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Sporting. Jesus, a escola de Cruyff que está imortalizada no Ajax e um esquema para o FM

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Sporting mostrou-se pela primeira vez aos adeptos, empatando com o Belenenses (1-1). Dala jogou, Leonardo Ruíz marcou e os últimos 20 minutos tiveram um sistema a pensar em Fábio (Coentrão) e Mathieu.

Jorge Jesus deu minutos a todos os jogadores, não contando ainda com Fábio Coentrão, Mathieu e Doumbia

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Jorge Jesus estreou-se na Primeira Liga no comando do Felgueiras, já lá vão mais de 20 anos (1995). Na altura, teve essa curiosidade de orientar Sérgio Conceição, que será este ano adversário no banco do FC Porto, mas agora o que nos leva a esta viagem ao baú das memórias do futebol é mesmo a forma como o agora técnico do Sporting orientava a equipa: queria que fossem como o Barcelona de Johan Cruyff, a maior inspiração que teve em termos internacionais. O esquema tático, hoje, é diferente. Mas nesse tempo, por exemplo, Costa não era um trinco, um médio defensivo ou um falso defesa, era o ‘4’. Aquele lugar que, nos catalães, era ocupado por um tal de… Pep Guardiola.

Quando uma pessoa visita a Academia de formação do Ajax, inspirada da cabeça aos pés no génio holandês que era tão ou mais mágico a pensar do que a interpretar o jogo, há um pormenor (entre muitos, que prometemos um dia contar de forma detalhada porque vale mesmo a pena) que salta logo à vista: a forma como os miúdos, mesmo os mais pequeninos, aprendem os princípios de cada posição. Acabam por ser quase miúdos de um colégio privado, que dentro de campo deixam de ser o Joaquim, o Manuel e o Francisco e passam a ser o ‘2’, o ‘7’ ou o ‘9’. Por alguma razão lhe chamam De Toekomst, ou O Futuro em português. E por alguma razão tantos seguem essa linha de sucesso no futebol europeu.

Olhando para o Sporting versão Jorge Jesus, que prepara agora o terceiro capítulo após uma primeira experiência muito boa e uma segunda época muito má, o modelo, sistema e ideia de jogo permitem-nos falar por este Código Morse do futebol: os números. Começamos no ‘1’, o guarda-redes, e saltamos para a defesa, onde o ‘2’ está à direita, o ‘3’ fica na esquerda e o ‘4’ e o ‘5’ são os centrais. Mais à frente, há o ‘6’, que tão depressa encosta na defesa como é o intérprete da primeira fase de construção de jogo, e o ‘8’, um ‘box to box’ que tão depressa vai à área causar desequilíbrios como recua para a recuperação de bola. Nas alas, o ‘7’ fica na direita e o ’11’ na esquerda, não como extremos puros à antiga mas como unidades de corredor com capacidade de jogarem, e muito, por dentro. Depois há o ’10’, que é mais um 9,5, o segundo avançado capaz de marcar 15/20 golos por ano, e o ‘9’, o avançado goleador.

No primeiro encontro de pré-temporada à porta aberta, depois dos triunfos frente a Sporting B (3-0) e Cova da Piedade (2-0), a coisa manteve-se igualzinha tendo o Belenenses como adversário, terminando, no Estádio do Algarve, com uma igualdade a uma bola. O que dá imenso jeito para falar das caras novas, que nesta altura é o que mais interessa (e das poucas coisas que se podem ir abordando).

Ficha de jogo

Sporting-Belenenses, 1-1

Jogo particular

Estádio do Algarve, em Faro/Loulé

Árbitro: João Capela (AF Lisboa)

Sporting: Azbe Jug (Pedro Silva, 72′); Piccini (Mama Baldé, 58′), Paulo Oliveira, Tobias Figueiredo, André Geraldes (Domingos Duarte, 72′); Petrovic (João Palhinha, 63′), Battaglia (Ryan Gauld, 63′); Iuri Medeiros (Francisco Geraldes, 58′), Mattheus Oliveira (Jovane Cabral, 46′), Gelson Dala (Bruno Fernandes, 46′) e Bas Dost (Leonardo Ruíz, 58′)

Treinador: Jorge Jesus

Belenenses: Muriel (Ricardo, 72′); Tandjigora (Benny, 46′), Sasso (Nuno Tomás, 77′), Gonçalo Silva, Florent (Gonçalo Agrelos, 77′); Yebda, Persson, André Sousa (Gonçalo Tavares, 64′); Diogo Viana (Femi Balogun, 64′), Miguel Rosa (Chaby, 46′) e Maurides (Tiago Caeiro, 64′)

