No dia 3 de junho de 17 a.C., a luz do dia fenecia quando, subitamente, se elevou no ar suave acima do Monte Palatino, em Roma, o som puro e agudo de cinquenta e quatro jovens vozes entoando um hino invulgar. Qualquer pessoa que, na plateia, naquela noite, fosse versado em literatura grega – e não é nada difícil supor que muitos o fossem – teria facilmente reconhecido naquela métrica sincopada e ligeiramente nervosa a que, seis séculos antes, Safo inventara e celebrizara, cinzelando alguns dos versos mais sublimes sobre o anseio erótico.

Naquela particularíssima noite, contudo, o desejo ardente não constava do cardápio poético. E isso ficou claro mal os dois coros de vinte e sete cantores – um de rapazes e outro de raparigas, cada um correspondendo a uma das divindades invocadas no hino – se dirigiram a Apolo e Diana, «brilho e trevas do mundo, adorados para sempre», para «tornar os nossos jovens dóceis / e virtuosos; aos nossos idosos, conceder cuidados de saúde pacíficos, / dar a toda a raça de Rómulo glória, / descendentes e riqueza.»

O canto daquele hino era, na verdade, o ponto alto de uma magnífica e solene ocasião cívica: os ludi saeculares que Augusto, nascido Octávio, ordenara nesse ano – uma celebração de Roma como capital do mundo, destinada a comemorar o início de uma nova era, um novo saeculum.

E porque não? Catorze anos antes, Augusto derrotara Cleópatra e António em Áccio, estabelecendo Roma, de uma vez por todas, como a única grande potência mediterrânica e pondo fim a cem anos de guerra civil. Desde então, vinha consolidando o seu poder, tanto fora como dentro de portas, viajando pelo Oriente e legislando reformas éticas e morais. Apenas então, em 17 a.C., Roma e o mundo – e a sua própria condição de imperador de facto – podiam ser considerados suficientemente seguros para anunciar o início daquilo que era claramente uma Nova Ordem Mundial.

Temos imensos detalhes relativos à encomenda e execução do hino que celebrava a conquista de Augusto, graças à sobrevivência de dois objectos: um livro e uma pedra. O livro, da autoria de Suetónio, historiador e biógrafo dos imperadores, foi escrito cerca de cem anos após a noite em questão, e nele descreve-se como Augusto «apreciara tão altamente» a obra de um certo poeta e estava tão «convencido de que ela permaneceria imortal que o convidou a compor aquele carmen saeculare». A pedra, descoberta em 1890 e exposta hoje no Musée des Thermes, é um excerto do catálogo oficial dos ludi saeculares, e relativamente ao hino, regista que, ao terceiro dia, após um sacrifício oferecido no Monte Palatino, “vinte e sete rapazes e vinte e sete raparigas, ainda com os seus pais e mães, cantaram um hino. E também no Capitólio. Esse cântico foi composto por Q. Horácio Flaco.”

Nós conhecemo-lo simplesmente como Horácio.

O poema cantado nessa noite longínqua – uma expressão lírica grega das virtudes cívicas romanas e das ambições imperiais; um hino patriótico adossado aos cadenciados ritmos poéticos do anseio erótico; uma grandiosa celebração de valores oficiais e comuns, moldados de forma definitiva por um indivíduo, um bardo solitário – denuncia as estranhas tensões e aparentes contradições que caracterizam não apenas a vida e a obra de Horácio, mas também a nossa ambígua atitude relativamente a ele. Ele é, por um lado, o augusto Augustano: durante a sua vida, amigo do imperador e também de Vergílio, movendo-se pelos mais altos círculos sociais, políticos e literários, reconhecido como o “intérprete da lira de Roma”, como ele próprio se vangloria; após a sua morte, uma figura absolutamente central para a tradição poética ocidental, tendo tido particular influência no Renascimento, depois de ter definhado em relativo esquecimento durante a Idade Média (foi sempre mais popular quando a razão estava em voga.) O século XVI francês – Ronsard (que em mais de um poema rima “grâce” com “Horace”), Du Bellay, Montaigne, «o Horácio francês» – e o século XVII e particularmente o início do XVIII inglês (Addison, Steele, Prior, Pope) seriam impensáveis sem ele.

Por outro lado, é – bem, é o augusto Augustano: toda aquela filosofia paternalista sobre a natureza fugaz do prazer e a inevitável passagem do tempo, vinda de alguém confortavelmente abrigado na alcova do privilégio, soa-nos, hoje, complacente e algo sobranceira.

