A violência é constituída por momentos de rompimento, rutura, conflitualidade, competição, domínio, hostilidade. É um acontecimento primitivo, coextensivo a toda a história humana. Todas as sociedades, dos momentos grupais aos momentos das grandes civilizações, transportam consigo elementos de violência.

A nossa não é exceção. Mas há aspetos novos. Tendemos a desprezar o valor racional dos mitos, mas repetimos uma mitologia que nos perpetua na violência.

Em 1956, perguntava Karl Jaspers, filósofo e psiquiatra alemão: «Se a humanidade vier a terminar com um conflito nuclear, poderemos dizer que aquilo que nos permitiu lá chegar foi um progresso?».

O século XX foi dos mais homicidas da história (Hitler, Estaline, Camboja, Ruanda, Balcãs, Timor-Leste…). Mostrou que os homens são capazes do pior, incluindo o suicídio da humanidade. Presentemente, contudo, continua a ser impossível responder ao que virá aí e não lembrar a oportunidade da pergunta feita por Jaspers.

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Vale a pena notar que os mitos traduzem uma memória primitiva. São como que o Big Bang da cultura: à maneira de um fenómeno cósmico, captam e transmitem ao vivo uma radiação de fundo que perdura até à atualidade.

É na Bíblia hebraica que se nos suscita mais originariamente o problema da violência. Adão e Eva, simbolicamente os nossos proto-parentes, vivem em perfeita harmonia no Paraíso das delícias terrestres ou Éden. Desobedecendo a Deus, foram expulsos. A “nova” humanidade principiará então com um fratricídio: Caim, o filho mais velho de Adão e Eva, mata por inveja o seu irmão Abel. Episódio a revelar-se interminável na história da cultura.

A mitologia grega está repleta de situações emblemáticas: a vingança do rei Atreu de Micenas contra o irmão Tiestes (este seduzira a mulher do primeiro que se vingou matando os filhos do irmão e servindo-lhos à mesa num banquete); o fratricídio recíproco perpetrado pelos filhos de Édipo, Etéocles e Polinices (amaldiçoados pelo pai, mataram-se um ao outro na luta pelo poder); a hostilidade entre os irmãos gémeos Acrísio e Preto (disputam o trono, encontrando-se ainda no ventre da mãe).

Refira-se igualmente o mito da fundação de Roma, o fratricídio de Remo e o homicídio de Amúlio (tio-avô), que provavelmente matara igualmente o seu próprio irmão, Numitor.

A lista seria longa, estender-se-ia aos mitos dos mais diversos quadrantes civilizacionais, nórdicos, orientais, africanos, aborígenes, hindus, norte-americanos.

Realce-se o seguinte: a instauração da violência chega-nos através de uma forte tradição textual. É como que um poder absoluto, inominável, que está aí, sempre a exigir vítimas. A expressão global e completa da conflitualidade humana. “Vingança” é a palavra que melhor a descreve.

Revela-se, sem dúvida, plena de atualidade a obra de René Girard, La violence et le sacré (1972). Este historiador-filósofo (crítico literário, antropólogo…) monta a sua investigação em torno da rivalidade inerente à estrutura triangular, típica, do desejo humano (desejo mimético), cujo arquétipo reside precisamente no episódio de Caim e Abel («o primeiro homicídio na história humana») e onde surpreendemos a emergência da cultura.

Foi o mimetismo da violência, isto é, o receio do assassínio de Caim, depois de consumado o assassinato de Abel, que levou à proibição divina de revindicta e ao surgimento precoce da ordem judicial e do direito. E assim nasce também a ideia de que sem instituições, destinadas a conter a violência e a regular a coexistência entre os indivíduos (sacrifício dos interditos e das penas), a sociedade fatalmente se desagrega.

A descoberta essencial repousa na afirmação de que todos os comportamentos humanos se reduzem à imitação. Cultivamo-nos e crescemos na interseção dos desejos por imitação. Mas a rivalidade é ineliminável.

Sendo o desejo humano sempre um desejo de imitação, o mediador, aquele que nos permite o acesso ao objeto de desejo, que o torna desejável, é o rival, um obstáculo. O rival, ao mesmo tempo que nos proporciona o carácter desiderativo de algo, constitui um obstáculo à nossa posse, porque ele também o quer.

