O dia 14 de Fevereiro de 2025 passou à história, graças ao extraordinário discurso pronunciado pelo Vice-Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), J. D. Vance, na Munich Security Conference.

Apesar da coincidência com o dia de São Valentim, a intervenção de J. D. Vance parece ter posto termo ao namoro entre a Europa e os EUA. A Europa esperava que os norte-americanos ajudassem a Ucrânia a defender-se da invasão russa, mas a nova administração dos EUA fez saber da sua indisponibilidade para continuar a alimentar este conflito. A questão que agora se coloca é a de saber se a União Europeia está disposta a substituir os EUA no apoio militar e económico à Ucrânia. Os países europeus vão fazê-lo ou, mais uma vez, a Europa vai-se ficar por condenações económicas da potência agressora e declarações, mais ou menos poéticas, de amor eterno pela Ucrânia?

Mais importantes e, decerto, irritantes, foram as afirmações de J. D. Vance em relação à crise da democracia na Europa. No nosso país e, possivelmente, nos demais da União Europeia, o discurso pró-democracia é usado como uma arma da extrema-esquerda para atacar os partidos de direita, insistentemente acusados de populismo e, até, de neofascismo. Mas o Vice-Presidente norte-americano manifestou a sua preocupação pelo modo como a velha Europa está a enveredar por um regime cada vez mais autoritário e, portanto, menos democrático, pondo em causa os valores por que lutaram os aliados, na Segunda Guerra Mundial e durante a Guerra Fria.

A circunstância de, na véspera da intervenção de J. D. Vance, ter ocorrido mais um atentado terrorista islâmico, que causou várias vítimas em Munique, foi providencial, não apenas para o Vice-Presidente dos EUA manifestar a sua solidariedade para com as vítimas e suas famílias, pelas quais disse rezar, mas também para assim se provar que não era exagerada a sua chamada de atenção para os perigos de uma imigração descontrolada. Com a sua emocionada referência às vítimas do atentado de Munique, Vance arrancou um generalizado aplauso da assistência, que o estadista norte-americano agradeceu com humor, acrescentando que, talvez, fossem as únicas palmas que iria receber ao longo da sua intervenção…

Razões tinha J. D. Vance para supor que aquela primeira reacção dos políticos e militares que o ouviam não se iria repetir, porque o Vice-Presidente dos EUA teve a inaudita coragem de chamar a atenção para a profunda crise de valores que se vive na Europa. Para este político norte-americano, as principais ameaças para a segurança europeia não procedem dos agentes externos, como a Rússia ou a China, mas do seu interior, pois devem-se ao “recuo da Europa em relação a alguns dos seus valores mais fundamentais, valores esses que é suposto partilhar com os EUA.”

Vance enumerou alguns casos que mereceram a sua atenção e que atestam a objectividade desse seu diagnóstico. O primeiro facto alarmante que relatou foi o de um ex-comissário europeu ter manifestado, na televisão, o seu agrado pelo facto de o Governo romeno ter anulado o resultado das eleições presidenciais nesse país, invocando uma alegada intromissão russa no processo eleitoral. Pior: o mesmo eurocrata atreveu-se ainda a dizer que o mesmo poderia acontecer também nas próximas eleições alemãs, se o resultado não for o desejado pelas instâncias europeias! Para o Vice-Presidente dos EUA, ou para qualquer democrata, “essas declarações arrogantes são escandalosas para os ouvidos norte-americanos, porque sempre nos disseram que a nossa ajuda era para apoiar os nossos comuns valores democráticos.” Acrescentou ainda que, “quando vemos tribunais europeus cancelarem eleições e altos funcionários ameaçando invalidar actos eleitorais”, há que perguntar se ainda se estão a defender os mesmos ideais democráticos. “Mais do que falar de valores democráticos” – disse – “há que praticá-los”.

A este propósito, fez uma alusão à Guerra Fria que, certamente, gelou os assistentes: “A Guerra Fria posicionou os defensores da democracia contra forças europeias tirânicas”, ou seja, a URSS e o Pacto de Varsóvia. “Consideremos o lado dessa luta que censurou dissidentes, que fechou igrejas, que cancelou eleições. Eram eles os bons? Claro que não e, graças a Deus, perderam a Guerra Fria. Eles perderam porque não valorizaram, nem respeitaram as extraordinárias bênçãos da liberdade. (…) Não se pode impor a inovação ou a criatividade, assim como não se pode obrigar as pessoas a pensar, sentir ou acreditar e nós cremos que essas coisas estão certamente relacionadas. Infelizmente, quando agora olho para a Europa, não vejo claramente quem foram os vencedores da Guerra Fria…”

J. D. Vance comentou mais um caso recente, que põe a nu a falta de democraticidade da União Europeia, agora que, com a desculpa do populismo, enveredou por um discurso autoritário, senão mesmo totalitário. Com efeito, referiu que “comissários da União Europeia querem fechar media sociais”, ou seja, media e redes sociais, “em períodos de especial agitação social, com o pretexto de assim evitarem o que dizem ser discursos de ódio. Na Alemanha, as autoridades chegaram a perseguir pessoas que teriam feito on-line comentários antifeministas, para erradicar a misoginia da internet.” Note-se que também em Portugal, graças ao Partido Socialista, foi aprovada uma lei que limita a liberdade de pensamento e de expressão, com o pretexto de erradicar as mensagens de ódio nos media e nas redes sociais.

Corajosamente, J. D. Vance, que denunciou os eurocratas inimigos da democracia, reconheceu que “também nos EUA a administração Biden incentivou atitudes censórias contra a liberdade de pensamento e de expressão, nomeadamente em relação à origem da pandemia da Covid 19.” Também o anterior presidente da Assembleia da República, que falhou a reeleição como deputado, permitiu-se limitar a liberdade de expressão dos deputados da direita, causando até a indignação do insuspeito Sérgio Sousa Pinto, deputado socialista. Como concluiu Vance, “Trump é o contrário de Biden. Podemos não concordar com as suas opiniões, mas defenderemos sempre o seu direito a ter essas opiniões e a manifestá-las.”

Uma última nota para sublinhar o que foi, sem dúvida, o momento mais alto da sua intervenção: a referência a São João Paulo II, o santo Papa polaco a quem se ficou a dever a libertação da Polónia e a queda dos regimes comunistas na Rússia e nos países do Leste europeu.

Pode-se gostar, ou não, das políticas e atitudes da nova administração norte-americana – nomeadamente no que respeita à Ucrânia e à política anti-imigração – mas não se pode ficar indiferente a este discurso, nas antípodas das intervenções tíbias dos burocratas da política nacional e europeia.

Trump irrita os defensores do pensamento politicamente correcto por ser um empresário de sucesso e, sobretudo, por ter ganho, por duas vezes, a eleição presidencial, tendo contra ele todos os media de referência. Tem o seu quê de paradoxal que um poder sem legitimidade democrática, como é a comunicação social, ataque o Presidente eleito dos EUA e não suporte que o seu Vice-Presidente, também eleito por esmagadora maioria, dê lições de democracia aos líderes da União Europeia, que não foram eleitos, pelos cidadãos europeus, para os cargos que exercem.

J. D. Vance, cujo discurso irrita os politicamente correctos e convence os eleitorados de além e aquém-mar, é um homem com uma lucidez e coragem notáveis. A Europa e Portugal precisam, com urgência, de políticos destemidos, que ousem fazer frente aos tiques autoritários dos inimigos da verdade, da democracia e da liberdade.