De facto, a produção lírica de Horácio reduziu-se, no espírito do público, a um par de clichés. Um, que todos conhecem mesmo sem conhecer o seu autor, diz respeito ao conteúdo poético: carpe diem. O outro diz respeito à forma – as estruturas rigorosas de que o seu criador tanto se orgulhava, aqueles padrões de versos formidavelmente densos com nomes engraçados que mais parecem constelações (“Asclepíade Maior”), que têm sido o pesadelo de inúmeros estudantes, reais ou imaginários, desde o Quíron de Shakespeare em Tito Andrónico até ao infeliz aluno do Régulo de Kipling.

Nem o encanto nem a felicidade, o epicurismo de sofá nem a formalidade inexpugnável se adequam ao gosto actual. Quando pensamos em poetas líricos, não é de Horácio – que apenas utilizou os seus metros perfeitos, deixando de lado a confusão erótica – que nos lembramos: para a nossa poesia, gostamos de exaltação no conteúdo, não na forma. E, no entanto, a inabalável recusa de Horácio em proporcionar uma tal exaltação; a sua obstinação com os refinamentos técnicos em vez da crueza da emoção, é a chave tanto para a beleza como para a dificuldade da sua obra maior, as Odes, para as texturas emocionais subtis e frágeis que são tão notoriamente difíceis de transmitir, e para a arte tonal elusiva que a torna tão famosamente difícil de traduzir.

Há, contudo, uma profunda ironia, talvez involuntária, no esplendor daquela noite de junho de 17 a.C. – uma ironia que o próprio Horácio, tão atento à erosão do tempo e à vaidade dos humanos empreendimentos, dificilmente ignoraria. A celebração de uma nova era, proclamada como definitiva, repousava sobre uma ficção cuidadosamente elaborada: a de que o poder, uma vez organizado, ritualizado e cantado, poderia escapar às leis da entropia histórica. Augusto, que se apresentava como restaurador da República enquanto a esvaziava por dentro, acreditava  que a sua ordem sobreviveria não apenas às convulsões do presente, mas também à sua própria morte. O hino, nesse sentido, não era apenas um acto de devoção cívica, mas um amuleto contra a fragilidade.

Sabemos como a história termina. O Império Romano, tão sólido no momento da sua consagração poética, revelou-se tão sujeito à decomposição como qualquer outro organismo político alimentado pela expansão, desigualdade e ganância. A Pax Romana foi real, mas também provisória; a promessa de eternidade, como sempre, revelou-se retórica. Cada império ensaia os gestos da sua queda no preciso instante em que se proclama universal.

É impossível, à distância de dois milénios, não reconhecer nesse teatro de poder ecos desconfortavelmente familiares. Também hoje assistimos a líderes que confundem ambição pessoal com destino histórico; que erigem a própria imagem como eixo moral da comunidade; que falam de grandeza perdida e de necessários renascimentos. A diferença crucial é que Augusto teve Horácio. Teve alguém capaz de transformar propaganda em ambiguidade, poder em forma, ambição em arte – alguém que, mesmo servindo o regime, o submetia à disciplina implacável da linguagem e, desse modo, lhe devolvia a condição humana, isto é, transitória.

O nosso tempo, pelo contrário, produz figuras abjectas para as quais não há qualquer Horácio. Há excesso de ruído e escassez de forma; abundância de slogans e ausência de reflexão. Onde Augusto se fez cantar por um poeta que compreendia a delicadeza do equilíbrio entre celebração e distância crítica, Trump rosna para caixas de ressonância que lhe amplificam a eructação. O resultado não é a imortalidade, mas o enjoo e a saturação.

A ausência de um Horácio não é um simples problema estético, mas um sintoma: sem a mediação da arte – essa força paradoxal que embeleza e limita – o poder perde consciência da sua própria precariedade. E quando o poder deixa de saber que é frágil, torna-se obsceno. A poesia de Horácio, com a sua obsessão pela medida, pelo limite, pelo tempo que tudo corrói, funciona ainda hoje como um lembrete incómodo: não há império que sobreviva à sua própria hybris, nem ambição que não acabe reduzida a ruína ou nota de rodapé.

Talvez seja essa, afinal, a lição mais duradoura daquela noite no Palatino. Não a glória de Augusto, nem a perfeição formal do hino, mas a consciência, delicadamente insinuada, de que todo o poder precisa de ser cantado precisamente porque não dura. E de que, na ausência de quem o cante com lucidez, ele cai mais depressa, mais ruidosamente, e sem um só verso que valha a pena recordar.