Eusébia está incrédula. Metida no meio de um monte de ervas daninhas, a mulher, dos seus 70 anos, sacode terra das mãos e olha em volta. Neste momento, a campa da sua mãe é a única nas imediações que está limpa. Todas as restantes têm ervas altas à sua volta ou mesmo por cima. O cenário repete-se em vários dos talhões do cemitério de Benfica, em Lisboa, e está a deixar os seus frequentadores indignados. A justificação da câmara para a existência de verdadeiros matagais nas campas é a falta de herbicida.

“Quando eu encarei com isto ia-me dando uma coisa”, comenta Palmira Dionísio, acabada de chegar da campa do pai junto a Eusébia. “Isto parece uma selva”, dizem entre si. Olhando em volta, neste talhão são raras as campas que se veem completamente, tal a profusão de vegetação. “Vim cá nos Finados [2 de novembro] e já estava cheio de ervas, mas não desta altura”, refere Eusébia, que atribui às chuvas dos últimos dias tal crescimento.

Descendo um pouco mais naquele que é um dos maiores cemitérios da capital, outras zonas se encontram em que o matagal parece ter invadido por completo as áreas onde estão os corpos de centenas de pessoas. Ercília Valente, que tenta pôr umas pilhas novas numa vela elétrica junto à campa do seu pai, acusa os funcionários do cemitério de apenas limparem os talhões mais próximos da entrada e esquecerem-se dos outros. “Isto dá mau aspeto, venho cá de 15 em 15 dias há sete anos e isto sempre esteve mal”, diz.

“Os cemitérios das aldeias estão ali limpinhos, arranjadinhos, é uma maravilha. É uma tristeza isto estar neste estado, nem parece um cemitério de cidade”, desabafa Eusébia. Aldina, que não tem nenhum familiar numa campa, mas sim numa gaveta, comenta que o cemitério da sua terra natal, Cantanhede, “é lindo de se ver”, enquanto “isto é vergonhoso”.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Durante a visita do Observador ao espaço, não foi possível encontrar nenhum coveiro ou trabalhador, o que, aliás, é uma queixa comum dos frequentadores. Também a responsável pelo cemitério não estava presente nesse momento, pelo que não foi possível obter o seu comentário à situação.

Segundo uma técnica da divisão de gestão cemiterial da Câmara Municipal de Lisboa, a existência de tantas ervas nos talhões do cemitério de Benfica e também em alguns do Alto de São João deve-se a “rotura de stock de herbicida”, que deverá ser comprado “muito brevemente”.

“Já tivemos autorização de compra mas ainda não conseguimos terminar o processo”, garantiu ao Observador a funcionária autárquica, não querendo comprometer-se com um prazo para a situação estar resolvida.

Ao contrário de outras áreas da atuação municipal, a manutenção de cemitérios é uma competência da câmara municipal e não das juntas de freguesia. Inês Drummond, presidente da junta de Benfica, já tem conhecimento da situação devido a reclamações que foi recebendo nos últimos dias. O máximo que pode fazer é reencaminhar as queixas para a divisão de gestão cemiterial. “Seria do nosso interesse assumir a gestão” do cemitério, refere, mas tal só seria possível se as outras juntas manifestassem semelhante interesse. “Somos completamente a favor da descentralização de competências”, acrescenta a autarca socialista, que em cinco anos de mandato nunca viu essa possibilidade ser discutida.

Enquanto o herbicida não chega, as ervas vão crescendo e as pessoas que frequentam o cemitério indignam-se. “Qualquer dia é preciso trazer uma catana”, atira uma mulher enquanto se dirige com um garrafão para a campa da sua mãe.