No passado dia 7, o autor do livro sobre “Os padres, o sexo e o amor” respondeu à minha homónima crónica, no Observador, não sobre o seu livro, como afirma, mas sobre a entrevista que, a este propósito, o Público editou no passado dia 22 de Maio.

Este sociólogo italiano afirma que “o artigo está cheio de invectivas e insultos”, mas não foi capaz de referir uma só invectiva, ou um único insulto! Porquê?! Pela simples razão de que os não há (ao contrário de quem me atribui afirmações que não fiz, tenho sempre o cuidado de transcrever, literalmente, as afirmações a que respondo). Quer a entrevista, quer esta resposta, falham no alvo, porque a questão central dos abusos de menores não são os pedófilos, sejam ou não padres, mas as vítimas deste terrível crime, que deixa horríveis traumas para toda a vida. Ao optar por uma perspectiva clerical, este sociólogo está a instrumentalizar as vítimas em ordem a um objectivo ideológico, qual é o seu anticlericalismo, em vez de dar absoluta prioridade aos abusados, à sua dor e à imperiosa necessidade de reparar o dano sofrido. Nisto sim, tanto a sua entrevista como a sua posterior resposta são uma invectiva e um insulto às vítimas dos abusos.

O propósito da sua longa entrevista foi, sobretudo, comercial: fazer publicidade do seu referido livro, que me sugeriu ler. Lamento, mas não estou interessado numa obra que, a julgar pela propaganda, carece de valor intelectual, ou científico. Ao invés do que afirma, nunca critiquei o seu livro que, como disse, não faço tenção de ler, nem comprar, pelo que também este seu gratuito comentário – “uma pessoa culta e educada não critica um livro (sobretudo tratando-se de uma investigação de carácter científico) que não leu” – não tem fundamento e, portanto, ofende quem o proferiu. Pelos vistos, o dito sociólogo não sabe que “uma pessoa culta e educada” não se autoelogia, dizendo que um texto da sua autoria é “uma investigação de carácter científico”.

Nesta sua desajeitada resposta, afirma que, “no seu artigo, o Padre Gonçalo cita com uma certa arrogância informações históricas (…) e ignora o aspecto central do meu ensaio, ou seja, a imensa hipocrisia que rodeia a vida sexual e afectiva dos padres católicos”. Ao contrário deste sociólogo, que, nessa sua entrevista e resposta, não refere nenhum estudo, nem dados fiáveis, a minha crónica cita números, relatórios e fontes credíveis. Este publicista italiano, não tendo informações que lhe permitam chegar às teses que defende, como se fossem científicas, recorre, por sistema, ao julgamento colectivo de intenções, como quando afirma a “imensa hipocrisia que rodeia a vida sexual e afectiva dos padres católicos”. É escandaloso que se permita este discurso de ódio, que decerto seria inadmissível se fosse dito de alguma etnia, ou género. Felizmente, ao que parece, os padres não são gente!

Como aqui escrevi (Pedofilia e Igreja: discriminação e hipocrisia, 29-10-22), “o Papa Francisco teve a franqueza e a honradez de não escamotear a responsabilidade da Igreja em relação aos casos de pedofilia, mas também disse que, ‘segundo dados estatísticos idóneos, cerca de 50% dos casos de abusos ocorrem no seio das famílias ou no âmbito das relações de vizinhança. Apenas – e este ‘apenas’ reflecte uma constatação estatística, não permitindo tirar ilações no plano moral – 3 % dos casos ocorrem no seio da Igreja Católica’ (…). A Presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens foi ainda mais longe, ao afirmar que a maioria dos abusos sexuais, em crianças, acontece dentro de casa e o agressor é alguém do seio familiar” (DN/Lusa, 18-11-21). Por sua vez, “numa resposta enviada à agência Lusa, o Ministério da Justiça refere que constam do registo de identificação criminal de condenados por crimes contra a autodeterminação sexual e a liberdade sexual de menores, criado em Março de 2015, 6.421 agressores” (Rádio Renascença, 13-10-22).

Dos 6.421 abusadores de menores, condenados em Portugal nos últimos oito anos, dois eram padres e, portanto, há muita hipocrisia nos sociólogos que afirmam que a pedofilia é um crime praticado, sobretudo, pelo clero católico e relacionado com o celibato. Na realidade, é muito mais recorrente entre pessoas casadas, nomeadamente familiares de menores, professores e treinadores desportivos. No único megaprocesso sobre pedofilia em Portugal, até à data, foram condenados um professor e um responsável por uma instituição educativa, um médico, um locutor da televisão e um diplomata, mas nenhum padre católico. No escândalo recente do Centro de Estudos Sociais, em Coimbra, não esteve envolvido nenhum sacerdote, mas sim vários sociólogos.

É também uma rematada hipocrisia fingir que se está muito preocupado com os menores abusados pelo clero católico, não mais de 3%, mas não pelas restantes vítimas, que são, pelo menos, 97% do total! É óbvio que há uma campanha internacional, que usa as vítimas com fins ideológicos: os que mais se escandalizam com a pedofilia na Igreja são, também, os que menos fazem por evitar os abusos de menores onde estes mais acontecem.

A Igreja católica foi a única instituição que teve a coragem de enfrentar este horrível drama – desculpe-se a insistência, mas nunca será demais dizê-lo – ao permitir a investigação, até dos seus arquivos, por uma comissão independente. A Igreja não só se disponibilizou para apoiar todas as vítimas, como também estabeleceu normas que, praticamente, impedem que crimes desta natureza horrenda voltem a ocorrer no seu seio. Gostaria muito que alguém me indicasse alguma instituição, pública ou privada, religiosa ou laica, que tenha feito, pelo menos, um pouco do que a Igreja católica faz, agora, em Portugal e no mundo inteiro, para erradicar os abusos de menores.

Qual marciano recém-chegado à Terra, este sociólogo entende que é chegado o momento de pessoas, como eu, “levarem a sério a questão dos abusos cometidos pelo clero católico”. Este conselho não só chega tarde como, em relação a mim, não colhe porque, como sabe quem me conhece, bem como os leitores do Observador, há já muitos anos que, de forma insistente, me tenho batido pela verdade em relação a todas as vítimas, também as que foram abusadas por indignos sacerdotes. Mas, ao contrário de outros, defendo todas as vítimas, não apenas 3%. Enquanto o interesse de alguns é, pelos vistos, servirem-se dessas crianças, para efeitos de propaganda ideológica, o meu propósito, pelo qual tenho lutado desde o primeiro momento, é defender todos os menores, sem excepção, mesmo quando tal afecta negativamente a imagem da Igreja católica.

Também em Portugal é verdade que, como se diz na bela Itália, enquanto há vida, há esperança. Por isso, espero que algum dia o autor do livro sobre “os padres, o sexo e o amor” olhe para esta realidade sem preconceitos e saiba reconhecer quem, por amor a Deus e ao próximo, entregou a sua vida ao serviço dos outros. É o exemplo de milhares de sacerdotes católicos que, no mundo inteiro, como Jesus de Nazaré, vivem em celibato e, como São Filipe de Néri, São Marcelino Champagnat e São João Bosco, deram a sua vida pelos menores mais carenciados. E, em resposta à ‘oferta’ onerosa do seu livro, ofereço-lhe, gratuitamente, uma frase de um livro infinitamente melhor: “a verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32).