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Pós-troika

Um povo que não se governa nem se deixa governar?

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Não foi Passos mas sim Eduardo Lourenço quem primeiro falou de um povo a viver teimosamente acima das suas posses. Teimosamente é mesmo o termo: foi-se a troika, regressam os velhos tempos. Sem emenda

Nos próximos meses vamos assistir a uma dança curiosa entre Lisboa e Bruxelas. De lá continuarão a repetir que não acreditam nos números do Orçamento de 2015 e a pedir medidas adicionais. De cá haverá sempre, enquanto for possível, a mesma resposta, a de que são apenas diferenças de previsões e que tudo correrá dentro dos limites dos 3% de défice.

A última vez que um governo terminou uma legislatura e desenhou um orçamento para ano eleitoral, 2009, esta dança acabou muito mal. O défice então previsto pelo governo de José Sócrates era de 2,2%, o défice real de 2009 foi de 9,8%. Os tempos são outros, o primeiro-ministro também (faz enorme diferença), e esta deriva não se repetirá – até porque agora as contas são menos opacas, há mais vigilância e, em última análise, os credores não deixam. Mas os sinais que nos chegam de cada reunião do Eurogrupo não enganam: os nossos parceiros não acreditam nos números de Maria Luís e, se a troika ainda estivesse por cá, não se duvide que teríamos um Orçamento diferente, por certo mais apertado. Como a troika já partiu, a ministra das Finanças faz figas e toda a oposição ainda acha que é pouco, pedindo mais despesa e menos impostos (todas as propostas do PS de António Costa, que este tanto elogiou no recente congresso do partido, tinham exactamente esse efeito).

O que se está a passar não é inesperado. Na altura em que a troika nos deixou eu mesmo notei que já só queríamos voltar à boa vida, e parece que não me enganei. Basta atentarmos no indecoroso espectáculo em torno dos feriados a que assistimos na última semana.

Na segunda-feira, 1 de Dezembro, António Costa, que na véspera tratara de sinalizar um PS mais à esquerda, juntou-se nos Restauradores com algumas figuras e organizações tradicionalmente conotadas com a direita para celebrar a Restauração. É uma paixão recente do autarca, que enquanto o dia foi feriado não mostrou pela data mais do que uma atenção burocrática – é até possível que antes de ser autarca tenha mostrado alguma distância, pois a data foi muitos anos a escolhida para manifestações nacionalistas e de extrema-direita. Caído o feriado, passou a organizar marchas de bandas filarmónicas, que este ano desceram pela terceira vez a avenida (os três anos sem feriado…). À sua direita (ou estaria à esquerda?) marcou presença José Ribeiro e Castro, que sempre foi contra a extinção deste feriado e anunciou que não votaria em 2015 num partido que não propusesse a sua reinstalação. Tanto bastou para que o CDS viesse alvoraçadamente dizer que também ele queria o feriado de volta.

Estávamos nisto, sem ainda saber se o magno tema entraria ou não nas conversações para a possível coligação PSD/CDS, e eis que o Governo resolve ir a jogo e destrunfar: este ano, senhoras e senhores, não haverá um dia de tolerância de ponto na administração pública pelo Natal e Ano Novo, mas dois dias, sendo que num deles até se pode escolher entre três alternativas.

Ter ou não ter mais feriados e mais tolerâncias de ponto nunca me pareceu ser a reforma mais importante dos últimos anos – tal como também nunca senti qualquer revolta popular pelo seu desaparecimento. A medida valia mais como símbolo: se era preciso dar a volta ao país, se era necessário trabalhar e produzir mais, por de lado alguns feriados, pontes e tolerâncias valia como sinal dos tempos. Tempos vão e tempos voltam, pelo que não posso deixar de ver idêntico simbolismo neste atabalhoado volte-face. Tal como não posso deixar de me interrogar sobre esta nossa irreprimível tendência para a facilidade e a preguiça.

