Se estreasse em Portugal o “White Secret House” estou convencido que o concorrente com maior popularidade seria Obama ao passo que Trump seria expulso da casa muito rapidamente. Afinal, quem é que gosta de um tipo com um penteado esquisito, cara cor-de-laranja, rico e a dizer disparates como o “grab them…”.

O embrulho muitas vezes é determinante. Se já viu o lago dos tubarões sabe da importância da embalagem para a venda do produto. Quantas vezes um discurso entusiasmante cativa mais do que uma boa medida. Que o diga Obama que começou o seu mandato no início de 2009 e antes de chegar o final do ano já era laureado com um Nobel da Paz pela sua “visão”. O presidente do comité chegou a dizer que “só muito raramente uma pessoa como Obama conseguiu capturar a atenção do mundo e dar às pessoas esperança para um futuro melhor”. Numa ideia: Obama ganhou o Nobel da Paz pelo que prometeu ser e não pelo que fez.

Pelo contrário o nosso concorrente Trump é o menos popular do grupo. Mas como não estamos num reality show talvez fosse importante um olhar mais objetivo ao trabalho do presidente norte-americano.

Vejamos dois dos principais indicadores macroeconómicos: desemprego e crescimento. No primeiro caso cumpre referir que a taxa de desemprego nos Estados Unidos em Setembro de 2019 era de 3,5%. É a taxa mais baixa desde…1969! No que concerne ao crescimento económico, em 2018 os Estados Unidos viram a sua economia evoluir na ordem dos 2,9%, valor que ex aequo com 2015 significa o maior crescimento da década.

Mas será que este crescimento económico apenas beneficia os mais ricos? Estará o governo de Trump ao serviço dos que menos necessitam? Vejamos os indicadores sobre pobreza. A percentagem de americanos a viver abaixo da poverty line norte-americana – cerca de 25.000 dólares de rendimento anual num agregado familiar com 4 membros de acordo com as guidelines de 2018 – é de 11,8% o que representa o valor mais baixo desde 2001.

E sobre segurança? A taxa de crimes violentos baixou 4,6% nos primeiros dois anos de mandato de Trump. E a produção de armas, após um número recorde em 2016, tem vindo sempre a descer sendo que os dados de 2018 já apontam para uma menor produção do que em qualquer dos anos do segundo mandato de Obama.

Existem, finalmente, duas lanças sempre apontadas a Trump: ambiente e paz mundial. Começando pelo ambiente as estimativas apontam para uma diminuição das emissões de CO2 nos Estados Unidos na ordem dos 2,4% em 2019. Quanto à paz mundial, ao contrário de todos os outros dados que são inferidos pela análise estatística (consultei o sítio factcheck.org) é difícil dizer se estamos melhor ou pior, sendo certo que a ameaça que ecoava mais alto nos últimos anos (Coreia do Norte) foi resolvida com a diplomacia, mais ou menos desajeitada de Trump. E o terrorismo? Consultando o site ourworldindata.org vemos uma quebra significativa das mortes por terrorismo de 2016 para 2017.

Consigo compreender que o leitor provavelmente não apreciasse a companhia de Trump na ceia natalícia. É legítimo. Mas a avaliação do desempenho político não deve ser feita com critérios semelhantes aos que utilizamos em concursos de popularidade. Cabe aos cidadãos norte-americanos no final do próximo ano decidirem se gritam a Trump o seu célebre “You’re fired” ou se lhe conferem novo mandato. A nós, deste lado do Atlântico, cabe-nos respeitar como exigimos respeito relativamente às nossas escolhas que, certamente, a muitos vizinhos do mundo devem parecer muitíssimo estranhas.