Democracia

Votos para 2019: Conversação civilizada /premium

Autor

Os meus votos para 2019 são de re-descoberta das boas tradições demo-liberais fundadas na perpétua conversação civilizada entre perspectivas rivais, a “corrente de ouro” de que falava Churchill.

Na véspera de um novo ano, é costume em algumas culturas políticas celebrar a mudança e a inovação, contra o passado e a tradição. Essa oposição entre passado e futuro, tradição e inovação é um traço definidor de culturas políticas arcaicas e revolucionárias, em regra autoritárias e centralistas.

Infelizmente, esse mau hábito — a que Burke chamou “despotismo inovador” — está a chegar (ou a regressar) às democracias ocidentais. Há hoje demasiadas inovações desnecessárias entre nós.

Não me parece nada necessário, para dizer o mínimo, o inovador movimento dos “coletes amarelos” em França (felizmente fracassado entre nós). Mas também não me pareceu desde o início necessária a ideia inovadora do Presidente Macron de acelerar a integração supranacional da União Europeia. Talvez os “coletes amarelos” e a “integração supranacional” sejam duas faces de uma mesma moeda — mal acostumada às tradições de soberania pacífica de Parlamentos nacionais.

Também não me parece nada necessário o inovador estilo (ou ausência dele) do Presidente Trump —  que não sei, francamente, como definir em termos políticos. Conservador não é certamente e progressista também não parece ser. Basicamente, parece tratar-se de um estilo televisivo inovador. Mas parece-me muito reconfortante que, ao contrário da inovadora violência de rua dos “coletes amarelos” em França, os ancestrais e não inovadores “Checks and Balances” da Constituição americana estejam a funcionar em pleno e aos olhos de todos.

Talvez o Presidente dos EUA seja “o homem mais poderoso do mundo” (uma expressão equívoca e desagradável) — mas certamente o seu poder é severamente limitado na América pelas sábias tradições constitucionais herdadas da Magna Carta de 1215. Entre elas tem estado particularmente evidente a robusta independência do poder judicial. Há também sinais de que o Partido Republicano (curiosamente designado por “Grand Old Party”) começa a ficar farto de tanta inovação televisiva. Não é de excluir que o GOP venha a dar razão a Churchill — que costumava dizer que “os americanos acabam sempre por tomar a decisão certa, depois de terem tentado todas as outras”.

Também se tornou inovadora a moda actual de ridicularizar a (inegável) confusão da política britânica sobre o “Brexit”. Mas a verdade é que essa inegável confusão está a ocorrer num pacífico processo parlamentar — sem “coletes amarelos”, sem partidos populistas e sem “tweets” agressivos. Reforçando esta tradicional tranquilidade britânica, a Rainha proferiu uma mensagem de Natal totalmente clássica e explicitamente Cristã.

No plano político, condenou o tribalismo e apelou ao diálogo entre posições rivais, sem nunca emitir o mais leve sinal de preferência por “Brexiteers” ou por “Remainers”. E acentuou que, “mesmo com as mais profundas diferenças, tratar a outra pessoa com respeito e como um ser humano nosso semelhante é sempre um bom primeiro passo para uma melhor compreensão mútua”.

Num artigo sábio e divertido no Telegraph de sábado, Charles Moore (biógrafo de Thatcher e famoso “Brexiteer”) tentou corresponder à exortação da Rainha e estendeu a mão aos seus rivais “Remainers”. Este exercício de “fair-play” faz lembrar aquilo que Churchill definia como a “ideologia própria”, ou o traço distintivo, da democracia inglesa, a propósito da filosofia política de seu pai:

“[Lord Randolph Churchill] não via razão para que as velhas glórias da Igreja e do Estado, do Rei e do país, não pudessem ser reconciliadas com a democracia moderna; ou por que razão as massas do povo trabalhador não pudessem tornar-se os maiores defensores destas antigas instituições através das quais tinham adquirido as suas liberdades e o seu progresso. É esta união do passado e do presente, da tradição e do progresso, esta corrente de ouro [golden chain], nunca até agora quebrada, porque nenhuma pressão indevida foi exercida sobre ela, que tem constituído o mérito peculiar e a qualidade soberana da vida nacional inglesa.”

Os meus votos para o novo ano de 2019 são sobretudo de re-descoberta das boas tradições demo-liberais fundadas na perpétua conversação civilizada entre perspectivas rivais — a “corrente de ouro” de que falava Churchill.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
União Europeia

Sobre o euro e o futuro da UE /premium

João Carlos Espada

Como alertaram insistentemente Edmund Burke e Alexis de Tocqueville, as culturas políticas inflexíveis geram recorrentemente a escolha enganadora entre Antigo Regime e Revolução.

Livros

Livros para o Natal (II) /premium

João Carlos Espada

Cinco sugestões de livros de autores nacionais para o Natal — mas não para a ‘época festiva’ ou para as ‘férias da estação’, como mandam as actuais directivas politicamente correctas.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)