Todas as palavras que conseguir escrever ao longo desta breve crónica serão escassas e ficarão a anos-luz da realidade-real. Nunca ninguém conseguirá dizer o que viveram e vivem as mulheres atrozmente violadas por bárbaros que usam a violação como arma de guerra.

– Não estamos a falar de uma relação sexual, estamos a falar de um ato de guerra cometido por homens que não usam apenas a sua supremacia física, a sua força e o seu corpo para violar raparigas, crianças e mulheres de todas as idades. Estamos a falar de homens que as violam brutalmente e a seguir disparam as suas armas contra os órgãos genitais das vítimas. Homens que derramam sobre elas ácidos e químicos altamente abrasivos. Homens que usam as suas espingardas com toda a crueldade para reforçar a violação e dilacerar os seus órgãos internos. Monstros que acendem fogo e queimam as partes mais íntimas de cada rapariga e mulher que violam.

Tudo isto e muito mais me foi dito pessoalmente, em voz baixa, pelo próprio Denys Mukwege, o médico ginecologista congolês mundialmente conhecido pela sua ação humanitária, que recebeu o Prémio Nobel da Paz de 2018, antes de nos sentarmos para jantar em petit comité, no campus da Nova SBE, a universidade onde dou aulas e este ano serviu de palco às Conferências do Estoril. Tudo isto é muito mais do que ele tinha conseguido dizer em voz alta, na sessão pública em que participou, onde o seu silêncio gritou tão alto como as suas palavras.

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