Existem, pelo menos, dois grandes erros quando se aborda o tema. O primeiro, aliás indiciado pela pergunta formulada no título do texto é o da generalização. Não existem, obviamente, “países machistas”. Logo, Portugal não é um país machista. Existem, isso sim, portugueses machistas e portugueses não machistas. Tratar árvores como se fossem a floresta é meio caminho andado para não se resolver coisa nenhuma.

Todos conhecemos um António que se indigna com tudo. Normalmente à terceira ou quarta vez já não lhe damos importância nenhuma. Ou uma Beatriz que já trocou de emprego 12 vezes e em todos os casos diz que o empregador era a pior pessoa do mundo. Ou aquele treinador de futebol que sempre que perde foi prejudicado pela equipa de arbitragem. Zero de credibilidade. E aqui está na minha opinião um segundo erro que tem enfermado a discussão sobre os direitos das mulheres: é que tudo é machismo. Tenho lido e escutado coisas inacreditáveis: desde a célebre discussão sobre a mudança do nome do nosso bilhete de identificação de cartão do cidadão para cartão de cidadania a gritos pela “libertação dos mamilos” (afinal o uso de soutien derivava de pressão machista) e até críticas ao facto do homem segurar na porta para a mulher passar. Claro que, pegando neste último exemplo, podemos gastar horas a fio e, se escavarmos bem fundo, talvez se encontre um qualquer resquício machista, um argumento no meio de dezenas que desaconselhe esse procedimento, uma ideia em contracorrente com muitas outras que afinal demonstre que esse gesto é pior do que melhor. Mas qual é a importância prática de discutir isso?

A esta pergunta posso antever a seguinte resistência: tudo é importante. Tudo pode e tem que ser discutido. Ora, isso é uma doce ilusão própria de um mundo encantado onde existem reis, rainhas, princesas e dragões. Dispomos de cartuchos limitados. Caso contrário seremos o António que se indigna com tudo ou a Beatriz que mal começa com a ladainha de que o chefe é isto aquilo e aqueloutro nós já desligámos. Cada artigo gasto em coisas que não têm qualquer relevância na afirmação da justa igualdade de direitos entre homens e mulheres é uma machadada nessa luta. Não tenho nenhuma dúvida que uma boa parte daquelas que se apregoam como feministas estão isso sim a fazer o jogo dos machistas.

Não sejamos ingénuos ou, pior que isso, castradores: o Carlos tem direito à sua opinião. Sim, ele tem todo o direito de achar que uma mulher que tem 20 parceiros sexuais deve ser rotulada com apenas quatro letras e que um homem que teve 20 parceiras sexuais é “normal”. Pode achar isso. O que não pode é conferir a essa mulher menos direitos em virtude da sua opinião, nomeadamente não pode apelidá-la com essas quatro letras porque está a lesionar o seu direito à reputação e à honra. E sim, nesse caso, está, também, a fazer uma discriminação em função da diferenciação sexual, enfim, a ser machista.

O que fazer com o Carlos? Gastar mil artigos a desenvolver o assunto? Organizar manifestações? Nada disso. Cabe ao “mercado” sancionar essa pessoa. Eu, por exemplo, teria muita dificuldade em ter um amigo que fosse machista. Mas atenção: machismo também é proibir o namorado Daniel de ir a um jantar a dois pelo simples facto do outro lado da mesa estar uma Marta e não um Mário. É fácil dizermos que aquele tipo é um alarve (e é!) porque rotula a Joaninha com as quatro letras. Mas quando proibimos o Daniel de ir jantar com a Marta – que sabe que o Daniel está numa relação – estamos a rotular a Marta de quê?

Como gastamos cartuchos com coisas de importância muito reduzida não temos espaço para debater os últimos mas importantes resquícios da desigualdade em função do sexo. A desigualdade salarial anda hoje em torno dos 18% em Portugal, porém, diga-se, num movimento de convergência de pelo menos três décadas. Mas mesmo em países, como a Islândia, que com legislação muito rigorosa sanciona vigorosamente as desigualdades salariais, existe um pequeno hiato entre o ganho médio de um homem e de uma mulher na execução das mesmas funções. Será machismo? Ou será pelo facto de as interrupções nas carreiras das mulheres serem mais frequentes por via da maternidade e disso as impedir de, em igual ciclo de trabalho, beneficiarem das mesmas oportunidades de promoção do que um homem? Será que o Estado não poderia intervir aqui, por exemplo, com uma medida de discriminação positiva que beneficiasse as mulheres até numa lógica de incentivo à natalidade? Não seria mais útil esta discussão ao debate segundo o qual a desigualdade salarial é uma manifestação de machismo? E não será muito mais relevante do ponto de vista prático esta reflexão por oposição ao grito do Ipiranga dos mamilos?

E esta nossa lei do divórcio, apelidada de vanguardista e aplaudida por tantos homens e mulheres, que agora permite o fim do casamento de forma unilateral estará isenta de falhas? Ou será que é feita à medida dos casais contemporâneos sobretudo dos centros urbanos? Será que se recuarmos a 1970 e a 1980, muitas mulheres, mesmo com 20 e poucos anos, não ficavam em casa para o marido se “concentrar na carreira”? E será que é justo que agora esse homem possa simplesmente rescindir o contrato de casamento porque lhe apetece sem o pagamento de qualquer compensação porque o matrimónio deve poder ser dissolvido sem mais, puramente baseado na cessação do sentimento? Será que por detrás do divórcio unilateral não existem problemas que vão prejudicar, precisamente, algumas mulheres em situação especialmente vulnerável? Será que, paradoxalmente, o aumento das possibilidades do acesso ao divórcio – luta antiga das mulheres – não é precisamente nefasto para muitas mulheres? Ou pretenderá o movimento feminista a defesa dos direitos de apenas um nicho de mulheres?

Perdemos tanto tempo com o feminismo do soundbite que não investimos o suficiente a responder a estas e a outras perguntas que talvez nos levem a identificar problemas e, especialmente, soluções que de facto tornem a nossa sociedade ainda mais igualitária.

Não, Portugal não é um país machista. Sim, existem algumas pessoas machistas. Sim, muitas dessas pessoas são mulheres.