre militantes e dirigentes, liberais e conservadores, portistas e restantes – não foi um fenómeno isolado ou decorrente da reunião magna. Esta foi palco, e não motor, das separações referidas. A questão que o rescaldo oferece é enigmática. Pode um partido ser, ao mesmo tempo, vítima e réu dos seus próprios delitos?

Para compor a resposta, examinemos os divórcios. O primeiro, e mais falado, deriva do silêncio de Paulo Portas. Mas há que perguntar: o portismo morreu ou deixou-se morrer? O silêncio do mais marcante líder da história do CDS é consequência do congresso ou foi antes o seu silêncio que influenciou – e muito – o resultado do congresso? Olhemos os apoiantes de cada um dos favoritos: os Antónios (antes juntos) para um lado, os Filipes (antes separados) para outro, não sendo os homónimos exemplo único de excecionalidade. Sem qualquer ardor, poderia dizer-se que Portas, a fiel bússola de um partido emoldurado por quadros e notáveis, deixou de dar (ou de querer dar) o norte aos seus próximos e a uma paisagem que, durante tanto tempo, foi por si desenhada.

De GPS desligado, o portismo dividiu-se, suspendeu-se no voto mais livre de uma eleição decidida em congresso e abriu a janela ao seu fim. Tudo aquilo que se divide, naturalmente, perde essência. Não é que não haja portistas na atual solução – ou nas eventuais oposições –, mas o portismo, como força motora e orientadora do CDS, já não lidera: compõe. Foi visível como este ainda influencia os seus antigos críticos [A.R.], que apoiaram quem apoiaram por este representar um distanciamento dessa herança, mas irónico haver anti-portistas num tempo em que já não há portismo.

O ponto permanece o mesmo: Aveiro foi o começo de uma mudança ou o desenlace de várias alterações? Talvez ambos. Há cinco anos, não creio que uma candidatura interna apoiada por Manuel Monteiro conseguisse tamanha popularidade no CDS-PP – quanto mais ganhar. Os que então teriam criticado optarem, desta feita, pela mudez diz bastante sobre o seu legado –  e sobre o modo como esse legado é hoje avaliado no partido.

O afastamento entre o núcleo decisor dos últimos vinte anos e as suas bases deriva de dois factores: o insucesso eleitoral de uma sucessão apoiada por esse núcleo (Assunção Cristas) e a incompreensão e desvalorização do governo PàF enquanto património político. Eu, pessoalmente, admirei ambos.

Como notou Pedro Passos Coelho, há dias, em Ponte da Barca, já nenhum partido da direita é liderado por figuras dessa coligação de direita – o que nos leva ao terceiro dos divórcios a elencar. Tal não é apenas fruto de idas às urnas nacionais, que despiram o CDS e o PSD de maiorias, mas do julgamento dos militantes, que reelegeram Rui Rio e elegeram Francisco Rodrigues dos Santos.

Tanto um como o outro vivem circunstâncias semelhantes enquanto líderes: forçosamente impermeáveis à crítica mediática, donos de um mandato sólido, defensores de máxima unidade ideológica, profundamente contrastantes com os seus antecessores, ocasionalmente erráticos na agenda (Rio vai do centro-esquerda a “pior que Maria Luís”; Rodrigues dos Santos foi de crítico da “direita envergonhada” a textualmente omisso nos costumes) e sem grandes desculpas para falhar, na medida em que nem no CDS nem no PSD há margem ou legitimidade para guerras civis. No caso centrista, a gestão do apoio nas presidenciais, a relação com o grupo parlamentar e as autárquicas (na manutenção de municípios e na escolha de Lisboa) serão determinantes. Para os sociais-democratas contam, sobretudo, as eleições locais, visto que Belém e a bancada são assuntos arrumados.

Quanto à ideologia, tradicionalmente mais relevante no CDS, seria injusto declarar uma purga, ainda que a inimizade seja atualmente indesmentível. Não há protagonistas liberais na direção que saiu de Aveiro, mas há jovens liberais como apoiantes e propostas liberais no seu programa (é olhar para a Educação, por exemplo). Seria, aliás, pouco prudente rasgar a convivência história entre liberais e conservadores no seio do CDS, pois daria razão aos novos partidos com representação parlamentar, que nasceram ideologicamente monoteístas: o Chega e a Iniciativa Liberal. No discurso de quem agora lidera, há uma preocupação em manter essa saudável federação. Só o tempo – e quem vence merece tempo – será bom juiz da prática.

No longo prazo, o desafio maior é este: durante anos, o CDS contou com o voto de quem acreditava mas não ouvia aquilo em que acreditava da boca do CDS. Por ser o partido mais à direita no arco de poder, recebia o voto de quem estava mais à direita no eleitorado. Em 2019, essa circunstância acabou. E o futuro da identidade do CDS dependerá da forma como lidar com isso.