Esta rivalidade, a vontade de posse através do desejo do outro, constituinte do desejo mimético, vai a um ponto tal que pode mesmo ser homicida, e tornar-se uma rivalidade assassina.

Isso acontece especificamente quando a imitação deixa de ser reconhecida como tal; quando queremos o que o outro quer, mas não o reconhecemos. A imitação induz então à má-consciência, a qual, por sua vez, provoca o ressentimento («ódio subterrâneo, vingança do impotente»). Emerge em nós uma hostilidade com aquele que é simultaneamente o cobiçado e o rival. Por último, o ressentimento conduz a uma atitude de acusação; a defesa contra o outro consiste simplesmente em acusá-lo.

É da universalização deste mecanismo de acusação, aplicado aos Estados e dentro dos Estados, que surge a «guerra de todos contra todos» – o grande axioma enunciado por Thomas Hobbes, no século XVII.

O segredo da violência está assim nas rivalidades ferozes geradas no seio da imitação desejante.

Chega um momento em que nenhuma reconciliação é possível a não ser entre aqueles que odeiam em conjunto o mesmo adversário, apesar de nunca se entenderem entre si («todos contra um»). O antagonismo de cada qual contra cada qual é substituído pela união de todos contra um (acusação unânime de um bode expiatório, mecanismo da vítima única).

Cria-se um inimigo comum. E repete-se, indefinidamente, o ritual da resposta vitimária. Se já resultou, então aplique-se. Mimetiza-se. Eis como funciona o tratamento político da violência na cultura ocidental.

É a lógica do amigo-inimigo e talvez a harmonia mais ‘pré-estabelecida’ do que hoje configura a política.

É assim desde o episódio genesíaco de Caim e Abel. Desde então todos os povos tendem a divinizar as suas vítimas e a ver nos mecanismos sacrificais a resposta à violência.

Mas há uma diferença essencial entre esse episódio fundador e os restantes mitos, apesar de todas as semelhanças entre eles. A vítima salvadora está inocente (Deus). O triunfo do mimetismo mitológico deriva da ilusão da culpabilidade das vítimas. Urge denunciar assim a falsidade da solução vitimária, a mentira de que as vítimas são culpáveis.

Todas as épocas geram as suas vítimas, que, por definição, são minorias dentro de um determinado grupo. Na situação atual assistimos, contudo, ao paroxismo de serem os próprios grupos identificados como vítimas a tornarem-se eles próprios agressores, autores de novas violências.

É como se a vingança continuasse, sempre de represália em represália, em nome de um crime anterior, mais antigo, acusando-se reciprocamente, atribuindo culpas sem termo. Desenterrando “cadáveres”. Claro que os motivos de esperança vão diminuindo. De forma tal que estamos de novo confrontados com uma alternativa mortal. Pode acontecer o pior. Temos os meios técnicos e a atitude interior que também a isso pode levar.

A política não funciona contra a vingança. Não podemos continuar a repetir mecanismos comprovadamente geradores de respostas violentas e de vinganças em escalada até aos extremos. Estamos condenados a inventar outra coisa.

Girard aponta um caminho, seguindo três andamentos: o direito, a ética e a religião (entendendo esta num sentido vivencial). O direito é o garante de um relacionamento simétrico entre todos os seres humanos, de uma reciprocidade não violenta («última linha de defesa da humanidade contra a violência»). A ética significa levar a sério o princípio da não-acusação, recusar acusar (desde o vizinho mais próximo ao mais distante), não assumir a atitude de vingança e jamais ceder à inveja. Por último, importa dessacralizar e naturalizar a violência, dado que ela é algo estritamente humano (Deus nada tem a ver com a violência, está silencioso, como sempre esteve…).

Temos de virar do avesso aquilo que tem justificado o concreto das relações humanas, a todos os níveis, dos indivíduos às nações e superar a mitologia geradora de violências.

Ou seremos capazes de levar a cabo uma tal “revolução” ou será impossível superar os momentos de violência que ciclicamente se abatem sobre nós, entre vitórias e derrotas. Não se espera que seja até à derrota final.