Enfermeiros

Com este governo, o que importa é a “luta”

Autor
619

Segundo o actual governo, a via certa para aproveitar a boa conjuntura económica é ligar-se ao Estado, e tentar, através da greve e do protesto, arrancar rendas e regalias ao poder político.

Depois da greve dos enfermeiros, a greve dos juízes. Tudo isto é de algum modo edificante. Os enfermeiros mostram-nos que o SNS, com que tanto enchem a boca, afinal não lhes interessa, a não ser como fonte de empregos e regalias. Os juízes deixam-nos perceber que, no fundo, se sentem como quaisquer outros empregados por conta de outrem, o que nos sugere esta dúvida: por que razão têm então o estatuto e as garantias de um órgão de soberania?

O líder da oposição procedeu entretanto ao seu diagnóstico: o governo, com o espalhafato das “boas notícias”, teria feito mais uma vez as expectativas subir acima das possibilidades. É isso? Talvez também seja isso. Mas o problema principal parece-me ser outro. O actual governo e a sua maioria não insuflaram apenas as expectativas. Fizeram outra coisa: com a sua “narrativa” do fim da austeridade e da devolução de rendimentos, convenceram muitas classes profissionais de que as remunerações não dependem da produtividade, mas da luta política.

Lembremos qual foi a tese que os actuais ministros e os seus aliados parlamentares trouxeram para o governo. Em 2011, num país próspero e de contas equilibradas, um bando de malfeitores neo-liberais apossou-se do poder, e começou a cortar rendimentos aos portugueses. Como recuperaram os portugueses esses rendimentos? Trabalhando, reorganizando-se, reequilibrando as contas, tornando-se mais competitivos? De modo nenhum. “Resistindo” e “lutando”, até o governo maldoso ser substituído por um governo bondoso.

Reparem: para a diminuição de rendimentos, segundo o presente governo, não houve nenhuma razão, a não ser a ideologia do governo anterior; e para a sua reposição, nenhuma outra razão, a não ser a derrota desse governo. A “luta”, e não o trabalho, é portanto o modo de adquirir proventos. É esta a cultura económica de António Costa e da sua maioria: o Estado é o grande distribuidor de rendas, e a situação de cada um depende, por isso, da sua relação com o Estado.

Toda a sociedade é explicada desta maneira. Se há ricos, é só porque o Estado não lhes cobra impostos. Se há pobres, é só porque o Estado não lhes dá subsídios. Tudo passa pelo poder político. A ideia de um esforço colectivo para aumentar a riqueza e melhorar a condição de todos é estranha a esta filosofia. A riqueza é uma quantidade constante disputada pelos vários grupos, e repartida pelo Estado de modo arbitrário, conforme a relação de forças.

Neste momento, a conjuntura é a mais propícia dos últimos dez anos: o dinheiro continua barato, o petróleo também, todas as economias europeias crescem, e os voos baratos e o medo do terrorismo islâmico no Mediterrâneo inundaram Portugal com a maior vaga de turismo desde os anos 60. Mas como é que o governo e a sua maioria convidam os portugueses a aproveitar esta situação? Tendo ideias, esforçando-se, investindo, trabalhando? Pelo contrário, a prioridade governamental é até dificultar e carregar de impostos todas as actividades e iniciativas, como o arrendamento local. A via certa para aproveitar a conjuntura é ligar-se ao Estado, e tentar, através da greve, do protesto e do lóbi, arrancar rendas e regalias ao poder político, que por sua vez “luta” em Bruxelas para extrair mais dinheiro à UE.

No segundo trimestre deste ano, Portugal já foi o país europeu cuja economia menos cresceu (0,3% contra, por exemplo, 2,5% da República Checa ou 1,5% da Holanda). Fora do turismo, não somos competitivos. Mas que interessa isso? O que importa é a “luta”.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
António Costa

Chapa dada, chapa tirada

Rui Ramos
934

António Costa definiu esta semana a sua política como sendo de “chapa ganha, chapa distribuída”. O que não disse foi que muitas chapas distribuídas não são de facto chapas ganhas, mas chapas falsas. 

Governo

Um governo de mortos-vivos políticos

Rui Ramos
2.619

Ninguém perceberá o actual governo se não perceber o enorme conjunto de fracassos que está por detrás dele. Este é mesmo um caso de “mortos agarrados aos vivos", para usar a expressão de Marx.

Web Summit

Os novos beatos do Web Summit

Rui Ramos
1.178

Duas coisas detestáveis do Web Summit: a importância que a si próprios se dão estes profetas do écran, e o delírio governamental com a ideia de replicar Silicon Valley numa Albânia.

Saúde Pública

Votar o futuro da Saúde da nação

Francisco Goiana da Silva
154

Resta-nos a nós, cidadãos, esperar que quando esta medida de Saúde Pública [taxa do sal] for votada, os deputados não se esqueçam de acautelar a vontade da sociedade. 

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site