Saída a troika, desaperta-se o cinto. Saída a troika, percebe-se que afinal o “ir além” terá sido sobretudo uma incapacidade de “ficar aquém”. Saída a troika, registados os hábitos nacionais, entrevisto o que aí vem, apetece voltar ao lugar do comum do desabafo atribuído, apocrifamente, a Júlio César: será que nos confins da Ibéria há mesmo um povo que não se governa nem se deixa governar?

Gostava de acreditar que não, que até se ganhou juízo, que a forma exemplar como a cidadania viveu os dias difíceis e a economia fez das tripas coração inaugurou mesmo uma nova era, que as elites políticas perceberam por fim que não podiam voltar ao passado. Mas não, como está à vista.

Será mesmo mal nosso, mal tão velho que até o poder de Roma deu por ele? Talvez seja, pois de novo ao longo desta crise assistimos à irresponsabilidade das elites e às queixas de muitos que, afinal, eram relativos privilegiados. De tal forma que diagnósticos feitos há muito, e que deviam ser consensuais, tornaram-se de repente anátemas, denunciados à exaustão por políticos, comentadores e analistas.

Tomemos, por exemplo, a seguinte frase – “vivemos sempre acima das nossas posses” – e pergunte-se: quem a escreveu? Passos Coelho? Vítor Bento, como o próprio já assumiu? Nenhum deles. A frase é antiga, pois foi escrita em 1978. E o autor é um homem de esquerda, Eduardo Lourenço. O “sempre” são os nossos oitocentos anos de história e podemos lê-la no seminal “O Labirinto da Saudade”.

Redescobri-a recentemente, ao ler o mais recente livro de Luciano Amaral, “Rica Vida”, obra em que este historiador económico nos conta histórias de crise e salvação em 10 momentos da história de Portugal. Fui à fonte para verificar que Eduardo Lourenço vai mais longe, dedica mesmo um capítulo à ideia de que “somos um povo de pobres com mentalidade de ricos”, um diagnóstico que filia no de Oliveira Martins sobre a nossa “intrínseca loucura”. Desfia os sinais deste nosso mal, fala de um país que está sempre à espera da “graça” e do “milagre” e de gente que vive para o “aparato e aparência”.

Escrito numa altura em que o FMI também estava a chegar (1978), tem referências que hoje poriam doente os bem pensantes. Esta, por exemplo: “Há dois anos que se desenha e avoluma a já agora dramatizada “crise” em que famílias inteiras, das que é costume chamar modestas, gastam num almoço, calmamente, o décimo do que um dos seus membros pode ganhar por mês”. Ou esta: “A vocação ostentatória e boémia da nova classe política, militar e civil passa as raias do entendimento e só em termos freudianos pode ser compreendida”.

Estamos habituados a ler diagnósticos escritos no final do século XIX e a revermo-nos neles, para logo a seguir encolhermos os ombros e desvalorizarmos comparações com um Portugal que, afinal, era bem diferente do actual. É mais difícil digerir palavras como estas, escritas já depois do 25 de Abril por um pensador que ainda está vivo. É mais difícil lermos que no nosso país “não trabalhar foi sempre sinal de nobreza” e pormo-nos logo a pensar que não trabalhar no 1º de Dezembro até pode ser nobreza a dobrar.

Pouco atreito a fatalismos ou a explicações psicologistas da nossa história, não posso deixar de ver na repetição de comportamentos, mesmo de comportamentos comprovadamente errados como alguns do nosso passado recente, repetição que estes dias indiciam e consagram sinais da mesma fraqueza das elites que tantas vezes se comenta. Ou talvez não. Luciano Amaral acha que o problema é outro, é quase o de excesso de elites, mas “de elites fundando o seu modo de vida na protecção face à competição com o mundo exterior e face àqueles que, na própria sociedade, a podem ameaçar na sua posição”.

Um feriado e duas tolerâncias de ponto serão, porventura, demasiado pouco relevantes para conclusões tão dramáticas. Talvez. Mas basta olhar à volta para perceber que não. O espírito destes dias é o do regresso aos bons velhos tempos. A dívida logo se vê.

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