Sábado, 23h42. Rui Relvas, 17 anos, faz deslizar o dedo pelo ecrã do telemóvel, na esperança de que o e-mail que aguarda já tenha chegado. Ao final da tarde consultou a área pessoal do site da Direção-Geral de Educação (DGES) e sabe que ficou colocado em Ciências Farmacêuticas na Universidade da Beira Interior (UBI). Mas Rui quer receber o e-mail oficial para acreditar que o sonho dos últimos três anos se vai concretizar. “Ele nunca se calou. Quis sempre ir para a Faculdade”, diz Daniela Pinheiro, amiga de Rui, que já tem a certeza de que vai estudar Psicologia na mesma Universidade.

Poucos minutos depois da meia-noite, Rui introduz o número do BI no site da DGES e vê uma figura azul, sorridente e saltitante. Colocado. Agora é oficial. No rosto de Rui surge uma expressão de alívio e convicção. Se Ciências Farmacêuticas na UBI foi a primeira opção oficial, as verdadeiras preferências do estudante eram Medicina Veterinária ou Engenharia Biomédica, em Lisboa. Terminou o ensino secundário na Escola Secundária Nuno Álvares em Castelo Branco com uma média de 18,2 valores e apesar de as notas dos exames terem sido mais baixas do que esperava, conseguiria entrar em Veterinária. Mas os pais disseram-lhe que se queria continuar a estudar tinha de escolher um curso em Castelo Branco ou na Covilhã porque não eram capazes de financiar a vida em Lisboa.

Em Castelo Branco, os cursos ligados à área de saúde não lhe despertavam interesse. Preferia as cadeiras ligadas à química e ao trabalho em laboratório que compõem a licenciatura em Ciências Farmacêuticas. Mas na verdade, o que Rui queria mesmo era frequentar o ensino superior. “Sempre quis estudar o mais possível para um dia poder ter uma vida mais à vontade”. Depois da irmã, – Cláudia, licenciada em Gestão – Rui é o segundo elemento da família a entrar na Faculdade.

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Rui Relvas, em casa dos pais, em Castelo Branco

A família de Rui vive com dificuldades. O pai, Francisco Relvas, ficou desempregado há seis anos, voltou a trabalhar e está novamente à procura de emprego. Atualmente, recebe o ordenado mínimo nacional através de um subsídio correspondente à primeira situação de desemprego. Mas esse subsídio está a terminar e o valor do novo apoio será mais reduzido. A mãe, Maria do Céu Relvas, tem uma loja de artesanato no Mercado Municipal de Castelo Branco, mas o negócio não corre bem. “Passam-se dias sem que alguém lá vá”, diz Rui, que devido às capacidades para a Matemática e a alguns ensinamentos da irmã passou a tratar da contabilidade da mãe. “Num mês bom, a loja faz 300 euros”, diz. Para complicar as contas, o casal tem ainda de pagar as prestações da casa ao banco.

A irmã de Rui está empregada e já disse ao irmão que o ajudaria naquilo que fosse preciso. O avô materno disponibilizou-se para pagar o curso ao neto. Mas Rui prefere não contar com esse dinheiro. Pelo menos para já. Não gosta da ideia de ser um peso. “Não foi ele que me criou”, diz.

Os últimos três anos da vida de Rui foram passados a pensar na Universidade. E a delinear vários planos caso algo falhe. Na sua cabeça estão muitas contas e equações. Como o possível valor e destino da bolsa de ação social que vai pedir. Se receber os cerca de 150 euros previstos, deixará de lado, mensalmente, 40 euros para visitar os pais todos os fins de semana. “Foi uma imposição do meu pai”, diz Rui. “Eles são muito controladores. Querem tomar conta de mim”. A mãe explica que desta forma será mais fácil lavar e engomar a roupa do filho e encher tupperwares com comida para que Rui não tenha de perder tempo nem dinheiro a cozinhar. O estudante quer poupar todos os meses 40 euros “para ter uma segurança caso os pais andem mais apertados”. Aquilo que sobrar é para as despesas académicas. Caberá à mãe pagar o valor das propinas, dividido em dez prestações.

Mas Rui tem outra opção. Descobriu que pode trabalhar cerca de dez horas por semana na Universidade (na Biblioteca, no Refeitório…) e, em troca disso, receber o valor das propinas. O jovem não quer precipitar-se e diz que só vai ponderar esta hipótese se perceber que tem tempo para a conciliar com o estudo. Se for aceite numa das residências universitárias da UBI, fica resolvida a questão do alojamento. Se isso não acontecer, a situação complica-se. Por tudo isto, Rui sabe que a adaptação não vai ser fácil. Até porque o dinheiro da bolsa só é atribuído em janeiro. Como vai viver até lá?

Durante o ensino secundário, Rui foi recebendo bolsas de mérito, atribuídas a alunos carenciados com média superior a 14 valores. Reuniu, no total, 3100 euros e apesar de ter gasto a maior parte desse dinheiro (o computador portátil ardeu e teve de ser substituído; foi necessário comprar casacos e sapatos de inverno), Rui sabia que tinha de guardar parte para a Faculdade. “Sempre impus a mim mesmo que deixaria 1000 euros de lado para o primeiro ano”.

O estudante fala detalhadamente das dificuldades e de como tenciona contorná-las. É pragmático e não parece angustiado com tudo aquilo que pode correr mal. Quando o pai ficou desempregado pela primeira vez, não recebeu durante quatro meses. “Vi os meus pais sem comer e a chorar porque não tinham como me dar de comer”.

Nessa altura, a irmã Cláudia esteve quase a deixar os estudos, mas o avô materno ajudou. “Isto altera a perceção que se tem das coisas”, diz Rui. “Uma das coisas que mais me assusta é pensar que posso ter de deixar de estudar. Mas se estiver a pensar no que pode acontecer… Se não for lutando nunca vou alcançar os meus objetivos”. Rui prefere falar do desafio de partilhar o quarto com alguém que pode não ser tão organizado e arrumado quanto ele. “Vou passar por tirano porque tento ter as coisas à minha maneira. Vou ter de me habituar que cada pessoa tem o seu feitio e faz as coisas à sua maneira”. Da ansiedade momentânea que desperta, no aluno de excelência, a ideia de “não fazer alguma cadeira”. Das possibilidades que se abrirão depois do curso. “Gostava de entrar para um laboratório ou para a indústria farmacêutica. Em Berlim, por exemplo”. Ou das saudades que vai sentir do pai e da mãe.

Há um silêncio na sala de estar da família Relvas quando se antecipa a despedida. O pai quebra o desconforto. “Só tens de pensar que ao fim de semana vens-te embora. Vais para estudar e para te divertir. E tens de arranjar uma amiga…”. Rui informa os pais que em 50 colegas, nove serão rapazes e 41 serão raparigas. Francisco Relvas insiste no conselho paternal: “Quando arranjamos um amigo, ou AMIGA – dá ênfase a cada uma das sílabas – esquecemos o pai e a mãe”.