Já tinha estado no edifício do palácio de São Bento, em ações pontuais e quando era pequeno visitava-o com o meu pai, trabalhador da CML.

Mas queria ver por mim próprio, e pela primeira vez uma sessão plenária.

Uma sexta-feira de 2024, dia de plenário na Assembleia da República, estava em Palmela, e decidi visitar a casa da democracia.

Peguei no carro e rumei ao terminal fluvial do Montijo, no cais do Seixalinho.

Apanhei o navio num cais em condições miseráveis.

A chegada ao Cais do Sodré e o caminho pela 24 de julho foi surreal, uma imensidão de gente: janados, turistas, locais, imigrantes, bicicletas, trotinetas, sujidade, poluição, carros, obras por todo o lado, parecia um manicómio.

Os urbanitas que por ali andam são felizes como um ratinho na sua gaiola, sempre longe do presente, da realidade e da natureza.

Cheguei ao Parlamento, e na passagem pela segurança tudo deixei dentro de um saco de plástico. Restou-me a roupa do corpo e um documento de identificação com foto. Mas até esse tive que trocar por um identificador amarelo com um V gigante.

Com um dos elevadores avariado, a subida à sala da democracia fez-se por umas escadas de madeira sem fim, que desembocam num corredor magnífico.

Fiquei maravilhado com o hemiciclo, realmente a sala é magistral.

Só esta visão já valeu a viagem.

  • O Chega era o único dos grandes que tinha a bancada composta, faltariam 2 ou 3 deputados. Todos muito direitinhos e todos de fato, que nem sempre assentavam bem!
  • Os pequenos partidos também tinham uma bancada razoável, mas o PS e o PSD, estavam bastante desfalcados; sejam quais forem as razões, acho lamentável.
  • O ambiente no começo dos trabalhos é de algazarra, que só melhora com o cansaço.

Os oradores da primeira hora e meia, falarem ou não, é a mesma coisa. Ninguém presta a mínima atenção, o que para além de ser uma falta de educação é um péssimo exemplo para quem assiste.

Os discursos dos deputados de todos os partidos, são geralmente pobres, repetitivos, sem grande conteúdo ou soluções, e quase só  focados nos ataques aos adversários. Existem algumas exceções, mas poucas.

A ministra da administração interna (Margarida Blasco) teve uma intervenção muito sofrível, no ponto “Relatório anual de segurança interna”. Os deputados comportaram-se educadamente não troçando ou fazendo comentários menos dignos. Perceberam que a Senhora tem algumas dificuldades e não se goza com isso.

O secretário de Estado das Finanças (José Maria Brandão de Brito) também não esteve muito melhor, mas foi tudo pacífico, talvez porque quando discursou ninguém o ouviu.

A certa altura o ambiente anima por causa da imigração, e a troca de galhardetes entre o Chega e as bancadas da esquerda, PS, mas sobretudo Livre e BE, torna-se interessante. Começaram os apartes estilo estádio de futebol, o que não me chocou sobremaneira. Não sendo excessivos, mostram entusiasmo com a discussão e não inviabilizam o debate.

Na altura existia um deputado bastante excitado, talvez num mau dia, ao fundo do hemiciclo que fazia uma algazarra incrível, num tom de voz e com um linguarejar felizmente imperceptível para todos.

Em praticamente todas as bancadas a grande maioria dos deputados, o que para mim foi uma surpresa, estão na sala fisicamente, mas era mais útil que não estivessem, incomodavam menos.

E faço nova visita. Desta vez em fevereiro de 2025, dia da moção de censura ao governo por parte do Chega.

As Galerias estavam cheias. Muitos militantes do Chega entraram como convidados. Eu, alguns cidadãos e alunos de escolas em visita de estudo, entrámos pelo lado da população em geral.

Durante todo o tempo, as galerias sempre mantiveram um comportamento exemplar.

Entre Setembro de 2024 e Fevereiro de 2025, muita coisa aparentemente mudou. Não sei se pelo tema que iria a debate, com uma enorme visibilidade, se pelas acusações das semanas anteriores acerca do comportamento dos deputados na Assembleia.

Na minha experiência pessoal, todas as bancadas têm profissionais do insulto mais ou menos vocais, e nem me parece assunto assim tão grave. Resultado, esta sessão foi completamente diferente no nível ou falta dele dos insultos e berraria, e existiram mesmo algumas queixinhas de deputados ao Presidente, que me pareceram um pouco infantis. O ambiente ficou mais delicado, apesar do conteúdo continuar inútil.

As intervenções dos deputados têm como objetivo terem o máximo protagonismo possível e divertirem-se. Será que estão convencidos que somos todos uns idiotas?

Conclusões

Nas discussões, todos querem aparecer como os que mais fazem para resolver os grandes problemas, que nunca se resolvem, porque a culpa é sempre dos outros. Nunca chegam a acordos, nem discutem temas importantes de forma racional e séria. Afinal o que é que estão lá a fazer?

Tenho um amigo que diz, que os deputados e responsáveis políticos não conseguem fazer o seu trabalho porque se deixam dominar pela soberba e pela sua agenda pessoal e partidária, coisas do espírito humano!

Temos na política Portuguesa demasiada ideologia, grande falta de racionalidade e de qualidades humanas. Mas, será que o povo Português quer resolver alguma coisa, ou também tem medo da mudança?

Estamos a ficar velhos, queremos é estar no nosso cantinho e os políticos apenas são o nosso reflexo, levado ao limite do ridículo.

No último verão, passeava pela baixa de Setúbal com a minha mulher, e como conheço praticamente toda a Europa, Brasil, Norte de África, etc… disse-lhe: Como é possível que um país que tem as condições naturais que nós temos, não ser o mais rico da Europa? E, ela sabiamente, respondeu: Mas será que as pessoas querem?