A rivalidade entre os EUA e a China é, há mais de uma década, o eixo central da economia global e da geopolítica mundial. De um lado a atual potência hegemónica que procura preservar o seu estatuto e o controlo dos fluxos tecnológicos e financeiros, e do outro uma potência em ascensão com uma base populacional e educativa que a impulsiona para a liderança global. A história mostra que, quando uma potência emergente cresce mais depressa do que a dominante, o conflito é quase inevitável. É uma guerra comercial e tecnológica centrada na disputa pelo controlo das cadeias estratégicas da economia digital. De um lado estão os chips, o cérebro da era tecnológica e o ‘novo petróleo’ da economia digital, sob domínio americano, e do outro as terras raras, o sangue que alimenta todo esse setor tecnológico, o ‘novo ouro’, e que está concentrado na China. Quem domina os primeiros controla o processamento e a inovação, mas quem controla as segundas detém o acesso à matéria que permite que tudo funcione.

Nos semicondutores, os EUA e os seus aliados mantêm uma vantagem estrutural. As empresas americanas dominam mais de 85% do design global de chips e praticamente todo o software de conceção. A produção mais avançada — abaixo dos cinco nanómetros — está concentrada em Taiwan e na Coreia do Sul, nas mãos da TSMC e da Samsung. Ambas dependem da ASML, a empresa holandesa que produz as únicas máquinas de litografia ultravioleta extrema (EUV) capazes de desenhar circuitos a uma escala de poucos átomos. Sem estas máquinas, é impossível fabricar de forma eficiente chips de três nanómetros ou menos. A China, por decisão política de Washington e Haia, está impedida de aceder a essa tecnologia.

Esta escala quase atómica — três nanómetros equivalem a cerca de quinze átomos de silício, o material base dos semicondutores — marca o limite físico da engenharia atual. Cada novo salto tecnológico reduz o consumo energético e aumenta exponencialmente a capacidade de computação, alimentando a inteligência artificial, a defesa e a computação de alto desempenho. O controlo dessa fronteira é, em última análise, o controlo do futuro digital.

A China, em contrapartida, domina o outro extremo da cadeia: a base material. Detém cerca de 60% da produção mundial de terras raras e quase 90% da capacidade global de refinação e processamento. No caso das terras raras pesadas — cruciais para ímanes de alto desempenho, lasers e sensores militares — o domínio chinês ultrapassa os 90%. Pequim é também o principal produtor mundial de ímanes permanentes usados em motores elétricos e turbinas eólicas. Esta integração, do minério ao produto final, é uma forma de poder tão eficaz quanto discreta.

Pequim já mostrou que pode transformar essa posição numa arma geoeconómica. As restrições à exportação de gálio e germânio em 2023 e 2024, elementos essenciais para semicondutores e painéis solares, foram um sinal claro de que a China detém igualmente um trunfo estrutural.

A reunião entre Xi Jinping e Donald Trump, realizada a 30 de outubro em Busan, confirmou essa interdependência inevitável. Ambos os líderes compreenderam que, apesar da rivalidade estrutural, estão condenados a entender-se. Da cimeira resultou uma trégua comercial de um ano, que suspende novas tarifas e medidas de retaliação, bem como um compromisso mútuo: Pequim manterá o fluxo de exportações de terras raras e retomará as compras de soja norte-americana, enquanto Washington reduzirá tarifas sobre produtos chineses e adiará novas restrições a empresas tecnológicas do país asiático. Também foi acordada a suspensão temporária de taxas recíprocas sobre logística portuária e transporte marítimo, aliviando a pressão sobre as cadeias globais. Ainda que os detalhes sejam limitados e a desconfiança permaneça, a cimeira em Busan traduziu-se num ‘cessar-fogo tático’, um reconhecimento de que a estabilidade económica mundial depende da coexistência — e não da rutura — entre as duas maiores potências.

Entretanto, o uso excessivo desta vantagem por parte da China pode ser contraproducente. Quanto mais previsível a restrição, mais depressa os EUA, a Europa e o Japão procurarão fontes alternativas na Austrália, África ou América Latina. Ainda assim, a diversificação é lenta e cara. Abrir uma mina leva anos e uma refinaria pode demorar quase uma década a ser rentável, enquanto uma decisão política em Pequim pode mudar preços e fluxos em poucas semanas.

Do lado americano, a resposta, sobretudo acelerada no início deste ano por Trump, combina contenção e reindustrialização. Washington reforçou os controlos de exportação de chips e pressionou aliados a alinhar nas restrições. Paralelamente, tenta reconstruir capacidade interna através do CHIPS Act e atrair a TSMC e outras foundries para solo americano. É uma estratégia cara e dependente de engenheiros que escasseiam, precisamente onde a China evidencia cada vez mais a sua força demográfica e educacional. A reunião de Busan reforçou esta aposta: Trump prometeu acelerar os incentivos à produção doméstica de semicondutores e ampliar o financiamento público à formação técnica, numa tentativa de reduzir a dependência estrutural da Ásia.

A China forma todos os anos cerca de cinco milhões de licenciados em ciências, tecnologia, engenharia e matemática, dez vezes mais do que os EUA. Esse capital humano poderá ser o verdadeiro multiplicador da sua ambição tecnológica. O país distingue-se aqui da antiga União Soviética: apostou na educação e na inovação, mas sem sufocar completamente o incentivo económico. Permite que os cidadãos enriqueçam — desde que não desafiem a autoridade política — e reconhece que a criação de riqueza nasce da liberdade de empreender e do mérito recompensado. A desigualdade é vista como motor económico e é tolerada enquanto existir mobilidade e expectativa de progresso. O Estado chinês promove ainda uma forma de competição vertical, controlada, mas real, entre cidades, províncias e até burocratas. Cada região é incentivada a superar as restantes em crescimento, exportações e inovação. Essa rivalidade interna, supervisionada pelo poder central, mantém o sistema dinâmico e produtivo. O controlo é político, mas o estímulo é económico — uma combinação que, até agora, tem funcionado.

Em suma, os EUA controlam a cadeia tecnológica, enquanto a China domina a base material que a sustenta. O primeiro procura preservar a hegemonia, o segundo quer alcançá-la. A disputa entre chips e terras raras é apenas a ponta do icebergue dessa transição de poder. E, olhando para o ritmo da formação, da inovação e da coesão social chinesa, a questão já não é “se” haverá mudança, mas sim quando.