Treinador: Domingos Paciência

Golos: André Sousa (29′) e Leonardo Ruíz (62′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Tandjigora (7′)

Piccini, lateral direito contratado ao Betis, foi o ‘2’. Tem como missão ocupar a vaga de Schelotto e, em alguns aspetos, até tem parecenças, mas revelou sobretudo aquele que era o maior predicado para os adeptos sevilhanos: é um poço de força, que anda ali a fazer piscinas para cima e para baixo sem causar desequilíbrios à própria equipa e causando alguns problemas ao conjunto adversário. Ao meio estiveram Paulo Oliveira e Tobias Figueiredo, que rodou um ano no Nacional, e a ‘3’ André Geraldes, lateral que esteve cedido meio ano ao V. Setúbal e que, pela sua polivalência de flancos, ainda pode ficar no plantel.

Mais à frente, duas caras novas. Petrovic, que rodou meio ano no Rio Ave, foi ‘6’, Iuri Medeiros, que esteve cedido ao Boavista, colocou-se a ‘7’, e depois houve Battaglia e Mattheus Oliveira. Para estes, a coisa não correu tão bem. O argentino contratado ao Sp. Braga experimentou pela primeira vez a posição de ‘8’ com apenas duas unidades ao meio, andando muitas vezes perdido naquele trilho entre o apoio aos avançados e a recuperação para terrenos mais defensivos; já o brasileiro, filho do mítico Bebeto, não teve um 23.º aniversário de sonho, com pouca bola e escassas intervenções. A dupla sabe o que Adrien e Bryan Ruíz (aquele dos bons tempos, de 2015/16) faziam e bem, mas entre a teoria e a prática vai uma distância de pelo menos uma pré-temporada inteira de aprendizagem.

No ataque estiveram Bas Dost, ainda um pouco fora dela, e Gelson Dala, um dos elementos em maior evidência neste particular. O jovem angolano, melhor marcador do Campeonato de Angola em 2016, teve meio ano de grande produtividade na equipa B dos leões, quase com a média de um golo por jogo, merecendo a chamada à pré-temporada da formação principal. Mostrou jogo, capacidade de aparecer entre linhas. Perdeu algumas bolas evitáveis, é certo, mas deixou apontamentos interessantes para quem tem apenas 20 aninhos.

Na segunda parte, Bruno Fernandes, médio contratado à Udinese por 8,5 milhões de euros, entrou para a posição de Dala, tal como o júnior Jovane Cabral, no lugar de Mattheus Oliveira. Mas o destaque foi mesmo para Ruíz. Não Bryan Ruíz, o costa-riquenho; não Alan Ruíz, o argentino; mas Leonardo Ruíz, o miúdo colombiano que brilhou nos juniores do FC Porto em 2014/15, fez dupla com Dala em 2015/16 e está agora a fazer a pré-temporada com a equipa A, marcando o golo do empate (André Sousa tinha feito o golo dos azuis do Restelo na primeira parte) na primeira vez que tocou na bola a sério, depois de substituir Bas Dost.

A 20 minutos do final, Jorge Jesus quis começar a testar um esquema alternativo. Um esquema que, em campo, era assim: Pedro Silva na baliza (substituiu Jug); Domingos Duarte, Paulo Oliveira e Tobias Figueiredo como centrais; Mama Baldé e Ryan Gauld a fazerem os corredores; João Palhinha e Bruno Fernandes no meio-campo; Francisco Geraldes sem uma posição estanque, a cair nas alas ou a jogar por dentro; Jovane Cabral e Leonardo Ruíz na frente.

Entretanto começámos a rabiscar no papel o mesmo modelo mas com outros nomes: Rui Patrício; André Pinto, Coates, Mathieu; Piccini, William, Adrien (ou Bruno Fernandes), Fábio Coentrão; Gelson Martins (ou Bruno Fernandes), Doumbia e Bas Dost. E percebe-se: a versão alternativa está feita à medida dos últimos dois reforços, Fábio (que, estando bem fisicamente, faz todo o corredor) e Mathieu (que tão depressa pode ser terceiro central a descair sobre a esquerda como defesa esquerdo, quando a equipa está na frente com bola). É a chamada fórmula FM. Mas onde qualquer semelhança ao Football Manager, esse jogo com milhões de apaixonados por todo o Mundo, é uma pura coincidência.

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