Não apetece, por estes dias, dizer muito mal da União Europeia. Face às loucuras consecutivas e sistemáticas de Tsipras e companhia, que parecem estar a fazer tudo para que a Grécia saia da do euro e caia a curto prazo numa espécie de guerra civil larvar, se é que só larvar, a paciência e os esforços de racionalidade da União Europeia têm raiado o sobre-humano. Se Merkel não se avizinha da santidade, anda lá perto. Mas isso não deve impedir de olhar para trás e de procurar ver como, com gregos ou sem gregos, as coisas estavam fadadas a, sob muitos aspectos, correrem mal.

A intuição de que assim tinha de ser já não devia escapar a quase ninguém. Alguns livros explicam, para o leigo que se procura informar, as razões disso com algum detalhe. Do que li (não muito, confesso) sobre a matéria, há dois livros de David Marsh, The Euro. The Battle for the New Global Currency, de 2009, e Europe’s Deadlock, de 2013, que são úteis a quem procure perceber com boa-fé o que se passa, mesmo sem ambicionar ter doutrina firme no capítulo.

Eles avançam muito sobre algumas convicções básicas que são fortes: a de que o processo da chamada “construção europeia” assentou em boa dose numa vontade utópica que desprezava uma parte muito tangível da realidade; que se apoiou numa militante decisão de ignorar o estrato passional que subjaz à vida dos Estados; e que tomou por despicienda toda e qualquer consideração relativa ao modo como a diminuição radical da soberania externa tende a deteriorar a soberania interna, provocando conflitos e radicalismos inesperados no interior das sociedades. Estas convicções não relevam, parece-me, de qualquer posição ideológica. Pessoalmente, não me sinto uma alma mais patriótica ou “soberanista” do que a do meu vizinho. Têm antes a ver com a descrição do modo como funcionam os corpos políticos e com os limites da sua plasticidade. Há pontos que não se podem ultrapassar sem mil precauções. Se houver descrições mais próximas da realidade, compro-as.

Mas David Marsh vai, como disse, para além disso. Ele mostra – ou procura mostrar, de uma forma que é muito convincente – como a crise da União Europeia está condenada a prolongar-se num longo período de confusão, sem grandes sucessos nem falhanços verdadeiramente catastróficos, em que se vão consertando os problemas, vão-se dando jeitinhos aqui e ali, sem verdadeiramente os resolver. Marsh relembra a previsão de Ralf Dahrendorf, segundo a qual o euro acabaria por dividir a Europa em vez de a unir e não abunda em palavras ternas para com Jacques Delors. Mostra também que, independentemente dos países “periféricos” terem imensas culpas no cartório no que respeita à sua situação presente, a construção do euro padeceu desde o início de uma soberana indiferença no que respeita à relação do sistema monetário com a sociedade. O dinheiro precisa de um Estado, particularmente quando as coisas correm mal, diz Marsh.

Enquanto relia os dois livros de Marsh, apeteceu-me reler outro livro de que tinha gostado e que comprara quase por acaso, sem ser por qualquer necessidade de alguém que me ajudasse a perceber este confuso planeta. Chama-se The Meaning of Everything, e o autor, Simon Winchester, conta a história da criação daquele que é talvez o mais célebre de todos os dicionários, o Oxford English Dictionary, vulgo OED. É uma história complicada, mas feliz. Do início da sua concepção à conclusão da sua primeira edição completa, em 1928, passaram setenta e seis anos. Esteve para ser publicado em Cambridge, isto é, esteve para ser CED, mas razões sortidas levaram-no para Oxford.

É a história de um trabalho insano e frequentemente mal pago ou não pago de todo. As figuras dos seus editores, a começar pelo primeiro, Herbert Coleridge, neto do poeta, são memoráveis. Frederick Furnivall, que, a par da filologia, se interessava pelo socialismo e pelo remo, sobretudo quando praticado por filólogas socialistas de jovem idade – fundou mesmo um clube de remo para mulheres -, quase levou, por causa da sua desorganização, o projecto do dicionário ao fim. E James Murray, sem dúvida o mais importante dos editores, trabalhou durante anos e anos numa casinha, o Scriptorium, construída num quintal londrino, antes de uma muito tardia transferência para Oxford, onde só arranjou sarilhos. Os filhos trabalharam, desde pequenos, no dicionário, para receberem a semanada.

Mas o mais impressionante é a quantidade de pessoas, milhares e milhares, que, de várias partes do mundo, enviavam folhinhas com citações de obras célebres ou desconhecidas destinadas a esclarecer os vários sentidos de cada palavra. Entre os contribuidores mais frequentes encontravam-se um médico americano internado num asilo psiquiátrico para criminosos (que, num acesso de loucura, se emasculou) e um ermita que diariamente enviava a Murray (com o qual, como bom ermita, nunca se encontrou) contribuições para o dicionário. Organizar tudo aquilo era um trabalho insano. Para além de haver problemas com figuras literárias eminentes. Murray nunca perdoou ao poeta Robert Browning a utilização de palavras “sem atenção ao seu significado próprio”. A desavença começou quando Murray lhe escreveu a perguntar-lhe qual o sentido de apparitional. (Ainda hei-de ir ver no OED.) A resposta de Browning aparentemente não o satisfez.

De qualquer maneira, depois de tantas décadas, lá apareceram, em 1928, os dez volumes da primeira edição. A última palavra era zyxt, particípio passado, em obsoleto dialecto do Kent, do verbo “ver”. Um fim muito apropriado. Foram enviados exemplares ao rei Jorge V e ao presidente americano Calvin Coolidge. O primeiro-ministro inglês, Stanley Baldwin, teve de comprar.

A história do OED arrisca-se a ser bem mais feliz do que a da UE. Ao seu modo, é a história de uma reunião no interior de uma língua, a partir da diversidade dos seus elementos, as palavras. Uma reunião que demorou um tempo imenso e que, a par do trabalho devotado dos organizadores, contou com o apoio espontâneo de um sem número de pessoas que participavam do amor por essa língua e sentiam satisfação por contribuirem para um gigantesco empreendimento colectivo. As dificuldades que existiam eram enormes, mas – prova-o o resultado – ultrapassáveis.

É assim com a União Europeia? Não parece. Entre várias outras coisas, tratando-se de coisa política, o projecto, tal como representado pela visão de Jacques Delors, que sempre detestou a política (e por isso recusou ser candidato socialista à presidência da França), encontra-se afligido de passionalidades que só por acidente se encontram na fabricação de um dicionário. E daí que não se veja – pelo menos ainda não foi zyxt, por assim dizer – essa espontânea participação vinda dos quatros cantos do mundo que foi indispensável para a criação do OED. Não digo que não possa haver um qualquer presidiário, como o Dr. William Chester Minor, a escrever cartas para Bruxelas com sugestões magníficas para o melhoramento do nosso futuro colectivo. Mas, se o fizer, fá-lo-á sem dúvida com os olhos postos num futuro de funcionário quando a pena terminar. As coisas são diferentes uma da outra. São dois mundos opostos.